Negócios

Movida encolhe para não perder

Locadora de veículos cresce 5,8% em receita líquida durante a pandemia, na contramão da queda de 31,7% de sua maior concorrente, a Localiza.

Crédito: Rivaldo Gomes

LIQUIDAÇÃO Sob comando de Renato Franklin, Movida gerou caixa e reforçou o balanço com a venda de carros seminovos; de quebra, diminuiu idade média da frota da empresa. (Crédito: Rivaldo Gomes)

Sem deslocamento, não há carro. Sem carro, não há locação. A aritmética lógica do setor de rent a car no Brasil sugere que todas as empresas do ramo estão no prejuízo. Mas a conta não é essa. Ao enxergar que o isolamento social imposto pela pandemia da Covid-19 e a consequente restrição de circulação de pessoas trariam longos meses de problemas, a locadora Movida, dona de 11% do mercado brasileiro, preparou-se entre março e abril para o pior. Colocou em liquidação 18,5 mil carros de sua frota e cortou custos em todos os departamentos. Resultado: a empresa conseguiu ficar no azul mesmo em um cenário de mais de 90% de queda na demanda. “Vender carros gerou caixa, reforçou o balanço e ajudou a diminuir a idade média da frota de aluguel, já que repusemos com zero quilômetro parte dos seminovos que deixaram os pátios da companhia”, disse Renato Franklin, CEO da Movida. Com isso, segundo ele, a empresa terminou o segundo trimestre com um resultado financeiro mais forte do que quando entrou na quarentena. A empresa registrou crescimento de 5,8% na receita líquida no período, com R$ 1,04 bilhão, contra R$ 990 milhões entre abril e junho de 2019.

Os números da Movida vão em sentido contrário ao de sua principal concorrente, a Localiza. No segundo trimestre, a companhia mineira, com 37% de market share, teve queda na receita líquida de 31,7% sobre abril a junho de 2019, redução de 52,7% no lucro líquido (de R$ 190,1 milhões para R$ 90 milhões) e diminuição de 40,36% em vendas de seminovos (33.095 automóveis no segundo trimestre do ano passado contra 19.736 de abril a junho deste ano). Na percepção do mercado, a empresa demorou mais para tomar decisões de ajustes.

A estratégia da Movida para se manter no positivo foi, basicamente, encolher. Foram vendidos no segundo trimestre deste ano 18.465 veículos, com idade média de 16 meses, volume 14,9% maior sobre o segundo trimestre de 2019 e 30,7% acima em relação aos primeiros três meses de 2020. Em contrapartida, até agora foram comprados 5.962, menos de um terço desse total. Até a pandemia, a frota total da empresa era de 110 mil veículos, sendo 100 mil para locação e terceirização de frota e 10 mil para venda. Em março, eram 16 mil à venda, do total de 119 mil automóveis. No mês seguinte – o primeiro que refletiu inteiro o impacto do isolamento social –, a Movida dobrou o volume de seminovos e passou a ter 33 mil para comercialização.

Segundo o CEO, a dieta foi necessária, especialmente com lojas de seminovos fechadas. Apenas as locadoras se enquadraram na categoria de serviços essenciais. Por isso, a Movida precisou acelerar o processo de digitalização para garantir as vendas de forma on-line. Do total de R$ 323 milhões investidos no trimestre, R$ 300 milhões foram destinados paras as compras dos novos carros e o restante empregado em ações de TI, que não estavam num curto horizonte. “Achava que ainda não havia cultura no Brasil para venda de carro usado totalmente pela internet, mas foi o único caminho disponível. Batemos recorde de vendas”, afirmou Franklin.

O impacto das vendas dos seminovos no período fez com o que a unidade de negócios representasse 75% da receita da Movida no trimestre. Em 2019, representava 58% da fatia do bolo. Locação respondia, no ano passado, por 29% do total, contra os atuais 17% da receita. Em terceirização de frota, o índice manteve-se estável, embora houvesse expectativa de crescimento.

Outra providência adotada pela companhia foi apertar os cintos em relação aos gastos. A empresa reduziu R$ 67 milhões em custos operacionais no trimestre anterior. Essas ações, na avaliação de Franklin, foram cirúrgicas para que a Movida conseguisse fechar o período com resultado positivo, ainda que com queda de 93,7% no lucro entre abril e junho deste ano em comparação com os mesmos três meses do ano passado, com R$ 2,6 milhões reportados no segundo trimestre, contra R$ 41,5 milhões no mesmo período de 2019. “Sem isso, certamente fecharíamos o trimestre no prejuízo. O resultado foi excelente”, disse Franklin. Tudo isso ajudou a empresa a registrar R$ 1,7 bilhão em caixa no período.

DESAFIO Isolamento social imposto pela pandemia restringiu a circulação de pessoas e veículos no País e fez a Movida mudar a estratégia, para ser mais agressiva na venda de carros e assim evitar prejuízos. (Crédito:Rivaldo Gomes)

O que a Movida não conseguiu evitar foi o quase que literal ponto morto no volume de locações de automóveis. A receita líquida deste segmento da companhia despencou 34,1% na comparação anualizada de abril a junho (R$ 174 milhões contra R$ 263,9 milhões). Em relação ao volume de carros disponíveis para aluguel, o número também caiu. Eram 63.282 no fim do ano passado, contra 56.834 prontos para locação em julho. A queda acentuada foi sentida também para motoristas de aplicativos, como Uber. Esse contingente representa, em média, 10% dos veículos locados na Movida e chegou a cair 30% no pico da pandemia em volume de frota locada e, ainda mais em receita, por conta dos descontos concedidos para tentar manter o carro em circulação.

DEVOLUÇÃO Em todo o setor, a queda foi ainda maior. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Locadoras de Automóveis (Abla), Paulo Miguel Júnior, dos 200 mil veículos que estavam locados para uberistas, 160 mil foram devolvidos às empresas logo no início da pandemia. “O momento assustou a todos. Mas já começamos a perceber a retomada. Boa parte da frota dos motoristas de aplicativo já está de novo nas ruas”, afirmou o dirigente. Ele também acredita em aceleração de novos contratos para gestão de veículos de empresas nos próximos meses.

Para Miguel Júnior, falta política pública de apoio, principalmente, ao pequeno empresário do setor. “A maioria do segmento é composta por empresas com poucos carros. E o que se tem ouvido é a enorme dificuldade em ter acesso a crédito para pequeno e microempreendedor. O governo federal fala em linhas de crédito, mas, na prática, pouca gente consegue pegar”, disse.

Num cenário tão complexo, a estratégia da Movida parece ter refletido também na B3. A ação da companhia foi negociada a R$ 16,96 na segunda-feira (24), recuperando a barrigada de março. No pior cenário, o papel chegou a ser oferecido a R$ 7,71 no dia 23 de março, um dia antes do início da restrição de circulação no estado de São Paulo. No primeiro pregão de 2020, estava a R$ 19,47.

Renato Franklin acredita que a retomada do setor de locação está ligada a gradual volta do turismo no Brasil, com o aumento na procura de automóveis para viagens de curta distância, na crescente procura de carros por assinatura – aluguel de longo prazo – para pessoa física e na recuperação da confiança do cliente no uso de automóvel locado, adotado por empresas que preferem evitar circulação de funcionários no transporte público e, assim, diminuir chances de contágio. Com a possível retomada no segundo semestre e a consolidação dos serviços digitais tanto para locação quanto venda de seminovos, Franklin é otimista para os próximos meses, com expectativa de resultado parecido ao de 2019, quando a Movida faturou R$ 3,8 bilhões. “A gente tinha três ou quatro estradas de crescimento e hoje tem 10. E dá para acelerar mais nessas estradas.”.

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