Tecnologia

Mosaico refaz seu quebra-cabeça

Dona das plataformas Buscapé e Zoom muda de comando e lança novo portfólio de serviços digitais para retomar crescimento.

Crédito: Fabio Cordeiro

NOVA LIDERANÇA Perfil executor e agilidade foram fatores decisivos para a escolha do novo CEO, Maurício Cascão. (Crédito: Fabio Cordeiro)

O que acontece com um time que começa a performar mal depois de uma fase de bom desempenho? Na Mosaico, dona das plataformas de comparação de preços Bondfaro, Buscapé e Zoom, a resposta para se reerguer está na mudança de posição das peças-chave. Maurício Cascão acaba de assumir a operação, até então comandada pelo executivo Thiago Flores, que seguiu para uma cadeira no Conselho de Administração. “Entendemos que era o momento de buscar um novo perfil de CEO, alinhado com os desafios”, afirmou Guilherme Pacheco, um dos fundadores da empresa, em conferência. “A experiência em gestão será essencial para garantir a execução com rapidez e qualidade, escalando o negócio.”

Com Cascão e uma nova frente de serviços financeiros, a empresa pode estar com as peças que faltavam no mosaico. Internamente, reação é a palavra de ordem. Desde a abertura de capital, em fevereiro, quando captou R$ 1,25 bilhão, a Mosaico viveu um revés: os investidores passaram a desconfiar da sua capacidade de acompanhar o ritmo do mercado, especialmente pela demora para colocar em prática as estratégias apresentadas no plano. As ações, que já chegaram a ser negociadas a R$ 41 por papel, acumulam queda de 68%. E os resultados do segundo trimestre foram um golpe nas perspectivas da companhia. Entre abril e junho, o lucro líquido sofreu recuo de 73% na comparação com o mesmo período do ano anterior, caindo para R$ 3,7 milhões, e as despesas aumentaram 24%. Resultados, segundo a empresa, ligados à sazonalidade e à retomada das compras no varejo físico. Só que fica difícil argumentar com os números – especialmente porque vão na contramão do setor. Mesmo diante desse cenário, segundo a Mosaico, o “jogo está apenas no começo”.

CASHBACK Para Maurício Cascão, de fato está. O executivo entrou em campo com a nova área de serviços financeiros, que vai operar sob a marca Bcash. O primeiro produto, a ser lançado até novembro, é um cartão de crédito com cashback em parceria com o BTG+. Para as operações realizadas no Buscapé, o retorno será de 2%. Sem grandes novidades até aí, e a Mosaico sabe disso. Com a ampliação desse serviço de cashback, o resultado almejado, na verdade, é que a pessoa não tenha motivos para sair do buscador. A percepção da empresa é que a plataforma estava se tornando um ponto de passagem do consumidor, que acabava finalizando a compra no concorrente. “Fazíamos todo o trabalho educativo, mas o comissionamento ficava com quem realizava a última transação. Essa é uma equação que estamos resolvendo agora”, afirmou o novo CEO.
Não será tarefa simples. O Brasil vive uma explosão de carteiras digitais. Pesquisa feita pela plataforma Toluna indica que 89% dos brasileiros começaram a utilizar carteiras digitais durante a pandemia. O campo de batalha do cashback é pelo aumento da base de clientes e pelo domínio de recorrência o que provoca a entrada de agentes de diversos setores – de bancos e fintechs a varejistas. Alberto Serrentino, fundador da consultoria Varese Retail, diz que provavelmente, não haverá espaço para todos. “Veremos um ciclo de consolidação, em que várias operações serão absorvidas, fundidas ou simplesmente não vingarão”, afirmou.

RESPOSTA DO MERCADO Depois da bem-sucedida abertura de capital em fevereiro, investidores cobram reação da empresa. (Crédito:Cauê Diniz)

Para manter o fôlego e explorar a nova fronteira que cruza, a Mosaico quer mostrar sua relevância na jornada de compras. A tática é ganhar o consumidor com uma proposta de garantia de menor preço – ao menos por um tempo. Na prática, caso o usuário encontre um produto comprado com o cartão da empresa por um valor menor no período de até dez dias, poderá solicitar o reembolso da diferença. Assim, segue sua missão de reconquistar o tráfego das compras on-line no Brasil. A reação precisará ser agil. Afinal, enquanto o e-commerce movimentou mais de R$ 53 bilhões neste ano no País, crescimento de 31%, segundo a consultoria Ebit/Nielsen, a empresa amargou tombo de 3% no faturamento do primeiro semestre, para R$ 111 milhões.

Hoje, os parceiros associados ao serviço (marketplaces de Amazon, Carrefour, Via e outros) representam 32% das vendas brutas totais. O leque que se abre com a consolidação dos serviços financeiros é a verdadeira jogada da Mosaico. “O que a gente enxerga, na sequência, é trabalhar recarga, garantia estendida e seguros. Agregar produtos a essa compra”, afirmou Cascão. Para Serrentino, a estratégia em trabalhar com cashback é equacionar o custo de aquisição do cliente e o valor do cliente no tempo, uma forma de medir a recorrência na plataforma. “Sem esse equilíbrio, o negócio fica insustentável.”

Mas a inflação pressionou os custos de aquisição de tráfego no segundo trimestre, desequilibrando um dos elementos da fórmula. Na Mosaico, o custo por visita aumentou 126% contra o mesmo período de 2020, o que provocou queda de 51% do fluxo nas plataformas ano contra ano (para 138 milhões de visitas totais). Segundo a empresa, a redução dos investimentos em tráfego foi o fator determinante nesse recuo de visitas. A solução foi aumentar a conversão das plataformas para ganhar mais eficiência. Para suportar a expansão da companhia no último ano, as despesas com pessoal chegaram a R$ 24,3 milhões no primeiro semestre, alta de 57% na comparação com o mesmo período de 2020. Crescimento que foi puxado pelos reforços nos times de conteúdo e tecnologia.

Outra promessa para a retomada de performance da Mosaico são as vendas de eletroeletrônicos – que incluem notebooks, produtos de informática e smartphones, responsáveis por 85% da receita em 2020. Segundo a empresa, a menor taxa de renovação das compras desses produtos durante o primeiro semestre de 2021 afetou os resultados. “A característica das categorias de eletrônicos é ter tíquete médio alto”, disse Cascão. “Com o aumento do dólar e as pessoas gradativamente voltando ao trabalho, não repetimos a aceleração que tivemos no ano passado.”

DINHEIRO DE VOLTA Cartão de crédito lançado em parceria com o BTG+ oferece cashback e promete garantiar menor preço. (Crédito:Divulgação)

Mesmo com esse novo comportamento da vertical, o crescimento da Mosaico está focado em se integrar de forma mais perene na experiência de consumo. E a expectativa que paira sobre Cascão agora é sobre as entregas de resultados no fim do ano. “Estamos confiantes em uma Black Friday forte e que a aceleração do varejo digital que aconteceu em função da pandemia tenha vindo para ficar”. A própria jornada de fusões e aquisições está associada às buscas de preços na Mosaico. Depois de analisar mais de 100 empresas, a agenda pode se concretizar ainda neste ano.

O que, para o mercado, é uma demora para consolidar o processo, para a companhia, trata-se de cautela. Segundo os executivos, com a profusão de operações dessa natureza, há muitos ativos inflacionados ou com elevado valor para baixo grau de maturidade no mercado. Mas com mais de R$ 539 milhões em caixa, Cascão admite que a agenda avança internamente. Embora não crave data, o executivo admite que as áreas de conteúdo e de cashback são estratégicas para aquisição neste momento. “Estamos jogando dois jogos paralelos: o do crescimento orgânico e o das oportunidades para incorporar alguma operação que tenha mais maturidade.”