Investidores

Momento de decisão

Eletropaulo e Embraer podem ter novos donos em breve. BRF enfrenta sua maior crise. Vale a pena investir nessas ações?

O ideograma chinês que representa crise é formado pela junção de dois outros. Um deles significa risco. O outro, oportunidade. O raciocínio é que momentos em que os riscos avançam podem gerar também oportunidades de ganho. Isso está ocorrendo com três das empresas mais importantes da Bolsa brasileira. A BRF, por exemplo, está enfrentando a pior crise de sua história. E embora Embraer e AES Eletropaulo não estejam em uma situação crítica, o controle acionário de ambas pode mudar. Esses riscos trazem oportunidades para os investidores?

No caso da Embraer, sim. Uma troca de dono parece cada vez mais próxima do radar da fabricante brasileira de aeronaves. A americana Boeing vem negociando uma fusão com a Embraer há cinco meses. Nesse período, suas ações subiram 15,9%, ante 10,3% de ganho no Índice Bovespa. “A perspectiva de fusão é o principal gatilho para a alta do papel”, diz Shin Lai, analista da consultoria independente Upside, que recomenda a compra da ação. Renato Mimica e Samuel Alves, analistas do BTG Pactual, também indicam compra. Eles estabeleceram um preço-alvo de R$ 26 em 12 meses, avanço de 15,7% em relação aos R$ 22,47 da quinta-feira 10.

Eletropaulo: disputa pelo controle acionário fez o preço das ações dobrar desde o início do ano. Os analistas não recomendam a compra dos papéis (Crédito:Célio Messias/Folhapress)

Em relatório, os analistas avaliam que a parceria com a Boeing vai melhorar a capacidade comercial da Embraer e promover economias significativas na cadeia de suprimentos, reduzindo os custos. O principal entrave à fusão, a objeção das autoridades militares, está se dissipando. Na semana passada, o ministro interino da Defesa, general Joaquim Silva e Luna, disse que as negociações estão avançando e um acordo deve sair ainda neste ano. Rafael Passos, analista da Guide Investimentos, espera que os papéis sejam assinados após a eleição de outubro. Uma questão em aberto, porém, é se a empresa resultante da fusão continuará a ter suas ações negociadas na Bolsa brasileira.

Já no caso da Eletropaulo, os analistas ouvidos pela DINHEIRO são unânimes em não recomendar a compra, pois os preços já subiram demais. No dia 28 de fevereiro, a distribuidora de energia da Região Metropolitana de São Paulo confirmou que sua controladora, a americana AES, estava estudando vender a empresa. Porém, o negócio só ganhou tração no dia 23 de março, quando a italiana Enel mostrou disposição em comprá-la. Em seguida, a espanhola Neoenergia e a brasileira Energisa entraram na disputa. Na quinta-feira 10, apenas italianos e espanhóis permaneciam na batalha: a Neoenergia com uma oferta de R$ 32,10 por ação; e a Enel liderando, com um lance de R$ 32,20 por ação. Nessa data, as ações da Eletropaulo fecharam a R$ 34,48, com alta acumulada de 97,1% desde o início do processo e de 110,8% ao ano.

Embraer: fusão com a americana Boeing pode reduzir os custos de produção dos aviões, elevando as margens de lucro (Crédito:Divulgação)

Os analistas recomendam que o investidor que ainda tiver essas ações em carteira não as venda. A sugestão é esperar pela Oferta Pública de Aquisição (OPA), marcada para o dia 4 de junho, e que vai definir o novo controlador da empresa. Além da fatia de 16,8% do capital pertencente à AES, o novo dono terá de comprar as participações do BNDES (18,7%), da União (8%) e os cerca de 56% em circulação no mercado. É a melhor hora para os minoritários colocarem os lucros no bolso. “Para quem tem a ação, vale a pena vender na OPA, pois os preços mais que dobraram desde janeiro”, diz Gabriel Francisco, analista da XP Investimentos. Além disso, novos concorrentes podem se apresentar, elevando ainda mais as cotações. “Eu não descartaria a oferta de uma empresa chinesa de última hora”, diz Rafael Passos, analista da Guide Investimentos.

Das três empresas, a situação da BRF é a mais complicada. Ela acumula dois anos de prejuízo, está sob o comando de um presidente interino e enfrenta uma recuperação dos resultados, que ainda não aparece no horizonte. Com isso, os analistas não recomendam a compra. “Quem já está comprado tem de ter paciência. A dica é esperar para ver se os resultados melhoram”, diz Lai, da Upside. Em 2016, com o empresário Abilio Diniz à frente do Conselho, a empresa amargou um prejuízo de R$ 370 milhões, o primeiro de sua história. No ano seguinte, as perdas cresceram para R$ 1,1 bilhão. Por pressão dos maiores acionistas – os fundos de pensão Petros, da Petrobras, e Previ, do Banco do Brasil – Diniz foi substituído, em abril, por Pedro Parente, presidente da Petrobras. No meio desse processo, o CEO José Aurélio Drummond pediu demissão. Sua cadeira está sendo ocupada pelo diretor financeiro Lorival Nogueira Luz Junior.

BRF: operação Carne Fraca da Polícia Federal e embargo da União Europeia à exportação de 12 frigoríficos afetam empresa (Crédito:Geraldo Bubniak/AGB)

Para piorar, a maior exportadora de frango do País está sendo investigada pela Polícia Federal, que deflagrou a Operação Carne Fraca em março de 2017 para investigar fraudes na fiscalização sanitária. A fase mais recente, a Operação Trapaça, foi disparada em março deste ano. Ela levou a União Europeia a embargar as carnes de 20 frigoríficos brasileiros, 12 deles pertencentes à BRF. “Se a companhia continuar produzindo o volume de proteína que seria exportado, ela deve provocar uma sobreoferta no Brasil, o que significaria uma queda nos preços”, diz Raul Grego, analista da consultoria independente Eleven. “Mas, se parar de produzir, a capacidade ociosa das fábricas vai aumentar os custos operacionais.” Grego recomenda a venda do papel, mesmo com prejuízo, por acreditar que o risco no curto prazo é muito alto. Mau negócio para quem comprou antes do início de 2017, quando as ações estavam cotadas a R$ 47.

Na quinta-feira 10, elas fecharam a R$ 24,00. Desde o início da crise, a queda é de 47,2%. Em 2018, a perda é de 34,4%. Já Tiago Duarte e Vitor Ferreira, do BTG Pactual, não recomendam comprar nem vender, mas reduziram o preço-alvo de R$ 33 para R$ 25 nos próximos 12 meses. Em relatório, eles destacam outro desafio: a alta de 55% no preços do milho neste ano. Principal alimento das aves, o cereal é um dos principais custos da BRF, e está subindo quando as margens já estão comprimidas. “O endividamento está consumindo a maior parte do fluxo de caixa da BRF, o que a coloca em uma (difícil) posição entre poupar ou investir para expandir o retorno”, escrevem Ferreira e Duarte.