Finanças

Moedas virtuais à brasileira

Empresas nacionais se inspiram no sucesso da Bitcoin e planejam o lançamento de suas próprias criptomoedas, buscando recursos e aumentos de vendas. Mas o BC e a CVM advertem para os riscos

Crédito: kamisoka

Você já ouviu falar da Bitcoin, a moeda virtual lançada em 2009. Desde que começou a ser negociada sistematicamente, em 2013, ela valorizou-se 35.000%. Muitos que apostaram nela ficaram milionários da noite para o dia. E isso aguçou a cobiça de investidores, em busca da nova Bitcoin. Hoje, há cerca de 1.200 moedas virtuais, ou criptomoedas, em circulação. Nas próximas semanas, duas brasileiras debutarão neste mercado: a Anti Bureaucracy Coin (ABC), da companhia de certificação Original My, e a Niobium, desenvolvida pela Niobium Foundation.

A ABC, que pode ser traduzida como “moeda anti-burocracia”, é um bom exemplo do uso das critptomoedas para alavancar negócios. Fundada em 2015 pelo empresário paulista Edilson Osório, a Original My nasceu com a proposta de converter os jurássicos carimbos dos cartórios em códigos digitais. A autenticidade dos documentos passa a ser garantida digitalmente. Operando há pouco mais de dois anos, a companhia atendeu cerca de 50 mil clientes. A maioria quer validar contratos, e um grupo quer registrar criações artísticas para evitar plágios. O crescimento depende de escala. Como o crédito está curto, Osório vai lançar uma criptomoeda própria, à imagem e semelhança da Bitcoin. “Nossa ideia é captar o equivalente a US$ 1 milhão”, diz ele. “Os compradores serão empresas clientes, que vão usá-la para pagar por serviços.” Além de levantar recursos, a iniciativa permite criar uma comunidade de consumidores fiéis.

A filial russa da Burger King fez algo parecido. A rede é a primeira grande corporação a emitir tokens, outra denominação das moedas virtuais. Ela anunciou, em agosto, o lançamento de um bilhão de tokens, cuja circulação ainda não começou. Batizados de Wooppercoin, eles serão presenteados aos clientes a cada compra de um sanduíche Woopper, e serão usados em trocas posteriores na própria rede.

Enquanto as empresas tentam captar recursos e atrair clientes, uma multidão de investidores quer lucrar negociando essas moedas. Pensando neses, o advogado paulista Fernando Barrueco quer facilitar essas transações e está desenvolvendo a Bolsa de Moedas Virtuais Empresariais de São Paulo (Bomesp). Já existem sites dedicados aos negócios com a Bitcoin, como a Mercado Bitcoin, fundado pelo empresário Rodrigo Batista em 2013. Agora, Barrueco está desenvolvendo uma plataforma parecida com a da B3 para regociar tokens de empresas. Para financiar o projeto, ele vai lançar a Niobium no fim de novembro. “Pretendemos captar R$ 5 milhões para desenvolver a plataforma, que deve começar a operar em novembro de 2018”, diz.
O mercado de moedas virtuais baseia-se em uma tecnologia conhecida como blockchain, que é uma sequência de informações.

Uma vez publicadas, elas são ordenadas cronologicamente. Tornam-se imutáveis, e essa estabilidade gera confiança e serve de referência para outras transações. Uma criptomoeda é, portanto, uma sequência enorme de informações – que pode ser rastreada até sua origem e confirmada –, à qual pessoas, empresas ou investidores atribuem um valor. Em uma analogia com o mundo real, a Bitcoin pode ser comparada a uma moeda ou nota. As trocas desse dinheiro entre as pessoas e empresas são registradas num grande e infinito livro-caixa, que no mundo virtual nada mais é que a blockchain. Ao contrário do mundo real, não há um Banco Central para garantir a validade de cada moeda emitida. Essa segurança vem da própria blockchain. Nos dois mundos, o valor das moedas oscila conforme a lei da oferta e da demanda. A Bitcoin é a mais conhecida das moedas virtuais, mas há centenas de exemplos. O banco canadense Canaccord Genuity estima o valor de mercado de todas as criptomoedas em US$ 162 bilhões. Neste ano, até outubro, as emissões levantaram US$ 8,25 bilhões.

A iniciativa de captar recursos por meio do próprio dinheiro virtual, baseado na blockchain, começou com as empresas de tecnologia americanas, que passaram a oferecer suas moedas aos investidores realizando Initial Coin Offerings, ou ICOs. Um dos primeiros a ser bem-sucedidos foi o da Ethereum, realizado em 2014. Em um processo que levou apenas 40 dias, os fundadores da Ethereum Foundation, criada naquele ano, levantaram US$ 15 milhões. Desenvolvido com base em uma tecnologia mais segura que a do Bitcoin, por facilitar a descentralização das informações, o que torna a estrutura mais resiliente a riscos sistêmicos, o Ethereum é a segunda moeda virtual em capitalização, com um estoque de US$ 24 bilhões, ante US$ 85 bilhões da Bitcoin.

A Ethereum é a preferida dos bancos. Nomes como J.P. Morgan e Santander estudam inserir essa tecnologia em seus sistemas, para diminuir o custo e o tempo das transações. Na quinta-feira 16, a American Express americana iniciou o uso de uma tecnologia baseada em blockchain para realizar remessas de valor elevado, incluindo criptomoedas, de empresas dos Estados Unidos para o Reino Unido. Detalhe: as transações serão realizadas sem os tradicionais cartões. Apesar de ainda ter de ser desenvolvida, a nova tecnologia facilitará a liquidação de operações e a transferência de recursos entre países. Aos poucos, a novidade migra dos nichos tecnológicos e financeiros para o mundo real. Em países como o Japão, já é possível pagar compras com a Bitcoin, onde caixas automáticos convertem-na em ienes.

O mercado avança, e a regulamentação também. Nos Estados Unidos, esse tipo de captação está sujeita às leis de valores mobiliários da Securities and Exchange Commission (SEC). “Percebemos uma diminuição significativa nas captações desse tipo nos Estados Unidos desde que a SEC apertou o cerco regulatório, em junho”, diz Oliver Cunningham, sócio da auditoria KPMG. Por aqui, tanto CVM quanto o Banco Central (BC) ainda não definiram como vão tratar as criptomoedas, mas ambos divulgaram alertas sobre o assunto, na quinta-feira 16. O BC informou que essas moedas “não têm garantia de conversão para moedas soberanas, e, tampouco, são lastreadas em ativo real de qualquer espécie, ficando todo o risco com os detentores”. Segundo o BC, o valor das moedas virtuais decorre da confiança dos investidores no emissor.

Barrueco, da Bomesp: plataforma de negociação, financiada com o lançamento da própria criptomoeda (Crédito: Marco Ankosqui)

“A compra e a guarda das denominadas moedas virtuais, com finalidade especulativa, estão sujeitas a riscos imponderáveis, incluindo a possibilidade de perda de todo o capital investido, além da típica variação de seu preço”, informou o BC, que também advertiu que esses ativos podem ser usados para fins ilícitos. Já a CVM divulgou um comunicado com perguntas e respostas, informando que, por enquanto, está apenas observando o mercado. Não por acaso, todos os emissores desses ativos evitam chamá-los de moedas, para não atrair a atenção dos reguladores.

O mercado ainda deve levar alguns anos para amadurecer. A recomendação para o investidor é ser cauteloso. “Hoje é preciso avaliar muito bem a seriedade do projeto antes de alocar qualquer recurso”, diz Cunningham.