Economia

Moeda mais forte

Com o objetivo de fortalecer o poder de compra do real, o Conselho Monetário Nacional reduz a meta de inflação para 2021. A medida é correta, mas falta o governo melhorar as contas públicas

Crédito: José Cruz/Agência Brasil

Força ao real: o presidente do BC, Ilan Goldfajn, combate a inflação para manter o poder de compra. (Na foto, ele participa de campanha para o uso de moedas) (Crédito: José Cruz/Agência Brasil)

Na noite da terça-feira 26, enquanto os telejornais destacavam os últimos preparativos da seleção brasileira para o jogo decisivo contra a Sérvia, na Copa do Mundo, o Conselho Monetário Nacional (CMN) tomou uma importante decisão econômica que passou despercebida pela maioria dos brasileiros. A meta de inflação para 2021 será de 3,75%, a menor desde 2004. Se comparado com a inflação atual, que acumula alta de 2,86% nos últimos 12 meses, o objetivo pode até parecer pouco ambicioso. Mas não é.

O Brasil, que tem o sistema de metas de inflação desde 1999, sempre apresentou índices de preços muito distantes da média dos demais países emergentes, em torno de 3%. Agora, finalmente, após 14 anos seguidos com um alvo de 4,5%, a meta começará a ser reduzida gradativamente (confira quadro ao final da reportagem). “A decisão representa mais um passo para a obtenção, de forma sustentável, de taxas de inflação mais baixas na economia brasileira”, diz Eduardo Guardia, ministro da Fazenda, que compõe o CMN ao lado do ministro do Planejamento, Esteves Colnago, e do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn.

Para quem nasceu após a criação do Plano Real, a hiperinflação é um assunto encontrado apenas nos livros de História. A economia brasileira, no entanto, sofre até hoje os efeitos do antigo dragão, que gerou um processo de indexação generalizada dos contratos. Sendo assim, reduzir o ritmo de avanço dos preços de forma permanente é o único caminho para o País enterrar de vez o seu triste passado de erros e desmandos na economia. Os economistas salientam que a população mais carente não tem acesso a aplicações financeiras. Por isso, a inflação acaba prejudicando particularmente o bolso dos mais pobres, num processo de concentração de renda. Combatê-la é uma das melhores políticas sociais que os governantes podem adotar.

Paralisação inflacionária: a greve de 11 dias dos caminhoneiros afetou o abastecimento de combustíveis e a distribuição de produtos perecíveis em todo o país (Crédito:Dário Oliveira/Agencia Estado)

Apesar da inflação bem comportada nos últimos meses, o cumprimento das metas não tem sido missão fácil desde a criação desse sistema. De 1999 a 2017, o objetivo foi descumprido cinco vezes, já considerando uma margem de tolerância prevista na regra – atualmente é de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Há vários fatores que explicam essa luta hercúlea contra a alta dos preços. Um deles, já mencionado, é a indexação de contratos e salários, que reproduzem automaticamente a inflação do passado. Outro ponto importante é o repasse cambial que ocorre em determinados produtos, quando o dólar sobe em relação ao real. Normalmente, esse fenômeno aparece em momentos de indefinições políticas, devido à fuga de investidores estrangeiros. Em 2002, por exemplo, a moeda americana disparou a R$ 4,00 (cotação equivalente a R$ 7,00 em valores atuais) devido ao chamado risco Lula, que liderava as pesquisas eleitorais. Naquele ano, a inflação oficial foi de 12,5%, estourando o teto da meta.

Até agora, a disputa eleitoral não afetou diretamente a inflação, embora o dólar tenha saltado de R$ 3,30 para um patamar superior a R$ 3,80. A desvalorização cambial decorre da desconfiança dos investidores estrangeiros em relação às agendas econômicas apresentadas pelos políticos que lideram as pesquisas. Os três primeiros colocados – Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) – estão longe de arrancar suspiros de empresários e investidores. De janeiro a junho deste ano, os estrangeiros já resgataram mais de R$ 10 bilhões da bolsa de valores brasileira, o maior volume da história em um primeiro semestre. Na quinta-feira 28, uma nova rodada da pesquisa CNI-Ibope reiterou esse cenário eleitoral que causa arrepios no mercado financeiro.

Há ainda fatores imprevisíveis tanto no cenário interno quanto no externo que podem gerar um descontrole inflacionário. Uma simples perspectiva de guerra internacional, por exemplo, é capaz de elevar o preço do petróleo, afetando o valor dos combustíveis no Brasil. No fim de maio, o País acabou vivenciando a sua própria “guerra” interna. Durante 11 dias, caminhoneiros paralisaram estradas e geraram um enorme desabastecimento de produtos. O resultado foi a disparada nos preços dos alimentos, o que certamente afetará a inflação oficial (IPCA) de junho. A prévia do mês, calculada pelo IPCA-15, atingiu 1,11%, o maior índice em 22 anos. O resultado oficial do mês será divulgado pelo IBGE no dia 6 de julho.

Preços nas alturas: a prévia da inflação de junho mostra que a greve dos caminhoneiros causou a disparada dos valores dos alimentos, como batata, tomate e cebola, levando o indicador ao maior patamar em 22 anos (Crédito:Jose Lucena/Futura Press)

Todos os fatores mencionados anteriormente são monitorados atentamente pelo Banco Central (BC), que é o órgão responsável pelos ajustes na taxa básica de juros (Selic). Nenhum deles, entretanto, preocupa mais a autoridade monetária do que a situação fiscal do País. Há vários anos, as contas públicas vêm apresentando rombos bilionários – neste ano, o déficit primário previsto é de R$ 159 bilhões. Esse descontrole fiscal é reiteradamente destacado pelo BC em atas de reuniões e comunicados ao mercado como um empecilho a uma redução mais acentuada da taxa de juros.

Nesse contexto, a maioria dos analistas tem avaliações convergentes sobre a importância do ajuste fiscal como base para que as metas menores de inflação sejam factíveis nos próximos anos. “Se a situação fiscal não for melhorada, o cenário para atingir qualquer meta será difícil de ser cumprido”, diz José Ronaldo de Castro Souza Jr., diretor de estudos e políticas macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ele explica que a inflação tem ficado bem comportada, desde o ano passado, por causa da grande ociosidade na economia. Se o País voltar a crescer num ritmo mais forte, diz ele, esse quadro mudará e ficará evidente que as contas públicas desequilibradas geram inflação.

Com a experiência de quem já foi diretor do BC, o economista José Júlio Senna concorda com a decisão do CMN de buscar sempre uma meta de inflação cadente. Porém, ele teme que o resultado da eleição, em outubro, possa ser um desastre – “a vitória de um populista” –, o que inviabilizará o cumprimento das metas menores. “Se o próximo presidente discordar das metas e revisá-las para cima, o sistema de metas perderá credibilidade”, afirma Senna. “Nenhum país sério do mundo abandonou o sistema de metas.”

O recado para todos os candidatos, segundo os especialistas, é muito claro. O Brasil precisa caminhar para metas de inflação em torno de 3%, como ocorre nos principais países emergentes. Para isso, será necessária a continuidade dos programas de reformas, incluindo a tributária, a administrativa e a da Previdência Social. E, antes que algum populista tente enganar os eleitores, vai um alerta. Um “pouquinho mais de inflação” não gera um “pouquinho mais de crescimento econômico”. Só serve para enfraquecer o real e piorar a situação social dos mais pobres.