Uma coalizão de 55 organizações lideradas por imigrantes acusou nesta quarta-feira (2) o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, de ter traído suas promessas ao defender “componentes-chave” das políticas de seu antecessor, Donald Trump.

Um ano após uma série de ordens executivas assinadas por Biden sobre questões migratórias, a coalizão Alianza Americas, presente em 40 estados dos EUA, lamenta “a falta de avanços” na proteção dos migrantes.

“Embora tenha havido algum progresso, o governo segue defendendo os principais componentes-chave das políticas migratórias desumanas de Trump”, afirmou em um comunicado.

A política do presidente democrata “é bem-vinda após a espantosa crueldade e o flagrante racismo dos anos de Trump, mas em áreas cruciais, a Casa Branca de Biden continua a defender o espírito de ódio das políticas migratórias” do magnata republicano, avalia Hazel Contreras, coordenador da Alianza Americas para a América Central.

Os migrantes reprovam Biden por “apoiar e restabelecer políticas de imigração draconianas”, como o controverso “Título 42”, uma disposição usada desde a era Trump que permite que imigrantes sem documentos sejam imediatamente expulsos, mesmo que sejam requerentes de asilo, devido à pandemia de covid-19.

A Casa Branca também restabeleceu o programa “Fique no México” (os Protocolos de Proteção ao Migrante, MPP), que obriga os solicitantes de asilo a aguardarem a resolução de seus casos em “cidades fronteiriças mexicanas onde não estão seguros”, protestam.

O governo dos Estados Unidos se viu obrigado a restabelecer o programa após várias reveses judiciais e recorreu à Suprema Corte para resolvê-los.

A Alianza Américas lamenta particularmente a falta de avanços em relação ao Status de Proteção Temporária (TPS), um mecanismo renovável que impede a deportação e dá acesso a uma permissão de trabalho para cidadãos estrangeiros que não podem retornar com segurança ao seu país devido a desastres naturais, conflitos armados ou outras condições extraordinárias.

Aplica-se a várias nações da América Central, mas como é temporário, deve ser renovado de tempos em tempos.

“Pedimos uma nova designação de TPS para El Salvador, Honduras e Nicarágua e uma primeira para a Guatemala, pois ofereceria proteção contra deportação por mais 18 meses, já que as condições em cada país continuam instáveis e perigosas para retornar”, disse à AFP Yanira Arias, diretora da campanha nacional da coalizão.

O fato de o governo Biden não ter feito isso “é uma das maiores decepções de sua agenda migratória até agora”, acrescenta.

– Acertos-

Os migrantes estão satisfeitos, no entanto, com algumas medidas adotadas por Biden, como a proposta de um plano plurianual de 4 bilhões de dólares para lidar com a migração de El Salvador, Guatemala e Honduras e o lançamento de uma estratégia de cinco pilares: a luta contra a insegurança econômica, a corrupção, o crime, a violência de gênero e a promoção dos direitos humanos.

Também aplaudem a iniciativa para que o setor privado invista na América Central e o envio da vice-presidente Kamala Harris ao México e à Guatemala. Nas viagens, porém, Harris dizia aos migrantes: “Não venham.”

“A devastação dos desastres climáticos em Honduras, Guatemala e Haiti continuará a alimentar a migração”, afirma Melanie Minuche, organizadora de justiça climática da Alianza Americas.

“Dado o quanto o norte global, incluindo os Estados Unidos, alimentou a crise climática com as emissões de gases de efeito estufa, o governo Biden tem a responsabilidade moral de priorizar a criação de vias legais para que aqueles que fogem dos desastres climáticos na América Central tenham opções para buscar uma vida melhor”, diz.

Desde sua chegada à Casa Branca, Biden, que havia prometido uma política migratória “mais humana”, abriu várias frentes, chegando a propor um caminho para a cidadania de 11 milhões de indocumentados, mas cada uma de suas iniciativas esbarrou no Senado e a feroz oposição dos republicanos, sobre quem Trump ainda tem muita influência.