Newsletter

Microsoft: saiba por que a bigtech fez o maior desembolso de sua história para comprar a empresa de games Activision

Entenda o que levou a gigante fundada por Bill Gates a pagar US$ 68,7 bilhões para ter o controle da produtora de games Activision, de Call of Duty, na maior aquisição da história do setor.

Crédito: Divulgação

BONS E MAUS LENÇÓIS Bobby Kotick, atual CEO da Activision: acusações de não agir contra assédio sexual entre funcionários não deve garanti-lo na empresa. (Crédito: Divulgação)

O paralelo entre as compras da Marvel (US$ 8 bilhões, em 2009) e da Lucasfilm (US$ 4 bilhões, em 2012), ambas pela Disney, é o mais próximo que se pode chegar para entender o movimento impressionante da Microsoft ao adquirir a Activision Blizzard, na terça-feira (18). A única — e gritante — diferença é que a empresa fundada por Bill Gates gastou seis vezes mais. Por que uma empresa de games vale tanto? Parte da resposta está no fato de que ela produz conteúdo de entretenimento que pode se expandir para das galáxias. Até aí, as duas que se uniram à Turma do Mickey também. Uma criou super-heróis como o Homem-Aranha. A outra, Luke Skywalker, de Star Wars. Seriam essas estrelas menos rentáveis que Lich King, de World of Warcraft, e Isabella, de Call of Duty Vanguard? Provavelmente não. E é por isso que chama a atenção o tíquete pago pela Microsoft. Ainda não é oficial, mas ele pode saltar dos anunciados US$ 68,7 bilhões para US$ 75 bilhões. Mesmo para a segunda companhia com maior valor de mercado do mundo — US$ 2,2 trilhões, atrás somente da Apple, com US$ 2,7 trilhões. Até a semana passada, a maior aquisição da Microsoft havia sido a do LinkedIn, por US$ 26,2 bilhões.

Pelos dados divulgados, a transação feita será em dinheiro e inclui os US$ 6,37 bilhões em caixa da Activision. Os acionistas da empresa de games irão receber US$ 95 por papel, um prêmio de 45% em relação ao preço da semana anterior. Isso depois de um 2021 de queda de perto de 40% na bolsa devido a um processo movido pelo Estado da Califórnia por discriminação e assédio sexual — sim, isso vai no pacote para a Microsoft resolver.

COMANDANTE DA JORNADA O futuro novo chefão da Activision, o CEO da Microsoft Gaming e divisão Xbox, Phil Spencer. Ao fundo, o jogo mais famoso da nova aquisição, Call of Duty. (Crédito:Christian Petersen)

Com a notícia da venda, as ações da Activision subiram 38%, enquanto as da Microsoft fecharam o dia com uma queda de 1%. Calma. Dado esse passo, a Microsoft se tornará, se aprovada a transação pelos reguladores em Washington, a terceira maior companhia de games do mundo, atrás da chinesa Tencent e da arquirrival Sony. Deu para entender o motivo da compra?

ASSINATURAS E METAVERSO O movimento não é novo para a Microsoft, que vem incrementando nos últimos anos seu forte braço Xbox, que é o adversário pau a pau da Sony no mercado de consoles. Ou seja, a Microsoft já é games há muito tempo, ainda que pouca gente se lembre do cultuado Microsoft Flight Simulator 1.0, de 1982. Em setembro de 2020, ela comprou a ZeniMax Media, ou Bethesda Game Studios, dona de títulos como Fallout, Elder Scrolls e DOOM, por US$ 7,5 bilhões. Antes, adquiriu a Mojang, criadora do famoso Minecraft, por US$ 2,5 bilhões.

Divulgação

“Estamos investindo em conteúdo de excelência mundial, comunidades e nuvem nesta nova era de jogos” Satya Nadella CEO da Microsoft.

Com a Activision, a Microsoft terá 30 produtoras internas de games para a grande batalha dos próximos anos. Inicialmente, a impressão poderia ser de que é uma forma de ela ter mais exposição à receita por assinaturas, já que tem um serviço como a Netflix, mas de videogames, o Game Pass, com 25 milhões de usuários, e somando o catálogo da Activision adicionariam mais 400 milhões distribuídos por mais de 190 países. Parece bom, não?

Mas em 2022 o ponto é outro, assumido pelo próprio CEO da Microsoft, Satya Nadella: “Jogos, hoje em dia, são a categoria mais dinâmica e emocionante do entretenimento, entre todas as plataformas. E terão um papel-chave no desenvolvimento de ferramentas para o Metaverso.” É uma jogada mais longa e diversa, para construir os primeiros blocos virtuais dessa jornada, como a empresa mesmo admite, comprando prática e integralmente a ideia de Mark Zuckerberg, da Meta. O homem forte no comando dessa aventura bem estudada será o CEO da divisão XBox,Phil Spencer. “Até a transação ser concluída, a Activision Blizzard e a Microsoft Gaming continuarão a operar individualmente. Uma vez que o negócio se complete, a empresa se reportará a mim como CEO”, afirmou o executivo.

Parece que a intenção

é deixar o CEO da Activision, Bobby Kotick, no comando até lá . Kotick teve conhecimento dos casos de assédio sexual em sua empresa (que propagandeia ser uma das 100 Melhores para se Trabalhar, segundo a revista Fortune) e teria feito pouco para resolver a questão. Segundo o The Wall Street Journal, o executivo sairia de cena assim que o jogo terminar, mais para o fim do ano. Nenhuma das empresas quis comentar.

BILHÕES DE JOGADORES No mundo das transações no setor, a Take-Two Interactive, produtora do popular Grand Theft Auto, pagou dias atrás US$ 13 bilhões pela desenvolvedora de games para redes sociais Zynga, que tem em seu catálogo jogos como FarmVille. É um negócio em ebulição, já que há cerca de 3 bilhões de pessoas ativamente jogando videogames no mundo. A compradora do momento aposta não só em seu console e carteira de games, mas também nos 95% que estão jogando em mobile. Quando a Microsoft diz que o mundo dos games é o mais excitante entre todos no entretenimento — já que com a pandemia, os estúdios de cinema pararam de comprar uns aos outros e as salas estão com público bem reduzido —, não estão brincando. Apenas jogando o maior dos jogos.