AS MELHORES DA DINHEIRO 2020

Menos etanol, mais açúcar

Diante das ameaças que a pandemia trouxe para o setor sucroalcooleiro, a Usina São Manoel mudou o mix de produtos e apostou em ações de sustentabilidade para crescer em 2020.

Crédito: Tadeu Fessel

Após susto com o início de isolamento social, o consumo do etanol caiu menos do que se esperava e o preço do açúcar se normalizou no mercado internacional. (Crédito: Tadeu Fessel)



“Em janeiro e fevereiro, estávamos confiantes de que teríamos um ano melhor do que 2019, mas em março a tendência se reverteu”, afirmou Carlos Dinucci, presidente da Usina São Manoel. Com o isolamento social, o consumo de combustíveis no Brasil e no mundo caiu de forma drástica – e os valores de referência do petróleo fecharam o primeiro trimestre acumulando as maiores perdas da história. O resultado foi a queda no preço do etanol, cujo consumo também despencou. Diante dessa ameaça, a São Manoel alterou seu mix de produtos, aumentando a produção de açúcar. Ao mesmo tempo, manteve o foco em sustentabilidade e nos planos estratégicos. Como resultado dessa estratégia, a empresa espera fechar o ano com crescimento – além do título de campeão em seu setor no anuário AS MELHORES DA DINHEIRO 2020.

Uma das primeiras ações que Dinucci tomou foi intensificar o controle de custos. “Em um ambiente de produção de commodity, se a empresa tem custos de produção competitivos, as oscilações de preço no mercado são mais administráveis”, disse. Técnicas de melhorias contínuas e o gerenciamento de métricas de gestão ajudaram a usina, que fica no município de São Manuel (SP), a agir rápido quando a insegurança sobre os meses seguintes ao início da pandemia da Covid-19 se abateram sobre o mercado. Entre os principais receios do executivo estavam, evidentemente, os cenários de retração de 50% no consumo do etanol, a queda do preço do petróleo — que chegou a ser negociado a US$ 19,85 em março — e a insegurança sobre a disponibilidade de crédito com o fechamento dos bancos.

Carlos Dinucci empresa: Usina São ManoelCargo: presidente Principal realização da gestão: Investimento em tecnologias como planejamento digital de plantio, uso de ferramentas de data mining e de geoprocessamento para análises espaciais de dados, além da expansão da capacidade industrial para 4,1 milhões de toneladas.

Aos poucos, a realidade foi se mostrando menos ameaçadora do que as projeções. A demanda do etanol de fato caiu, mas a redução foi bem menor, cerca de 20%. O petróleo voltou aos patamares de US$ 45 o barril e o preço do açúcar atingiu 12,5 centavos de dólar por libra-peso, cotação próxima à de antes da pandemia. Internamente, a usina inverteu o que pôde de sua produção para o açúcar branco de uso industrial vendido para marcas como Coca-Cola, Mars e Nestlé. “A safra 2019/2020 acabou sendo mais açucareira do que alcooleira, tendência que deve se repetir em 2020/2021”, afirmou Dinucci. Do total produzido pela empresa, o açúcar, que participou com 50% no ano passado, evoluiu para cerca de 55% este ano. Para o próximo período, a meta é que a moagem total alcance 3,7 milhões de toneladas de cana, contra as atuais 3,6 milhões. Em faturamento, significará aumento de R$ 630 milhões para R$ 730 milhões (alta de 16%), na comparação anual.

A estrutura para suportar o aumento da moagem começou a ser construída há cerca de cinco anos, com a expansão da capacidade industrial para 4,1 milhões de toneladas, suficientes para produzir 240 mil toneladas de açúcar, 170 milhões de litros de etanol e 3,5 mil toneladas de levedura por ano. Essa estrutura deve permitir atender a um ciclo de crescimento de mais três ou quatro anos. Agora, o objetivo é aumentar a produtividade. “Queremos tirar mais cana do campo”, disse Dinucci. Para isso, o caminho será a tecnologia. Atualmente, a empresa já utiliza recursos como planejamento digital de plantio, uso de ferramentas de data mining e de geoprocessamento para análises espaciais de dados, entre outros. O próximo passo é trazer mais inovação com uma área recém-criada para se dedicar a mapear startups que tragam soluções adequadas para a usina.



“Em um ambiente de produção de commodity, se a empresa tem custos de produção competitivos, as oscilações de preço no mercado são mais administráveis” Carlos Dinucci, presidente da Usina São Manoel.

Todo o movimento de expansão da São Manoel é pautado em uma visão de longo prazo, ancorada no tripé financeiro, ambiental e social. As ações realizadas nesse sentido estão reportadas nos sete relatórios de sustentabilidade já publicados pela companhia. O oitavo está prestes a sair do forno, também no mo-delo do Global Report Initiative (GRI). Para Dinucci, “sustentabilidade é ter a coragem de reportar com transparência o que você faz com a disposição de melhorar continuamente”. Por isso, garante, cumpre o rito de manter um diálogo aberto com os funcionários. Foi justamente numa reunião com a equipe, que surgiu a ideia do programa socioambiental Ciclo do Mel.

Para provar que não havia uso excessivo de agroquímicos nas suas plantações, a usina fez um acordo com a cooperativa de apicultores e passou a abrigar caixas de abelhas em suas terras. Como a espécie é muito sensível aos químicos, a convivência saudável é um indicador de que a cultura é tratada de maneira responsável. Parte do mel é doado para a casa Santa Maria, um abrigo temporário para crianças, administrado por funcionários da usina. “Para nós, sustentabilidade é parte do negócio. E isso é incontestável”, afirmou Dinucci.


As melhores

1. USINA SÃO MANOEL 428,18 PONTOS

2. CERRADINHOBIO 406,90 PONTOS

3. TEREOS AÇÚCAR E ENERGIA BR 352,58 PONTOS