Negócios

Marfrig volta às origens

Com a aquisição da americana National Beef, por quase US$ 1 bilhão, a empresa de Marcos Molina torna-se a segunda maior do mundo em carne bovina, reduz a alavancagem e abre os mercados da Ásia

Crédito: Silvia Costanti

Trajetória: fundador da Marfrig, Molina construiu uma gigante do setor (Crédito: Silvia Costanti)

O domingo 8 de abril foi agitado no escritório da Marfrig Global Foods. Poucas horas antes de assinar o contrato de aquisição da americana National Beef, Marcos Molina, fundador e presidente do Conselho de Administração; Martín Secco, CEO; e Eduardo Miron, vice-presidente de finanças, checavam os últimos detalhes legais do contrato. Em apenas dois meses, as duas empresas chegaram a um entendimento para a negociação de 51% das ações, por US$ 969 milhões (o BNDES não participou da negociação). “As conversas aconteceram em um espaço muito curto de tempo”, diz Miron. “Conhecíamos a empresa, então fizemos só uma diligência rápida e o acordo aconteceu.”

A operação sinaliza uma volta às origens para a Marfrig. A união das duas empresas vai criar uma gigante do setor de proteínas, com receita líquida de R$ 43 bilhões, capacidade de abate de 35 mil cabeças de gado por dia e geração de caixa (ebitda) de mais de R$ 3 bilhões. No segmento global de bovinos, a nova companhia se torna a segunda maior dos setor, atrás da JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, que fatura R$ 163,2 bilhões. Responsável por 13% da capacidade de abate nos EUA, a National Beef exporta para 40 países e abrirá as portas dos mercados do Japão e da Coreia do Sul, hoje fechados para a carne brasileira. Além disso, a Marfrig anunciou a intenção de vender a Keystone Foods, sua subsidiária de processamento de alimentos à base de frango. “A aquisição da National Beef e a venda da Keystone vão criar um modelo em que a Marfrig vai focar em seu negócio principal, que é a venda de carnes”, diz Secco.

A negociação surpreendeu o mercado. A Marfrig vinha lutando para reduzir o seu endividamento e, nos últimos anos, teve de se desfazer de ativos. Em 2013, a empresa vendeu a marca Seara para a JBS, por R$ 5,8 bilhões. A empresa dos irmãos Batista também adquiriu outro negócio da Marfrig: a britânica MoyPark, por US$ 1,2 bilhão, em 2015. A meta para o fim do ano é que a relação entre a dívida líquida e o ebitda, que está em 4,55 vezes, seja reduzida para 2,5 vezes. Com a incorporação dos resultados da National Beef em seu balanço, a Marfrig calcula que a alavancagem caia para 3,35 vezes.

“A Marfrig era uma incógnita, pois os resultados preocupavam pelo elevado endividamento e pela agressividade dos concorrentes no setor”, afirma Alcides Torres, diretor-fundador da Scot Consultoria. “Mas, com esse anúncio, as dúvidas que existiam foram reduzidas.” Para que os planos da Marfrig se concretizem, será preciso negociar a Keystone, algo que aparece como uma meta. As duas transações animaram os investidores, que provocaram uma valorização de mais de 40% nas ações nos dois primeiros pregões da semana passada. Com muito suor, Molina parece ter dado a volta por cima.