Economia

Mar revolto

Depois de 10 anos de crescimento médio na casa dos 3,5%, comércio mundial pode enfrentar a mais forte desaceleração desde 2008.

Crédito: Art Wager

O comércio mundial, que vinha desde 2009 apresentando crescimento médio de 3,5%, deve atravessar em 2020 seu pior ano desde a crise econômica que atingiu os Estados Unidos em 2008 e desestruturou boa parte da economia global. Neste ano, as incertezas trazidas pelo coronavírus, pelo aumento do protecionismo dos países tradicionalmente importadores e pela frágil trégua na briga entre Estados Unidos e China devem culminar na retração das vendas mundiais no primeiro trimestre, pelo menos é o que a alerta a Organização Mundial do Comércio (OMC).

O órgão comercial, que tem sede em Genebra, revelou que seu indicador de comércio de mercadorias caiu para 95,5 em dezembro de 2019, ante os 96,6 registrados em novembro. Nesse caso, leituras inferiores a 100 indicam crescimento do comércio abaixo das tendências de médio prazo. De acordo com a entidade, o comércio mundial de mercadorias recuou 0,2% na comparação ano a ano no terceiro trimestre de 2019. Mesmo que possa ter havido alguma retomada no último trimestre do ano passado – os números finais ainda não foram divulgados – a tendência é que o primeiro trimestre de 2020 seja enfraquecido. “Há muitas tensões no mundo, inclusive questões sanitárias com o coronavírus, isso tudo aumenta a incerteza para investidores globais”, diz Kleber Machado Filho, professor de relações internacionais da Universidade de Campinas (Unicamp).

A fala do acadêmico vem em linha com a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva. A entidade lançou na última semana um relatório apontando os desafios para a economia mundial. “A verdade é que a incerteza está se tornando o novo normal”, disse. Em um texto intitulado Encontrando uma Base Sólida para a Economia Global a economista, que avaliou o desempenho de setores estratégicos (como exportação em pesquisas de negócios, frete aéreo, transporte de contêineres, produção e vendas de automóveis e comércio de componentes eletrônicos e materiais agrícolas, principalmente madeira) defende que, na melhor das hipóteses, as instabilidades vividas em escala global terão vida curta.Mas não deixarão de ocorrer.

“É um momento de fragilidade mundial, e não estamos em boa posição para lidar com um impacto prolongado”, disse. Sobre o surto do coronavírus, ela também foi taxativa. “Essa é a nossa incerteza mais urgente […]. É um lembrete claro de como uma recuperação frágil pode ser ameaçada por eventos imprevistos.” Até dia 18, o vírus que surgiu na China deixou 2 mil mortos e pelo menos 74 mil doentes – fora de lá foram outras 900 pessoas infectadas e cinco mortos em cerca de 30 países. A crise da saúde causou interrupções no transporte e forçou muitas empresas a fecharem as portas.

“O coronavírus é a nossa incerteza mais urgente. Um lembrete claro de como uma recuperação frágil pode ser ameaçada por eventos imprevistos” Kristalina Georgieva
Diretora-gerente do FMI (Crédito:Andrew Caballero)

IMPACTO NA ECONOMIA Além do enfraquecimento da venda de commodities para a China, que atinge diretamente o agronegócio brasileiro, o prolongamento do surto também começa a atingir grandes empresas globais, principalmente as que são ligadas a telefonia e telecomunicações. Na última semana a empresa americana Apple, que depende da produção chinesa, alertou que o cerceamento do país asiático limitará o fornecimento de seus aparelhos iPhone pelo mundo.

Em uma estimativa feita pela Global Economics, a gigante norte-americana de tecnologia já perdeu US$ 26 bilhões em valor de mercado em função da crise de saúde pública, valor que pode chegar a US$ 45 bilhões dependendo da duração do surto. Sobre essa questão, Georgieva alertou que a situação pode piorar, com consequências mais graves para outros países, à medida que o impacto se espalha. “Um surto duradouro e mais severo causaria uma desaceleração ainda mais aguda e prolongada do crescimento”, disse. Para se ter uma ideia, segundo dados do ministério da Economia, só em 2019, o Brasil importou da China cerca de US$ 8 bilhões em equipamentos de telefonia e telecomunicações, provando que, no melhor estilo da teoria do caos, um espirro na China impacta a vida de alguém no Brasil…

Chão de fábrica Apple já perdeu US$ 26 bilhões em valor de mercado. (Crédito:Kin Cheung)