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Mar Mikhael, o encanto de Beirute reduzido a escombros

Os bares ao ar livre, onde jovens se reúnem todas as noites, estão devastados, as casas tradicionais centenárias destruídas, as galerias de arte aniquiladas: o bairro Mar Mikhael, que para muitos era o charme de Beirute, agora está reduzido a uma massa de ruínas.

“Mar Mikhael era o coração pulsante de Beirute”, diz Lina Daoud, uma voluntária de 45 anos que distribui comida e água a equipes de resgate e moradores do bairro devastado na quarta-feira.

“Para mim, agora é um terreno desconhecido. Nunca pensei que chegaria o dia em que veria o bairro assim”, acrescenta, enquanto soam as sirenes das ambulâncias que passam pelo setor.

O distrito fica perto do porto de Beirute, onde ocorreram duas grandes explosões na terça-feira, atingido áreas inteiras da capital libanesa e matando mais de 100 pessoas.

Hoje, mesmo os moradores do local, o destino preferido dos jovens por seus bares e discotecas, não o reconhecem mais.

Em sua tradicional casa centenária, Michel Asad recolhe os pedaços de vidro e os coloca em um balde, que ele despeja em uma pilha de escombros.

É como se um ciclone tivesse passado por sua casa, completamente devastada. Na entrada, ele imediatamente recolocou a estátua da Virgem Maria em seu lugar, embora tenha sido decapitada pela explosão.

“Eu morei nesta casa a vida toda. Eu poderia ter morrido aqui”, diz esse homem de 53 anos, que não esconde sua raiva.

Com o dedo, ele aponta para as outras casas tradicionais que davam charme ao bairro.

As mais velhas desabaram, outras ficaram sem teto ou têm um enorme buraco na parede.

“Somos centenas, até milhares aqui” afetados pela explosão, acrescenta, mostrando a extensão dos danos.

Segundo o governador de Beirute, Marwan Abboud, até 300.000 pessoas ficaram desabrigadas em uma cidade de cerca de dois milhões de pessoas.

– “Como a Segunda Guerra Mundial” –

As calçadas da rua estreita estão cobertas de vidro quebrado e carros em ruínas, com airbags saindo das janelas, bloqueando a entrada nos carros enquanto seus donos esperam o reboque.

Os socorristas continuam procurando vítimas no bairro. Dezenas de pessoas, arrastando malas pesadas, deixam o local.

Uma senhora já idosa, mal carregando quatro malas, tenta atravessar a multidão e os escombros. Outra mulher, que não tem forças para sair de casa, é carregada por equipes de resgate que a puxam para fora em uma cadeira de madeira em que ela estava sentada em sua sala de estar.

Khalil, um homem de setenta anos e usando uma máscara, explica que vive no bairro há cerca de cinquenta anos, mesmo nos momentos mais críticos da guerra civil que atingiu o país entre 1975 e 1990.

“Durante a guerra, foguetes caíram em todos os lugares. Mas nunca vimos nada parecido. Não teríamos imaginado isso nem nos nossos piores pesadelos”, diz.

“É como a Segunda Guerra Mundial”, diz um transeunte, enquanto observa a destruição e os edifícios que ameaçam desmoronar a qualquer momento. Ao lado dele, uma mulher chora enquanto explica a cena da destruição para um amigo no telefone.

A voluntária Tala Masri tenta remover os pedaços de vidro da calçada com uma vassoura.

“Mar Mikhael é nossa segunda casa, especialmente para nós, jovens”, diz essa estudante de 18 anos.

“Mesmo com p coronavírus e tudo o que aconteceu no país [crise política e econômica], eu sempre tive confiança. Mas agora, acabou, não tenho mais esperança”, lamenta.

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