Economia

Mapeando o futuro

Colapso ambiental, guerra nuclear e disrupção tecnológica serão grandes preocupações. Qual será o papel das democracias e do trabalho nas próximas décadas?

Crédito: Jonathan Nicholson/NurPhoto

HARARI Segundo o historiador israelense, a educação precisará mudar para preparar as pessoas para um aprendizado constante (Crédito: Jonathan Nicholson/NurPhoto)

Realizado anualmente no Colorado, o Festival Aspen de Ideias reúne convidados da elite intelectual, financeira, política e artística do mundo. Na edição deste ano as discussões não se debruçaram sobre as chances de protestos e de revoltas violentas em países desenvolvidos. Mas, sim, quando elas vão acontecer. O nível de incerteza quanto ao futuro, que acomete tanto a elite mais poderosa quanto os mais pobres, alimenta esse sentimento. Por trás disso está o forte ritmo de mudanças tecnológicas, econômicas e ambientais percebido pelo mundo. Essa visão se contrapõe a dos gurus tecnológicos que imaginam um futuro com menos problemas, doenças e custo de vida, que pode resultar do uso racional das novas tecnologias nas próximas décadas.

Para alguns dos mais importantes pensadores contemporâneos, a melhor postura frente a essas abordagens é o “otimismo cauteloso”. Essa visão resume os pensamentos do israelense Yuval Noval Harari, historiador e filósofo autor dos best sellers Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o Século 21, e do americano Jared Diamond, biólogo evolucionário, historiador e geógrafo vencedor do Prêmio Pulitzer. Os dois estiveram entre os palestrantes internacionais que vieram a São Paulo na última semana, quando aconteceu o HSM Expo e o evento Cidadão Global.

Por um lado, o mundo tem indicadores de pobreza melhores do que jamais teve. “Acredito que a maior conquista da humanidade foi superar a fome”, disse Harari. “Hoje a única fome que existe é a política. Em países como Iêmen, Sudão e Síria ainda se morre de fome, mas porque políticos e governos querem seus povos assim.” Hoje se morre mais de doenças relacionadas à velhice do que de infecções. E, por fim, as guerras se tornaram mais raras e evitáveis. “Antigamente paz significava falta temporária de guerra. Agora significa improbabilidade de guerra.”

Mas, por outro lado, há grandes riscos. Harari e Diamond citaram as chances de uma guerra nuclear e de colapso ambiental. O primeiro risco contempla a possibilidade de armas nucleares caírem nas mãos não só de líderes governamentais irresponsáveis, mas de terroristas. O segundo parece ainda mais claro. Essa preocupação foi referendada, na terça-feira 5, com a divulgação de um relatório assinado por 11.258 cientistas que alerta que o planeta já está em “emergência climática”.

Jared Diamond, geógrafo e autor: “O Brasil corre risco de suicídio econômico, caso não faça uma boa gestão de suas florestas” (Crédito:Mencarini/Leemage)

Cooperação necessária Diamond prevê muitos problemas se o desenvolvimento econômico destrutivo da natureza não for revertido. Em especial, para o Brasil. “Quanto mais o País priorizar a plantação de soja e a criação de gado em áreas florestais, vai deteriorar o ambiente, diminuir o índice de chuvas e prejudicar as lavouras e pastagens do futuro.”

O pensador americano também destaca como problema global a desigualdade. Sobre esse tema, Harari complementa que, antes da globalizacão, não havia grandes efeitos para os países desenvolvidos que outros estivessem em situação pior. Mas hoje isso se reverte em terrorismo internacional, transmissões de doenças e imigração em massa. “Ninguém vai esperar duas gerações para ter acesso a riquezas que outro país já tem”, afirmou. Para enfrentar esses perigos, a solução, diz, será a cooperação internacional. Apesar dos ruídos políticos, ela nunca foi tão grande quanto é hoje. Ao contrário do que defendem os governantes críticos da globalização, a cooperação internacional não se contrapõe ao nacionalismo. Eles se complementam.

O último grande risco para as economias globais é o mais difícil de ser previsto: os efeitos negativos da disrupção tecnológica. Estudos indicam que até metade dos empregos atuais serão eliminados nas próximas décadas devido à evolução da Inteligência Artificial. Os novos postos vão superar em quantidade e qualidade os que vão desaparecer? Como treinar trabalhadores para tais mudanças? “A educação atual prevê que uma pessoa estude nas suas primeiras décadas e coloque isso em prática pelo resto da vida”, disse Harari. “Agora, teremos disrupções tecnológicas a cada década, e as pessoas precisarão sempre se reinventar.”

E o que fazer com as sociedades que ficarem para trás? Para Harari os países mais ricos já se preparam para isso e são eles que vão liderar a evolução. Isso é visto na recente explosão tecnológica da China, país que espera, com os EUA e a Europa, deter a propriedade intelectual das novas tecnologias. Ao mesmo tempo a automatização dos empregos deixará um rastro de desemprego em países como a Guatemala e a Indonésia. “Quando se tornar mais barato produzir têxteis em Nova York do que em Bangladesh o que sobrará para este país?”, pergunta Harari.

Se sobram perguntas, os principais pensadores sobre temas tão complexos são unânimes em defender que as democracias precisam ser preservadas. “Uma ditadura pode tomar decisões mais rápidas, mas, quando acontecem erros, e eles sempre acontecem, ela coloca a culpa nos outros” disse Harari. Segundo ele, as pessoas devem fazer quatro perguntas aos candidatos: o que eles fariam para diminuir os riscos de uma guerra nuclear, problemas ambientais, regulações para conter as disrupções tecnológicas e como pensam o mundo para 2050. “Se não souber responder essas perguntas e só falar do passado, ele não merece o voto.”


De dentro para fora

Se o mundo se desdobra para tentar antecipar os problemas do futuro e encontrar formas de mitigar seus efeitos nocivos, uma outra saída também parece bastante importante para a resolução destes impasses, e ela passa por olhar para dentro, antes de mudar o mundo.

Exemplo desse movimento de transformação interna é o estudo sobre oxitocina do americano Paul Zak, cientista, empreendedor e fundador do Centro de Estudos de Neuroeconomia na Claremont Graduate University, Califórnia. Ele estudou imagens do cérebro, e identificou o papel desse hormônio na mediação de comportamentos de confiança entre os seres humanos não familiarizados. “Pessoas que liberam mais oxitocina tendem a confiar mais, a cooperar mais e a ter mais empatia”, disse à DINHEIRO. “Nossos estudos descobriram que empresas com maior nível de confiança entre as pessoas têm melhores resultados.” Zak alega que a visão do guru Jack Welch, ex-CEO da GE, que foi muito popular entre empresas no começo do novo milênio, está superada. Welch defendia que todos os anos as pessoas de pior desempenho deveriam ser demitidas para incentivar todos a darem o melhor de si, mas ele mesmo mudou de ideia. “É preciso competir com outras empresas, não internamente.”

Dessa forma, as empresas deveriam incentivar a cooperação. “As pessoas não podem ficar com medo de serem punidas por tentar inovar”. No Vale do Silício, empreendedores até dão festas para comemorar fracassos. “É uma prova de que algo diferente foi tentado”, disse. A vantagem de estimular a produção de oxitocina nas relações corporativas internas é que isso extrapola para toda a sociedade. “Para o Brasil isso seria uma vantagem adicional, porque o país tem baixos níveis de confiança no ambiente empresarial”, afirmou.