Revista

Mais uma frente de batalha

Crédito: Suamy Beydoun

Vá juntando. 1) Ex-cunhada confirma o crime das rachadinhas. 2) CPI envolvendo um reverendo, vários militares e o líder de seu governo em mutreta milionária na compra de vacina. 3) Flanco aberto no STF. 4) Outro aberto no TSE. E Jair Bolsonaro decidiu colocar mais gasolina na fogueira do parquinho. Aparentemente, ele errou ao gastar seu tempo de militar planejando atentados em vez de ter frequentado as aulas iniciais da guerra e saber que não se deve multiplicar frentes de batalha. A de agora nasce via decisão de Alexandre de Moraes, do STF, e fará com que as provas dos inquéritos das Fake News com a dos atos Antidemocráticos se juntem às ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – que tratam do disparo em massa de mensagens fraudulentas e mentirosas durante a campanha presidencial de 2018, num pacote que teria sido financiado por empresários via caixa 2. O tema estava parado havia um ano com Moraes e foi destravado, reforçando a pressão ao presidente numa espécie de Superinquérito que pode levar, no TSE, à cassação da chapa Bolsonaro-Mourão. Parte da decisão de Moraes pode ser creditada aos ataques recentes do presidente – e de sua cúpula militar – à CPI da Covid, a senadores e ao STF.

É fato que o Supremo Tribunal Federal (STF) demorou, mas percebeu, que tem em Bolsonaro um inimigo orgânico. Paradoxalmente, porém, ele pode ajudar a corte a resgatar a dívida gigantesca que tem com sua história – desde que o tribunal se mostrou acuado, constrangido e apequenado ao não reagir devidamente após o tuitaço do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, em abril de 2018. A omissão do STF escancarou as portas aos ataques de agora.

ATÉ TU, EUA
Biden na luta por voto justo

Drew Angerer

Na terça-feira (13), o presidente americano Joe Biden fez um duro discurso em defesa da democracia. “Há uma tentativa de suprimir e subverter o direito ao voto e a eleições livres e justas”, disse. As afirmações ocorrem em meio a centenas de projetos de lei que pretendem alterar e dificultar o acesso a votação, em especial para a população negra e vulneráveis. Os pedidos são sistematicamente feitos por políticos republicanos, desde a derrota eleitoral de Donald Trump. Levantamento mostra que pelo menos 17 estados americanos já alteraram a legislação em algum ponto e adotaram sistemas que restringem o acesso ao voto.

BBB DA CPI
Diretora rebate ministério

Edilson Rodrigues

Emanuela Medrades, diretora da Precisa Medicamentos, empresa envolvida no suposto esquema de propina para compra superfaturada da vacina indiana Covaxin, fez na quarta-feira (14) sua segunda aparição na CPI do Senado. No dia anterior, ela ficou em silêncio. No segundo depoimento, falou pouco. Abusou de orientações de advogados nas respostas e se contradisse. Mas disse a única coisa que precisava ser dita: negou a veracidade do memorando do Ministério da Saúde que indica oferta inicial de US$ 10 por dose. “Eu não sei por que colocaram que custaria US$ 10, porque o produto não foi ofertado. Existe sim uma expectativa que o valor fosse menos de US$ 10”, disse. A CPI teve autorização do Senado para continuar por mais 90 dias.

Mateus Bonomi

“General Villas Bôas, o que já conversamos ficará entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui” Jair Messias Bolsonaro, janeiro de 2019.

ÁFRICA DO SUL
Estopim: política. Consequência: saques

Na África do Sul, a onda de protestos começou na sexta-feira (9), pouco depois de o ex-presidente (2009-2018) Jacob Zuma ser levado à prisão para uma pena de 15 meses por desacato à Justiça em investigação de corrupção contra seu governo. Em cinco dias, já havia 72 mortos e mais de 1,2 mil detidos. As manifestações, que tiveram início em caráter político, com bloqueio de estradas, se transformaram em atos de vandalismo e saques a supermercados e grandes lojas. Nos ataques, os moradores levam de televisores de tela plana a comida. De acordo com o FMI, o desemprego no país está em 29,7%.

EFEITO COVID
Cuba sob protesto

Yamil Lage

É a maior onda de protestos em décadas. Iniciados domingo (11), levam milhares de cubanos a gritar por “liberdade” e “pátria livre” e varrem a capital, Havana, além de outras cidades da ilha. O presidente do país, Miguel Díaz-Canel, foi à TV e não teve dúvidas: convocou a parte da população que apoia o regime para enfrentar os conterrâneos que protestam. Uma espécie de liberou geral a pancadaria. Além disso, o governo tenta bloquear o acesso à internet e plataformas de redes sociais, que têm servido para convocar as manifestações. O estopim tem nome: Covid. A pandemia derrubou a já combalida economia local, há seis décadas sob embargo americano, e desagua numa crise sanitária que começa a colapsar o sistema de saúde. O coronavírus pode conseguir o que nem os EUA conseguiram: derrubar o governo do país.