Economia

Mais um disparo de incerteza

Atentado ao líder da corrida presidencial altera a dinâmica da campanha e recalibra as expectativas do mercado. Avanço de extremos ideológicos indica período de maior instabilidade econômica

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Recuperação: Jair Bolsonaro (PSL) manteve a postura provocadora, mesmo internado no hospital e afastado da campanha. Ele passou por duas cirurgias e segue sob cuidados intensivos (Crédito: Divulgação)

Enquanto o Brasil ganhava as manchetes de periódicos pelo mundo nos relatos sobre o atentado contra o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), em 6 de setembro, investidores corriam para a Bolsa na tentativa de lucrar com o fato. Em menos de meia hora, o Ibovespa subiu 8% e fechou o dia com uma alta de 1,7%. O episódio mostrou o mercado mais disposto a digerir o candidato apesar das dúvidas em relação ao seu histórico intervencionista. Como vítima, Bolsonaro poderia se fortalecer na dianteira e se firmar como uma alternativa contra o risco de uma vitória de nomes considerados menos reformistas. Pesquisas de intenção de voto revelaram um avanço tímido do capitão e indicaram uma ascensão no polo oposto, mais radical para a esquerda. O mercado inverteu o sinal: houve queda nos índices de ações, alta do dólar e a indicação de que o período de incertezas veio para ficar.

Comoção: após ser atingido por um golpe de faca, o apoio a Bolsonaro se consolidou. A rejeição, no entanto, segue alta e representa o maior desafio a sua campanha (Crédito:AFP)

A simpatia do mercado pelo militar tem apenas uma explicação: o perfil ortodoxo de Paulo Guedes, seu principal conselheiro econômico. Ele é o responsável por desenhar um plano liberal que propõe desde um ambicioso programa de privatizações – tema de conflito com o candidato – até a redução do déficit fiscal já no primeiro ano de governo. “Ele acaba sendo a opção menos pior para o mercado”, afirma Lucas Aragão, cientista político da consultoria política Arko Advice. “Se fosse um cenário entre Bolsonaro e Geraldo Alckmin (PSDB), o mercado iria preferir Alckmin, mas é Bolsonaro quem tem chances reais de ir ao segundo turno.” O candidato do PSL abriu distância na liderança, subiu dois pontos na pesquisa Datafolha, para 24%, e quatro pontos, no levantamento do Ibope, para 26% (confira gráfico na pág. 22). Ambos as pesquisas foram feitos após o atentado. Neles, o tucano Alckmin cresceu pouco e alcançou 10% no Ibope.

O eleitorado de Bolsonaro ficou também mais fiel. Cresceu a parcela dos que indicam uma disposição menor para mudar de voto. “O ataque não foi usado para criar pontes com o eleitorado mais moderado”, afirma Aragão. “O grande desafio da campanha agora é vencer a barreira da rejeição.” Bolsonaro foi atacado quando participava de um comício, em Juiz de Fora (MG), no meio de uma multidão de apoiadores. Adélio Bispo de Oliveira, de 40 anos, desferiu um golpe de faca no abdômen do candidato. Ex-filiado ao PSOL e com histórico de postagens virulentas nas redes sociais, ele foi preso em flagrante. Bolsonaro passou por uma cirurgia de emergência e depois foi transferido para o hospital Albert Einstein, em São Paulo. “Eu me preparava para um momento como esse. Mas, de vez em quando, a gente duvida, né? Nunca fiz mal a ninguém”, disse em vídeo feito pelo deputado Magno Malta (PR-ES). Na quarta-feira 12, ele voltou à mesa de cirurgia por complicações no aparelho digestivo, mas o novo procedimento foi bem-sucedido, de acordo com os médicos.

A consolidação do apoio ao líder das intenções de voto indica como muito improvável um cenário em que ele não vá para o segundo turno. Ao mesmo tempo, segue bastante incerto quem deve avançar ao seu lado. De acordo com as pesquisas, Marina Silva (Rede) começa a registrar uma queda e Alckmin ainda patina. Já os nomes de esquerda Ciro Gomes (PDT) e Fernando Haddad (PT) devem subir. Após o imbróglio na Justiça Eleitoral, o ex-presidente Lula, preso em Curitiba desde abril, finalmente confirmou o nome de Haddad, ex-prefeito de São Paulo, como o candidato oficial do Partido dos Trabalhadores. “Quero pedir, de coração, a todos que votariam em mim, que votem no companheiro Fernando Haddad”, escreveu em carta divulgada pela campanha.

Com as pesquisas divulgadas e o nome de Haddad confirmado, no dia 11 de setembro, o índice Ibovespa fechou em queda de 2,3%. O avanço de um nome de esquerda é visto com desconfiança pelo mercado porque diminui as chances de um ajuste capaz de reverter o déficit fiscal. O plano do PT, por exemplo, ressuscita medidas como estímulo ao crédito e não trata da reforma da Previdência. No campo de preferência dos investidores, Bolsonaro parece roubar votos do candidato tucano. “O Alckmin tem dificuldade de recuperar votos que perdeu de pessoas de renda média e alta”, afirma Eduardo Grin, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Muitos dos outros eleitores não são o mercado. Ele não tem controle sobre essas pessoas e isso pode se refletir nas urnas.”

Na corrida: Geraldo Alckmin (à esq.), perdeu votos para Bolsonaro. Após muita delonga, Fernando Haddad foi anunciado como candidato oficial do PT, ao lado da vice Manuela d’Ávila

As atuais pesquisas indicam que Bolsonaro provavelmente perderia no segundo turno para todos os seus principais oponentes – Ciro, Marina e Alckmin – e ganharia por pouco de Haddad. Pouco conhecido fora de São Paulo, o petista teve, porém, um crescimento expressivo na campanha – ele também é bastante rejeitado. Na Datafolha, o crescimento foi de cinco pontos percentuais. Para alguns analistas, o problema das contas públicas é tão urgente que deve impor um certo pragmatismo do vencedor. “Independentemente de seu partido, o próximo presidente, seja ele quem for, precisa encaminhar uma solução da situação fiscal”, disse Tony Volpon, economista chefe da UBS, em evento em São Paulo. “Nós já aprendemos que quando um presidente não encontra capacidade de gerenciar a situação fiscal, dá-se um jeito de aplicar um impeachment.”

Num cenário em que o déficit fiscal deve crescer até 2020, ao menos, o próximo presidente será confrontado com um dilema das contas públicas já de início, tendo que solucionar questões como o teto de gastos, com um risco de paralisia completa do Estado. A vitória de um nome não reformista embute a hipótese de que a dívida pública continuaria a crescer, obrigando ao País emitir mais moeda, o que poderia comprometer o crescimento e até mesmo levar a uma recessão. Daí deriva um consenso dos analistas de que algum tipo de reforma deve acontecer em 2019. “Mesmo com o Ciro ou Haddad, o mercado estará lá, de olho”, afirma Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria. “Acho difícil alguém chegar e acabar de uma vez com o teto dos gastos, por exemplo.” Até que isso se prove verdade, a tônica será o reinado das incertezas e os altos e baixos dos indicadores financeiros.