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Mais e melhores vinhos

Depois de fechar 2018 com queda de 7,4% nas exportações para o Brasil, produtores estrangeiros intensificam o corpo a corpo com o consumidor para recuperar as vendas e estimular o interesse por bebidas de maior sofisticação

Mais e melhores vinhos

O enólogo e empresário João Portugal Ramos, criador de vinhos de sucesso como o Marquês de Borba, decidiu deixar o conforto de sua propriedade em Estremoz, no Alentejo, para se encontrar pessoalmente com apreciadores e compradores de seus produtos no mercado brasileiro. Na segunda-feira 8, durante um almoço em São Paulo, ele deixou entrever um dos motivos que o trouxeram de volta ao País depois de uma ausência de cinco anos. “Eu viajo o mundo todo para falar sobre vinhos desde o tempo em que era um enólogo independente, antes de ter iniciado a minha empresa, no início dos anos 90. E o Brasil foi o país para o qual mais vezes eu viajei. Ainda assim, o mercado brasileiro representa apenas 1% das minhas vendas”. A frase revela o desejo de que sua presença em um novo corpo a corpo com o consumidor ajude a impulsionar as vendas por aqui.

O momento para fazer isso é dos mais apropriados. Por duas razões. A primeira: o resultado ruim nas vendas de vinhos e espumantes importados no Brasil. Em 2018, o recuo total em volume foi de 7,4% na comparação com o ano anterior, segundo levantamento do Comex Stat/Ibravin. Podem ter contribuído para essa queda fatores como a alta do dólar (que saltou de R$ 3,41 em abril passado para R$ 4,16 em setembro), a Copa do Mundo e as eleições, embora especialistas acreditem que o crescente boom das cervejas artesanais tenha roubado parte dos bebedores de vinho.

Mercado potencial: João Portugal Ramos exporta para o Brasil apenas 1% de sua
produção anual de quase 6 milhões de garrafas (Crédito:Divulgação)

A segunda razão, que deriva da primeira e não pode ser considerada menos importante, é a depreciação da qualidade sofrível de parte dos vinhos que invadiram o Brasil no ano passado. Especialmente os portugueses, espanhóis e italianos. Para compensar a variação cambial desfavorável, importadores passaram a buscar produtos de baixa qualidade, abastecendo o mercado com rótulos que mais afugentam do que atraem consumidores. “O vinho português que tem chegado ao Brasil em grandes volumes não dignifica nada do que nosso país tem feito”, diz João Portugal Ramos. “É uma pena, pois os portugueses têm avançado muito em qualidade”.

Uma prova desse avanço é sua própria história como produtor. A empresa criada por ele em 1992 já conta com 15 rótulos pontuados pela rigorosa Wine Advocate, de Robert Parker, e dezenas de premiações internacionais. “É um sinal de confiança que nos traz a responsabilidade de produzir cada vez melhor”. Hoje, a holding JPR (iniciais do fundador) possui 900 hectares de vinhas em quatro regiões produtoras: Alentejo, Douro, Beiras e Vinhos Verdes. A produção anual é de quase 6 milhões de garrafas — 60% exportada. “Portugal merece ser reconhecido por sua fantástica diversidade e não pelos vinhos de entrada de gama, que no momento mais atrapalham do que ajudam o consumidor e os produtores”, afirma o enólogo que se tornou mundialmente conhecido como empresário.

Alta gama: os bem pontuados Herencia Carmenère, da Santa Carolina (à esq.), vendido no Brasil por volta de R$ 1.100, e Estremus, de João Portugal Ramos, que chega aqui custando R$ 800: aposta em consumidor que deseja subir de patamar e investe naquilo que bebe

Visão semelhante à de João Portugal Ramos é defendida pelo chileno Juan Cristóbal Sepúlveda, executivo que após quase duas décadas na Procter & Gamble responde desde janeiro pela direção da Carolina Wine Brands (CWB), controladora das marcas Santa Carolina, Viña Casablanca, Finca El Origen, Ochavagia e Antares. Para ele, ainda que seja importante manter o foco nos vinhos de entrada, que representam grande volume em vendas (ainda que com baixo valor agregado para o produtor), é estratégico puxar a demanda para produtos mais caros.

Em 2018, de todos os vinhos importados pelo Brasil, nada menos que 48% vieram do Chile – e boa parte desse volume é de rótulos que chegam ao consumidor final abaixo dos R$ 30. Essa faixa de preço é dominada pela categoria “Reservado”, uma abaixo dos “Reserva”, na qual a bebida começa a ficar mais interessante. Para Sepúlveda e as marcas que representa, o grande desafio que se impõe no mercado brasileiro é vender mais vinhos dessa gama, que em alguns casos custam apenas R$ 15 ou R$ 20 acima dos de entrada, mas cuja qualidade superior tende a ser decisiva na hora de fidelizar clientes.

Novos projetos: o executivo Juan Cristóbal Sepúlveda chegou à Carolina Wine Brands com a missão de expandir os negócios (Crédito:Divulgação)

“Estamos otimistas em relação ao futuro do Brasil e por isso devemos nos preparar para atender melhor o que acreditamos ser uma demanda crescente por vinhos de valor maior”, afirmou Cristóbal à DINHEIRO em sua primeira visita a São Paulo como managing director da CWB. “Temos a tradição, uma história de 144 anos, nos quais a Santa Carolina só pertenceu a duas famílias, e pretendemos combinar o respeito que conquistamos ao longo desse tempo à busca constante por inovação. Nossos esforços são no sentido de atender os consumidores dispostos a dar um salto de qualidade nos vinhos que escolhem”, disse o executivo enquanto antecipava novos projetos sob seu comando na vinícola. “Estamos adquirindo novas terras para introduzir vinhedos onde ainda não havia nada e permitimos que nossos enólogos experimentem coisas novas”.

ENTRE OS MELHORES O compromisso da CWB com inovações que permitam ao consumidor fazer um upgrade dos vinhos que bebe sem abandonar a marca é vista com entusiasmo por Antônio Carvalhal Neto, diretor comercial da Casa Flora, importadora e distribuidora no Brasil dos rótulos da vinícola. “Somos parceiros da Santa Carolina há mais de 20 anos. É indiscutível o investimento que a empresa vem fazendo na melhoria da qualidade, seja por meio da capacitação das equipes, seja atraindo grandes enólogos ”, afirma Neto. Conhecida pelos reservados, a Santa Carolina também coleciona pontuações importantes. O crítico James Suckling atribuiu 97 pontos ao icônico Luis Pereira, criado para celebrar os 140 anos de fundação da Santa Carolina, e 96 pontos ao Herencia Carmenère 2012. O Reserva de Familia Cabernet Sauvignon 2015 (vendido no Brasil na faixa de R$ 140), foi eleito o terceiro melhor vinho do mundo pela revista Wine Enthusiast. É com rótulos assim que os importadores pretendem fazer as pazes com os bebedores de vinho que perderam recentemente.