Ciência

Magnata da imprensa neozelandesa desafia gigantes das redes sociais

Crédito: AFP

Sinead Boucher posa para foto em 6 de agosto de 2020 em Wellington - AFP (Crédito: AFP)

Escondida na gaveta de meias de Sinead Boucher está a moeda de um dólar que transformou esta ex-jornalista na maior magnata da imprensa da Nova Zelândia e que lhe deu uma plataforma para desafiar o Facebook e outros gigantes.

Boucher, de 50 anos, comprou o gigante da mídia Stuff Ltd por NZ$ 1 (US$ 0,67) em maio, assumindo o controle do portal de notícias mais popular da Nova Zelândia, stuff.co.nz e de veículos como Wellington’s Dominion Post e Christchurch Press.

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Boucher, que já era executiva da empresa, estava ciente dos desafios da mídia em todo o mundo e argumenta que o modelo de negócios foi “esmagado” pelos gigantes da internet e que as receitas caíram ainda mais devido à pandemia de COVID-19.

Algumas empresas, como a alemã Bauer Media, decidiram que o pequeno mercado da Nova Zelândia não valia a pena e encerraram suas operações locais, destino que Boucher estava determinada a evitar.

“Não poderia suportar o peso de ver todos esses veículos, não só o site, mas alguns de nossos jornais, que têm mais de 160 anos, simplesmente acabarem sem realmente lutar por eles”, explicou à AFP.

Depois de acertar o preço de compra com os ex-proprietários do Stuff, o grupo Nine Entertainment de Sydney, Boucher visitou um escritório de advocacia de Wellington para concluir o acordo, enquanto a Nova Zelândia estava em confinamento pela pandemia.

“Era o momento do distanciamento de segurança, então lancei meu dólar aos advogados”, diz. “Na primeira vez, ele caiu, então eu tive que pegá-lo e jogá-lo de novo”.

“Então, troquei aquele por outro dólar, para assim manter [o original] como uma lembrança física tangível… está na minha gaveta de meias, na verdade. Está emoldurado, mas ainda não pendurei na parede”, conta.

– Adeus Facebook –

Boucher deu seus primeiros passos no jornalismo como repórter do Christchurch Press na década de 1990, antes de passar um período em Londres, onde se dedicou ao jornalismo empresarial.

Após retornar à Nova Zelândia em 2004, dirigiu o site do Stuff, que funcionava como uma “peça de serviços” e que era, na época, visto como uma mera adição às operações do jornal.

Essa trajetória a levou a dar o passo mais ousado desde que começou a dirigir o Stuff, quando em junho decidiu cortar o vínculo com o Facebook, que até então facilitava entre 15 e 20% do tráfego da página.

No ano passado, Stuff já havia parado de anunciar no Facebook, depois que a plataforma não aprovou reformas de longo alcance quando um extremista de direita matou 51 muçulmanos em Christchurch e divulgou a atrocidade na rede social.

Desde que Boucher assumiu o controle, o Stuff rompeu com o Facebook completamente, alegando que seus problemas haviam aumentado durante a pandemia.

“No quadro geral de boatos, notícias falsas e outras coisas, sentimos que não encaixava em nossos padrões e já não nos sentíamos confortáveis”, explica.

“Devo dizer que o impacto no nosso público tem sido mínimo”, acrescenta, afirmando que a queda no número de leitores foi pequena.

Boucher gostaria que o restante da mídia adotasse a mesma linha, alegando que a pandemia estimulou o interesse do público por conteúdo jornalístico de qualidade e que foi uma boa oportunidade para se conectar com diferentes públicos sem depender dos “likes” do Facebook.

E embora a COVID-19 tenha tido um “grande impacto” na receita do Stuff, a empresária garante que “nosso público nunca foi tão forte, porque todo mundo se volta para o jornalismo em busca de informações confiáveis”.

– Apoio dos leitores –

Boucher também concorda que a Austrália deve exigir que o Facebook e o Google paguem à mídia pelas notícias que publicam em seu conteúdo.

“Ambos fizeram um ótimo negócio, de uma forma ou de outra, coletando conteúdo de outros”, afirma, incentivando o governo da Nova Zelândia a empreender uma ação semelhante.

O principal veículo do Stuff é o portal stuff.co.nz, mas Boucher garante que o grupo é “um ecossistema de negócios digitais” e que, embora alguns não sejam relacionados ao noticiário, ajudam a custear o caro negócio do jornalismo.

Em uma indústria devastada pela perda de empregos durante a pandemia, Boucher se orgulha do fato de seu grupo não ter cortado postos de trabalho.

No auge da crise foi imposto um corte de 15% ao salário dos funcionários por 12 semanas (a própria Boucher cortou seu salário em 40%), mas a empresa devolveu o dinheiro dos cortes no mês passado.

Além disso, o Stuff incentiva seus leitores a fazer contribuições com campanhas como: “porque as redes sociais não são mídia de notícias”.

De acordo com Boucher, tanto sua estratégia de arrecadação de doações quanto o boicote do Facebook tiveram forte apoio público, já que as pessoas querem apoiar fontes de notícias confiáveis em um momento de grande incerteza.

“A crise da COVID realmente explica a necessidade do jornalismo”, conclui.

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