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Macallan conquista o Brasil

O single-malt escocês bateu três recordes de preço em 2018 e chama a atenção também pelo desempenho no País. Nos últimos dois anos, as vendas por aqui aumentaram em três dígitos

Macallan conquista o Brasil

Em 2010, uma garrafa do single-malt escocês The Macallan foi vendida no leilão da Sotheby’s, em Nova York, por
US$ 460 mil. À época, foi o valor mais alto já pago por uma garrafa de uísque da marca. De lá pra cá, a destilaria acumulou recordes. Só no ano passado foram três. Cada uma das garrafas pintadas por Valerio Adami, Peter Blake e Michael Dillon, ambas de 1926, atingiram valor superior a US$ 1 milhão. As compras chamaram a atenção até do mercado de seguros, que viu aumentar o interesse de milionários em proteger os seus uísques de eventuais danos. A AIG, por exemplo, aumentou sua cobertura de especialidades, para incluir bebidas como o Macallan de 1926, visto como uma verdadeira obra de arte.

Moderno com tradição: À esquerda uma garrafa Macallan 1926 pintada por Michael Dillon, leiloada por US$ 1,5 milhão. À direita e ao alto, a nova destilaria, em Speyside, com capacidade para produzir 15 milhões de litros por ano

Os últimos acontecimentos jogam luz sobre a Macallan — considerada o Rolls Royce dos uísques — e seu surpreendente desempenho no Brasil. Embora não tenha partido nenhuma oferta do País nos últimos leilões, a venda de Macallan por aqui tem apresentado um crescimento de três dígitos nos últimos dois anos. O Brasil, inclusive, é o segundo maior consumidor de Macallan na América Latina, atrás apenas do México. E nem o preço é capaz de afastar os fanáticos pela bebida. As dezoito garrafas de Reflexion, de R$ 12 mil cada, trazidas no ano passado foram vendidas em menos de 48 horas. “Ainda estamos tateando o mercado e sentindo até onde podemos chegar aqui”, diz o diretor de marca da Macallan no Brasil, Maurício Leme, sobre a possibilidade de trazer rótulos ainda mais exclusivos.

O UÍSQUE DE R$ 12 MIL A linha Macallan 1824 Series, que vinha para o Brasil e tinha rótulos baseados na cor da bebida — Amber, Ruby e Sienna —, foi descontinuada. Em seu lugar, entraram as linhas Double e Triple Cask. Hoje, o uísque de entrada da destilaria no Brasil é o Triple Cask de 12 anos, que custa R$ 330. O rótulo já representa mais de 50% do volume de vendas da marca. Mas o portfólio ainda inclui o Triple Cask de 15 anos, de 18 anos e o Rare Cask, com valores que variam entre
R$ 1 mil e R$ 2,5 mil. E ainda há o Reflexion, que pode custar até R$ 12 mil.

Maurício Leme: o diretor da marca no Brasil pretende trazer rótulos ainda mais exclusivos

A comercialização de Macallan no Brasil começou em 2009, época em que o mercado de single-malt (bebida feita apenas com cevada maltada em uma só destilaria) era inexpressivo. Ainda hoje, o mercado no Brasil representa apenas 0,3% de vendas do mercado global de uísque. “Embora nanico, é um mercado exigente”, diz Leme. “E a demanda é maior do que a produção.” Para termos de comparação, a produção anual da destilaria para o mundo é de 12 milhões de garrafas, número equivalente à venda apenas de Red Label no Brasil. “Nunca fomos gigantes e nunca vamos ser”, diz Leme. “Mas temos de tomar cuidado para não decepcionar o cliente com a escassez”. Pensando nisso, em 2012 a Macallan começou a desenhar o projeto de uma nova destilaria. Ela foi inaugurada em maio do ano passado e possibilitou o aumento da capacidade instalada de 10,2 milhões de litros por ano para 15 milhões de litros.

A ÁRVORE PERFEITA Mesmo assim, a produção continua pequena. E é justamente a pouca disponibilidade no mercado e os cuidados no processo de fabricação que tornam o Macallan tão raro. A escocesa, inclusive, é a única que tem um profissional chamado master of wood. Ele é o responsável por escolher os barris em que o uísque irá maturar — processo que leva 10 anos, muito além dos três anos praticado pela maioria das destilarias. A Macallan é tão exigente, que só 16% do líquido produzido vai para os barris para a fase de maturação — os outros 84% são descartados. O profissional também escolhe a árvore que será cortada para fazer o barril, e ela deve ter, no mínimo, 80 anos de idade. Todo esse cuidado é porque aproximadamente 60% do aroma e do sabor do uísque vêm dos barris de maturação feitos de carvalho, o que permite á destilaria não utilizar nenhum tipo de corante em suas bebidas.

Produção dos recordes: é dessa fábrica, inaugurada no ano passado, que saem as garrafas de uísque Macallan

A bebida é produzida desde 1824. O tradicionalismo e todos os cuidados da destilaria tornaram o Macallan um dos single-malts mais desejados e respeitados do mundo. Não por acaso, é o uísque oficial da Câmara dos Comuns do Reino Unido, o equivalente no Brasil ao Senado. Sua fama também fez uma garrafa da edição Fine & Rare, de 1962, aparecer em uma cena da franquia James Bond, no filme Skyfall (2012), como o uísque favorito do agente secreto. Um ano depois, a garrafa usada no filme foi leiloada na Sotheby’s, por US$ 12,4 mil. O rótulo continha a assinatura dos atores Daniel Craig, Javier Bardem e Bérénice Marlohe. “O Macallan tornou-se acidentalmente uma marca de luxo, por causa de sua operação por anos e anos. Não foi uma escolha deliberada”, diz Scott McCroskie, que vai suceder Ian Curle no cargo de CEO da Endrington, grupo detentor da grife Macallan desde 1999. O grupo foi o responsável por disponibilizar a bebida para mais de 80 países.