Edição nº 1088 21.09 Ver ediçõs anteriores

Luz, câmera e consciência social!

Incentivos legais ajudam a aquecer o mercado cinematográfico, beneficiando produtores independentes de segmentos até então marginalizados, como o de documentários

Luz, câmera e consciência social!

Empreendedora serial, Camila de Moraes atua em negócios nas áreas de jornalismo, produção cultural e cinema. Seu primeiro longa foi premiado no Uruguai

Os donos de redes de cinemas sempre dependeram de blockbusters, produções locais ou vindas de Hollywood capazes de arrastar multidões. Essa, aliás, tem sido a receita para manter em atividade boa parte das salas ao redor do mundo. No entanto, alguns movimentos locais, baseados no uso de incentivos financeiros ou legais, especialmente nos países da Europa, têm contribuído para ampliar o grau de diversidade do que passa nas telonas e também nas telinhas da TV.

Parceria com a produtora Praça de Filmes possibilitou levar para a telona O Caso do Homem Errado

No que se refere ao Brasil, um caso emblemático é a Lei 12.485/2011, mais conhecida como Lei da TV Paga, que determinou que os canais por05 assinatura incluíssem um mínimo de 3h30min de programação nacional em sua grade semanal, no horário nobre. Neste contexto, a legislação também pode ser apontada como uma das responsáveis pelo ressurgimento dos documentários. Isso porque, diretores e produtores deste segmento deixaram de depender exclusivamente da telona para chegar ao grande público.

Segundo dados preliminares da Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2017 foram lançados um número recorde de documentários: 45, das 143 produções em um setor que movimentou R$ 362 milhões. Trata-se de um montante equivalente a 16,5% da receita global dos cinemas. O restante ficou com os estrangeiros. Ainda assim, fazer cinema independente no Brasil continua sendo um desafio e tanto.

Especialmente quando o projeto possui um forte componente de denúncia social, como é o caso das obras tocadas pela gaúcha Camila de Moraes, 30 anos, diretora de O Caso do Homem Errado. Ao longo de 77 minutos, o documentário traça a trajetória do último dia de vida do operário Júlio Cesar de Melo Pinto, executado por integrantes da Brigada Militar, em 1987, em Porto Alegre, ao ser “confundido” com um assaltante.

Produzido graças ao suporte da Praça de Filmes, produtora baseada na capital gaúcha que ajudou a bancar os custos estimados em R$ 100 mil, o documentário vem percorrendo um caminho bastante promissor. Em agosto, três meses depois de ser concluído, conseguiu proeza de ser exibido na seleção oficial do Festival de Gramado 2017, apesar de não estar inscrito na premiação. Na sequência, participou da mostra competitiva no 9º Festival Internacional de Cine Latino, realizado em novembro, em Punta del Este, e levou o troféu de melhor filme. Desde então, já conseguiu espaço no circuito alternativo de Porto Alegre e de Salvador.

Parceria com a produtora Praça de Filmes possibilitou levar para a telona O Caso do Homem Errado

“Este trabalho é resultado de oito anos de pesquisa e um de filmagens, e só foi levado adiante pela obstinação da equipe”, conta Camila. “Afinal, boa parte dos recursos para sua produção vieram de parcerias e doações de integrantes do movimento negro, sensibilizados com a força da história”. Persistência, aliás, é uma das marcas dessa jovem multimídia que sempre esteve envolvida em diversos negócios, desde que trocou Porto Alegre por Salvador, no início desta década. A lista inclui a produtora de eventos Oxente, Tchê! Comunicação e Marketing, fundada em 2011, e a revista eletrônica Acho Digno, criada em 2013. O cinema acaba funcionando como um fio condutor de todas estas atividades.

O gosto pela Sétima Arte ela herdou da mãe Vera Lopes, que trabalha como atriz, e do pai Paulo Ricardo de Moraes, jornalista, escritor, poeta e roteirista. “Lembro que as férias de verão eu passava em Salvador com a minha mãe e as de inverno com o meu pai, na Serra Gaúcha, para curtir o Festival de Gramado”. Bem antes de subir ao cobiçado palco para apresentar seu primeiro longa, no ano passado, Camila já havia se destacado neste festival. Foi em 2008, quando Mãe de Gay, produzido em parceria com colegas da faculdade de jornalismo, ganhou os prêmios de melhor documentário pela crítica e pelo júri popular, no Festival Universitário de Gramado.

Pesquisa em Nova York fortaleceu os laços de Camila com o movimento Black Lives Matter

Ao escolher a história de Júlio Cesar para levar às telas dos cinemas, a diretora gaúcha, quis dar vazão também à sua porção militante da temática dos direitos humanos, já expressada em projetos como os documentários Criação Coletivo em Movimento e Encruzilhados de Direitos nos quais atuou como produtora e diretora, respectivamente.

Sua ligação com a questão da equidade racial ganhou ainda mais corpo nos dois meses que passou em Nova York, em 2016, quando venceu o edital da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia para estudar a mídia afro-americana. Voltou de lá com material suficiente para produzir uma edição internacional da revista eletrônica Acho Digno, com editoriais de moda caprichados e muita informação sobre personagens marcantes da Big Apple e de Salvador. Neste período, ela estreitou os laços com integrantes do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), participando inclusive de passeatas do grupo.

De certa forma, a decisão de roteirizar e digir O Caso do Homem Errado acabou sendo maturada nesta temporada. Até porque, o episódio a acompanha desde criança, por conta da ligação afetiva com a vítima. “Trata-se de uma história que se manteve muito viva na memória de muitos moradores de Porto Alegre”, diz. “Sem contar o fato de que Júlio Cesar era padrinho de meu irmão mais velho e irmão de criação de meu pai”.

Trailler de O Caso do Homem Errado


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