Especial

Luta para o raro virar regra

Crédito: Soberana Ziza

A história de Eduardo Alves, um preto, pobre, que foi técnico, gerente, diretor e virou sócio da PwCBrasil é o fio condutor para os projetos de igualdade racial de uma das maiores empresas de consultoria e auditoria do mundo. É o único negro na composição societária. “Daqui a pouco tem de ter outro aqui”, disse, com a clara percepção de sua responsabilidade como referência para os jovens, sendo líder das iniciativas que abrem espaços para os pretos chegarem ao topo do organograma.

A companhia, com US$ 43 bilhões de receita em 2020, teve destaque em conscientização, recrutamento e ascensão no Índice de Equidade Racial Empresarial (da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial), com coordenação técnica do Instituto Data Zumbi.

Tudo comandado por Eduardo Alves,cujo sucesso foi conquistado com muito empenho. Nascido e crescido na periferia de Interlagos, no extremo sul de São Paulo, ele teve incentivo familiar em dois níveis na adolescência: a mãe, mineira, era mais pé no chão; o pai, pernambucano, era pé nas nuvens e fazia o filho sonhar alto. Foi no fim dos anos 1990, que Alves sentiu o peso de ser quem era. Apesar de dedicado aos estudos, acreditava não ser capaz de passar no vestibular da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da USP. Depois, sem confiança, resolveu não enviar currículo para entrar na PwC. Mas uma amiga que sabia de seu potencial montou seu portfólio e encaminhou à empresa.

ARTE, HISTÓRIA E ANCESTRALIDADE Os três elementos se unem na obra de Soberana Ziza, a que ilustra esta reportagem. Desde 2006 ela expoõe seu trabalho baseado em pesquisa estética sobre negritude e feminino em uma abordagem que ela define como “afrofuturista”. (Crédito:Victor Hugo)

Foi o suficiente para ser contratado e continuar ali sua história incrível. “Por duas vezes me autossabotei. Mas tive pessoas que me colocaram no rumo novamente. Isso acontece muito. E mais ainda nas famílias negras”, disse Eduardo Alves. “Temos autoestima abalada. Não temos sentimento de pertencimento. Não vemos exemplos.”

Na empresa, iniciou mestrado em contabilidade. Faltava aperfeiçoar o inglês. Planejou um curso no Canadá. egou emprestados R$ 9,5 mil da poupança da avó e partiu. Na volta, estava com uma promoção programada. Mas engatou um doutorado, o que demandou mais investimentos no idioma. Com toda a preparação, a PwC lhe ofereceu uma posição em Boston, nos EUA. Ficou dois anos que “fizeram toda a diferença”. Retornou ao Brasil e foi promovido a diretor. Nove meses depois, foi admitido a sócio da PwCBrasil. “Hoje em dia, 30% do meu trabalho são de receitas geradas com investidores estrangeiros. Toda aquela aposta valeu a pena.”

Além de sócio, Eduardo Alves comanda a dimensão Raça e Etnia, uma das cinco do programa de Diversidade e Inclusão que a empresa mantém desde 2013. Entre as iniciativas que lidera, destaque para o Black as Manager (BaM), programa de aceleração de carreira para os nossos profissionais negros e negras. As contratações de pretos triplicaram e alcançaram 40% em 2021. Nos cargos de gerência, passaram de 9% para 13%. A lição: “Fazemos o letramento, damos conhecimento, que gera consciência, que muda a cultura da empresa. Tudo faz parte de um processo de instrução”, disse Eduardo Alves. Para haver mais tentativas. E sua história se repetir mais vezes, seja com os pés no chão ou nas nuvens.

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