Palhares, o canalha honesto criado por Nelson Rodrigues, nos anos de chumbo da ditadura, desconfiaria de que algo deixou de ser dito “sobre o famoso apartamento do Guarujá” pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao juiz federal Sérgio Moro, nesta quarta-feira, 10, quando foi interrogado pela primeira vez como réu dos processos da Operação Lava Jato, em Curitiba.

O Ministério Público Federal imputa prática de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro – pena prevista de até 22 anos de prisão, se condenado – a Lula na ampliação, reforma e decoração de um tríplex 164-A, do Edifício Solaris, no Guarujá (SP). As “benesses” seriam propina paga ao petista pela OAS, em troca de negócios na Petrobrás.

Frente a frente com Moro pela primeira vez, a versão de Lula é que só soube da existência do apartamento triplex, que admitiu que a falecida Dona Marisa Letícia negociava com a OAS, na praia das Astúrias, em 2013.

Por 5 horas, Lula falou ao juiz Sérgio Moro e repetiu mais de uma vez que esteve alheio às negociações de Dona Marisa, que morreu em fevereiro, com a OAS e que visitou o imóvel em fevereiro de 2014 com o então presidente da empreiteira, José Aldemário Pinheiro, que é chamado pelo ex-presidente Léo. Número um de uma das maiores empreiteiras do País, ele estaria tentando vender o apartamento, de 250 metros quadrados, segundo conta o réu.

Lula repetiu a mesma versão de que só em 2013 foi saber da existência do triplex em pelo menos quatro vezes ao responder questões do Ministério Público Federal. A força-tarefa da Lava Jato avalia que as provas reunidas no processo mostram que ele mentiu, ao tentar negar “o óbvio ululante”.

A expressão usada por um dos investigadores da força-tarefa é de Nelson Rodrigues, o pai do Palhares, o canalha que não respeitava nem cunhada, e imortalizado no livro O Óbvio Ululante e na coluna que publicou no jornal O Globo, durante a ditadura.

Vídeo 15 – 4min48seg. “O procurador, deixa eu dizer uma coisa pro cê. Eu vou apenas repetir aqui um dado que eu já disse para o juiz. A minha relação com o triplex, com o apartamento 141, o normal. A do triplex foi em 2013, quando o Léo me procurou em setembro, não sei se foi em setembro, para falar que tinha que ir visitar, e eu só fui em 2014. E a Dona Marisa quando me disse que tinha comprado uma cota da Bancoop”, explicou Lula, ao ser interrogado pelo procurador da República Roberson Pozzobon.

“É a minha relação com esse famoso apartamento.”

Vídeo 15 – 5min58seg. “Eu vou repetir, até para economizar tempo. A minha relação com o famoso apartamento da Bancoop é de quando a minha mulher comprou, que foi feito pelo Imposto de Renda, à primeira visita do Léo para me falar que tinha que visitar o apartamento que estava acabando o prédio”, voltou a falar Lula.

Vídeo 15 – 8min27seg. “Eu vou repetir. Eu só tive contato sobre o famoso apartamento lá no Guarujá no ato da compra da cota, é importante lembrar, e em 2013 quando o Léo me procurou, quando eu tinha que cuidar de ver o apartamento. Só.”

Vídeo 16 – 3min17seg. “A minha afirmação é categórica: eu discuti o apartamento duas vezes”, garantiu, reiteradas vezes, o presidente mais popular que o Brasil já teve.

Lula não explicou como o apartamento simples, referente a cota de uma unidade no prédio adquirida em 2005 por Dona Marisa, virou, a partir de 2009 uma das coberturas triplex. A mudança coincide com a compra pela OAS do empreendimento Solaris, da falida Bancoop, junto com outras unidades em construção na capital.

Réu confesso, Léo Pinheiro afirmou no dia 20 de abril ao juiz Sérgio Moro que o custo da reforma do triplex foi abatida de um acerto de R$ 15 milhões da OAS com o PT e que era benesse concedida ao petista.

Candidato a delator pela segunda vez, da Operação Lava Jato, Léo Pinheiro disse que o apartamento foi adquirido e reformado a pedido de Vaccari, autorizado por Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula, e sua propriedade e reforma discutidas diretamente com Lula.

Praia.

“O apartamento, não era meu. o apartamento A Dona Marisa comprou cota da Bancoop. Teoricamente o apartamento era resultado da compra das cotas. Eu quando fui lá eu perdi o interesse no apartamento pela situação do apartamento e depois eu vi que era humanamente impossível um ex-presidente da República ir naquela praia fora de uma segunda-feira, ou de uma quarta-feira de cinzas, ou de qualquer coisa.”

Lula explicou que o imóvel não atendia seus interesses: “o apartamento tinha muita escada, o apartamento era muito comprido, era muito apertado e tinha várias coisas”. Em outro ponto disse que colocou “500 defeitos” no imóvel, quando o chefão da OAS foi lhe mostrar o tríplex para “vendê-lo”.

O ex-presidente também não soube explicar o registro “praia” em uma caixa de seu acervo pessoal, retirado do Planalto e armazenado em São Paulo, com custos pagos pela OAS.

Histórico

A existência de um tríplex no Guarujá, no edifício que a OAS comprou da Bancoop, é fato público desde 2010. Naquele ano, Lula elegeria sua sucessora, Dilma Rousseff. O jornal carioca O Globo publicou, na época, reportagem sobre a propriedade de um tríplex da família Silva no Edifício Solaris. Um prédio comprado um ano antes pela OAS, dentro de um pacote de torres residenciais inacabadas da falida Bancoop (a cooperativa habitacional do Sindicato dos Bancários de São Paulo, já dirigida por João Vaccari Neto e Ricardo Berzoini).

“Caso Bancoop: o tríplex do casal Lula está atrasado”, dizia a notícia. Era 30 de janeiro de 2010.

O caso foi para as telas da TV, no Jornal Nacional. O apresentador William Bonner disse o “apartamento tríplex do presidente Lula”, ao apresentar o drama dos cooperadores da Bancoop – entre eles, o petista – e as suspeitas de desvios na cooperativa. Na ocasião, o Planalto foi procurado – Lula ainda era presidente – e respondeu que por ser assunto familiar não iria se pronunciar.

O juiz Sérgio Moro também demonstrou, em sua inquirição, dúvidas em relação à possível omissão de informação e questionou sobre a reportagem.

“Deve ter sido uma invenção do Ministério Público”, justificou o petista.

“Mas em 2010 nem tinha processo”, lembrou Moro, ao réu.

“Sei lá quando, fazer ilação se faz em qualquer momento”, retrucou Lula.

Apontado como líder do esquema de corrupção na estatal petrolífera, que desviou mais de R$ 40 bilhões entre 2004 e 2014, o ex-presidente busca em sua defesa, desde o início do processo, uma nulidade, que tire do juiz da Lava Jato a competência para julgá-lo, e inda arraste o caso penal para a arena política.

A ação do tríplex é a primeira aberta por Moro contra Lula, no dia 19 de setembro de 2016. Em três anos de investigação, a Lava Jato descobriu que partidos da base aliada – PT, PMDB e PP – comandaria diretorias da Petrobras, por meio das quais, desviavam de 1% a 3% em propinas de contratos fechados com empreiteiras cartelizadas.

Nota pública

Em 30 de janeiro de 2016, o Instituto Lula e sua assessoria jurídica e de imprensa levantou documentos e redigiu uma nota oficial distribuída à televisões, jornais e revistas, intitulada “Documentos do Guarujá, desmontando a farsa”.

NOTA DO INSTITUTO LULA SOBRE TRIPLEX – 10/01/2010

Nela há um item: “Por que a família desistiu de comprar o apartamento?”.

“Porque, mesmo tendo sido realizada reformas e modificações no imóvel. As notícias infundadas, boatos e ilações, romperam a privacidade necessária familiar ao uso do apartamento”, registrava o documento oficial feito pelos assessores mais próximos de Lula.

O documento foi apresentado e lido duas vezes pelo procurador da República Roberson Pozzobon. “O senhor foi consultado para que essa nota fosse feita?.”

“Eu não sou dirigente do Instituto, ponto. A nota, se ela é feita, é feita com a direção do Instituto em combinação com os advogados que conhecem o projeto, o processo todo”, respondeu Lula. “Nem sempre quando a nota é feita eu estou no Instituto, nem sempre eu estou em São Paulo. Às vezes eu fico sabendo das notas pela imprensa.”

O procurador insistiu: “objetivamente senhor ex-presidente, o senhor foi consultado antes da emissão dessa nota?”.

“Não, não”, respondeu Lula.

“Então o Instituto falou sobre uma situação que envolvia a sua família sem consultá-lo?.”

“Deixa eu dizer uma coisa para o senhor. Vocês estão exigindo de mim uma objetividade que eu ainda não exigi de vocês”, disse o ex-presidente. “Eu vou exigir de vocês quando terminar a palavra de vocês e eu puder falar é que vocês me apresentem um documento que o apartamento é meu. Porque essa é a prova, o resto é conversa fiada.”

Minutos depois, quando o investigador da Lava Jato insistiu na pergunta sobre a polêmica do tríplex levantada publicamente em 2010, Lula deu sua versão sobre o conteúdo da nota divulgada pelo Instituto Lula, que para o Ministério Público evidencia que o réu desde 2010 sabia do negócio.

“Pelo que senti, o espírito da nota é dizer que mesmo que tivesse tudo certo, depois do carnaval feito em cima do tríplex, mesmo que eu tomasse a decisão…, não tinha como utilizar o apartamento, porque aquilo virou uma coisa bichada.”

O ex-presidente disse que a nota “certamente respondia ou uma matéria de imprensa, ou uma acusação de alguém”.