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Lucros na mira

Quem é e como investe o gestor Luiz Fernando Alves, que transformou seu fundo Versa no mais rentável dentre os multimercados e superou estrelas das finanças, como Luis Stuhlberger

Crédito: Claudio Gatti

Luiz Alves, gestor do fundo Versa: “Ganhar dinheiro com ações significa achar uma empresa que gere valor durante 20 anos” (Crédito: Claudio Gatti)

Decorado com desenhos nas paredes e uma geladeira azul em estilo retrô, o escritório do gestor de fundos Luiz Fernando Alves, na zona Sul de São Paulo, lembra mais uma startup do que uma empresa financeira. “Quando alugamos a sala, a decoração já era essa. Achamos maneiro”, diz Alves, sem disfarçar o sotaque carioca, que permanece mesmo depois de 13 anos vivendo em São Paulo. O despojamento do lugar, porém, não significa desleixo com os resultados. O fundo multimercado Versa Long Biased, gerido por Alves e uma equipe de cinco pessoas, rendeu 212% nos últimos 12 meses. O desempenho superou o de estrelas de mercado como o Verde, de Luis Stuhlberger, que rendeu 7,2% no mesmo período. Com uma estratégia arrisca da e foco no cenário econômico, Alves sagrou-se o melhor da indústria, de acordo com dados da empresa de informações financeiras Economatica. A pesquisa considerou fundos abertos, com pelo menos 50 cotistas e taxas de administração maiores que zero.

Correr riscos é inerente ao negócio e à personalidade de Alves. Ele se formou em engenharia industrial pela PUC-RJ, em 2005, sonhando em construir e em testar foguetes. Mas decidiu seguir os passos do pai e do avô, ambos profissionais do mercado de capitais, e enfrentou uma pós-graduação em finanças na Fundação Getulio Vargas, ao mesmo tempo em que começou a trabalhar gerindo recursos no Itaú BBA. Em 2013, ele saiu do banco e foi para uma gestora independente, a GTI Investimentos, onde começou a operar o fundo Versa.

Cenário econômico está favorável para a compra de ações de empresas ligadas ao consumo (Crédito:Divulgação)

A fórmula do sucesso envolve uma boa dose de risco. Alves opera o Versa com a estratégia long short, que inclui a compra e a venda simultânea de ações de empresas diferentes. Ele opera alavancado: a cada R$ 1 investido no fundo, ele assume compromissos correspondentes a R$ 3. São R$ 180 milhões de patrimônio. Um dos principais parâmetros de sua gestão é a visão de longo prazo. “Ganhar dinheiro com ações significa achar uma empresa que gere valor durante 20 anos. O desafio é encontrar essas companhias”, diz. Antes de uma empresa entrar no portfólio, muito suor e sola de sapato são despendidos em encontros com administradores. “Se temos boa impressão de uma conversa, nos debruçamos para fazer contas e entender qual é o potencial de crescimento do negócio.”

Assim aconteceu a aproximação com a locadora de veículos Locamerica. Em 2014, depois de diversas avaliações por conta do período de reestruturação pelo qual a empresa passava, Alves decidiu adicionar seus papéis à carteira do Versa. “Compramos a ação barata, a R$ 2,50, e depois das mudanças bem-sucedidas, o papel andou. Mas optamos por não vender”. A decisão reflete a percepção da equipe de que há um movimento contínuo de expansão da receita e da margem. Hoje cotada a cerca de R$ 26, a ação é uma das 21 principais posições compradas do Versa. A diversidade da carteira é resguardada por uma unidade: a análise da economia, espinha dorsal da estratégia. “Olhamos duas variáveis, que são emprego e juros. Desemprego caindo com juros baixo é como pólvora e fogo”, diz. O cenário contribuiu para a manutenção de empresas ligadas diretamente ao consumo, como Via Varejo e ao aumento de peso do setor de construção no portfólio, representado por Direcional, Trisul, Even.

O fundo Versa aposta na compra de ações da construtora Even e da locadora de carros Locamerica (Crédito:Marcos Leao)

As cotações do mercado, assim como a movimentação dos ativos de sua carteira, piscam todo o tempo em uma televisão acoplada à mesa de reunião do modesto escritório de 30 metros quadrados. Mas não é isso que atrai a atenção de Alves e sua equipe. Em vez de ficar com os olhos grudados no sobe e desce dos números, os cinco analistas na faixa dos 30 anos, se dividem em duas tarefas primordiais: analisar empresas e encontrar as melhores maneiras de comunicar as premissas da gestão aos cotistas.

“Nosso diferencial é abrir a caixa preta para os clientes à medida que damos transparência para a nossa gestão”, diz. O site do Versa agrega gráficos com o desempenho das principais posições compradas e vendidas do portfólio, além de um blog com análise das empresas e explicações didáticas da estratégia. Alves credita o crescimento gradativo do Versa a essa transparência. Os números corroboram com a tese. Em meados do ano passado, a captação média diária do Versa era de R$ 30 mil. “Hoje captamos cerca de R$ 1 milhão por dia”, diz.

A consultora de investimentos da Órama, Sandra Blanco, aposta no aumento de clientes interessados em fundos em 2018 (Crédito:Rafael Jacinto/Valor/Folhapress)

O analista de sistemas Paulo Salerno, de 53 anos, investidor veterano que aloca recursos em fundos desde os anos 1980 foi um desses novos clientes. Em meados do ano passado, por indicação de uma amiga, aplicou R$ 100 mil no Versa incentivado pela postura distinta de Alves. “Transferi para lá meus recursos aplicados em outros fundos de risco, que tinham gestores sisudos e enigmáticos”, diz Salerno. Com a chegada dos novos clientes, Alves optou pelo fechamento do fundo por entender que os R$ 180 milhões em patrimônio são o teto para praticar o seu modelo de gestão.

Para atender à demanda, a equipe optou pela abertura de um novo fundo, o Versa Fit, que terá a mesma carteira de seu antecessor, mas com metade da quantidade de ações. Outra mudança importante é o valor do investimento inicial, que caiu de R$5 mil para R$ 500. “Queremos o investidor pequenininho”, diz Alves. O lançamento do fundo traz uma nova necessidade: a produção de vídeos. A ideia é apresentar conceitos de finanças com uma linguagem acessível, que atinja desde o leigo completo até o investidor que já tem alguma noção de economia.

William Eid, professor de Finanças da Fundação Getulio Vargas: “Uma parcela dos investidores da poupança poderia migrar para investimentos mais rentáveis” (Crédito:Sergio Zacchi / Valor)

Público potencial para isso, não falta. O Brasil tem cerca de 100 milhões de contas de poupança e somente 5 milhões de cotas compradas em fundos. “Uma parcela dos investidores da poupança poderia migrar para investimentos mais rentáveis, como fundos, se tivesse acesso às informações de gestão, que muitas vezes não fazem parte nem do escopo do gerente do banco”, diz William Eid, professor de Finanças da Fundação Getulio Vargas.

Além da educação financeira –mesmo que informal – as plataformas de investimento são outro advento que dão fôlego à indústria de fundos. Esse movimento ganhou força especialmente nos últimos cinco anos. A distribuidora de fundos Órama, plataforma que abriga o Versa, triplicou de tamanho em 2017 e hoje tem R$ 3,5 bilhões de ativos sob custódia – entre fundos de investimentos e renda fixa bancária. “A expectativa é manter esse ritmo de crescimento em 2018”, diz Sandra Blanco, consultora de investimentos da Órama.