Negócios

Low cost para a Europa

Depois de desembarcar na Argentina, a Norwegian chega ao Brasil com a atraente tarifa de R$ 1 mil para o trecho Rio-Londres. É metade do que cobram as concorrentes

Crédito: Divulgação

Fundada em 1993, a partir da oferta de voos na costa norueguesa, a Norwegian começou a ganhar novos ares em 2002, quando decidiu apostar em tarifas mais baixas. Sob esse modelo, mais conhecido no setor como low cost, a aérea ultrapassou fronteiras. Primeiro, vieram a Polônia e países escandinavos, como a Suécia e a Dinamarca. Na sequência, outros mercados na Europa, Estados Unidos, África e Ásia. Essa rota de expansão levou a companhia a um faturamento de US$ 4,6 bilhões em 2018. E vai incorporar mais um destino no próximo domingo 31, quando o Boeing 787 Dreamliner da companhia percorrer a pista do Galeão, no Rio de Janeiro, e levantar voo rumo ao Aeroporto de Gatwick, em Londres. O percurso de pouco mais de onze horas marca a chegada da Norwegian ao mercado brasileiro. E é mais um sinal de que o grupo está disposto a decolar também na América do Sul.

No desembarque, a Norwegian já mostra o seu cartão de visitas. O roteiro Rio-Londres terá, a princípio, quatro voos diretos e semanais, com preços a partir de R$ 1 mil, para classe econômica, e de R$ 2,8 mil na premium. Para efeito de comparação, a LATAM e a British Airlines, únicas aéreas que oferecem a mesma opção com voos sem conexões, têm preços que são, em média, o dobro da tarifa da norueguesa. Para fechar essa equação, a “estreante” baseia sua oferta em alguns componentes. Os preços mais acessíveis não incluem, por exemplo, bagagens despachadas, refeições a bordo e reserva de assentos. O valor das tarifas cresce à medida que o passageiro acrescenta um ou mais serviços. “O consumidor tem a liberdade de escolher pelo que quer pagar”, diz Christian Melhus, CEO da Norwegian na Argentina.

COMPETIÇÃO Há um ano, a Argentina foi a porta de entrada da Norwegian na região. Hoje, a empresa conta com voos diretos ligando Buenos Aires à Londres, além de rotas da capital portenha para cidades como Mendoza e Córdoba. “A Argentina está em um estágio anterior de evolução em relação ao Brasil e ao Chile. Apesar de sua grande extensão, se voa muito pouco no país”, afirma Matias Maciel, diretor de comunicação e assuntos públicos da companhia. Melhus acrescenta: “O mercado brasileiro é imenso e tem um potencial enorme. Mas, ao mesmo tempo, a competição é muito mais acirrada”, diz. “Mas estamos avaliando diversas opções no Brasil”, observa o executivo. O pacote inclui, entre outras frentes, a oferta de novas rotas, o investimento em uma estrutura própria ou mesmo uma parceria para estabelecer presença local. Por enquanto, a operação será tocada pelos times da Inglaterra e da Argentina, cuja equipe já tem cerca de 200 funcionários.

Tudo indica, no entanto, que não levará muito tempo para que o Brasil ganhe mais espaço no mapa da região. “Esse modelo low cost só faz sentido se tem escala”, diz Francisco Lyra, sócio da consultoria C-Fly Aviation. Para ele, a Norwegian chega ao País em um momento apropriado, com a perspectiva de retomada na economia. “Em períodos como esse, existe um atraso entre o aumento da demanda e a oferta de voos. Nesse cenário, é natural que os passageiros testem outras alternativas.”

Na frota: Christian Melhus, CEO da Norwegian Argentina, diz que a região pode ter 10 novos aviões em 2018 (Crédito:Divulgação)

BOEING Enquanto prefere guardar a sete chaves os próximos passos no Brasil, a companhia revela alguns investimentos para a América do Sul. Nos próximos dias, entra em operação um call center na Argentina que será responsável pelo atendimento trilíngue (espanhol, português e inglês) na região. Até o fim do ano, a frota atual de quatro aviões para deve ganhar de seis a dez aeronaves. “O plano é chegar a uma faixa de 50 a 70 aviões na região entre dez e quinze anos”, diz Melhus. A idade média global de 3,8 anos da frota é outro fator que explica o modelo de tarifas baixas da companhia. “Temos menos custos com questões como combustível e manutenção”, conta Maciel. As altas recentes no preço do petróleo, no entanto, foram um dos fatores que afetaram o desempenho do grupo que, em 2018, reportou um prejuízo de 1,45 bilhão de coroas norueguesas (US$ 116 milhões).

Com a frota na América do Sul restrita ao 787 Dreamliner, a operação não sofreu nenhum impacto na região com o caso recente envolvendo 737 MAX 8, da Boeing. Em menos de cinco meses, incidentes com duas dessas aeronaves, pertencentes à Lion Air e à Ethiopian Airlines, causaram a morte de 346 pessoas. Globalmente, porém, houve reflexos na operação. A Norwegian suspendeu, temporariamente, os voos dos 18 aviões desse modelo que compõem a sua frota. E foi obrigada a realocar voos e passageiros. Um porta-voz da empresa chegou a afirmar a um site norueguês que enviaria a fatura das perdas para a Boeing.

Analistas estimam um prejuízo diário de até US$ 55 milhões para o setor, enquanto o caso não é solucionado. Hoje, são mais de 350 aeronaves desse modelo paralisadas. Em carta divulgada no dia 18 de março, Dennis Muilenburg, CEO da Boeing, informou que a companhia lançará, em breve, uma atualização do software de estabilização do 737 MAX 8, além de um treinamento para pilotos da aeronave. O sistema em questão é apontado como a razão por trás dos acidentes. O executivo reforçou ainda que está cooperando com a Administração Federal de Aviação americana (FAA, na sigla em inglês). “Juntos, continuaremos trabalhando para ganhar e manter a confiança que as pessoas depositaram na Boeing”, escreveu.

Alguns fatores, no entanto, seguem desenhando um cenário turbulento para a empresa. Uma reportagem do jornal The New York Times apontou que a Boeing acelerou o desenvolvimento e a produção do 737 MAX com o objetivo de não perder mercado para a rival Airbus. Segundo fontes, o processo teria queimado etapas, com ritmos de entrega que eram o dobro dos prazos tradicionalmente adotados. Outro problema à frente são as ações judiciais que já estão sendo registradas em Chicago, cidade que abriga a sede da fabricante. O impacto nas vendas é mais um desafio. A Garuda, companhia aérea da Indonésia, por exemplo, cancelou um pedido de 49 737 MAX, no valor de US$ 4,9 bilhões. “Os passageiros da Garuda perderam a confiança e já não querem voar no modelo”, afirmou Ikshan Rosan, porta-voz da companhia.