Edição nº 1113 22.03 Ver ediçõs anteriores

Lorenza Sebasti traz os artistas plásticos para os vinhos

Lorenza Sebasti traz os artistas plásticos para os vinhos

Lorenza ao lado de Marco Pallanti, o enólogo do Castello di Ama

Com referências históricas na Toscana desde o século 12, o Castello di Ama ganhou uma nova imagem graças à proprietária Lorenza Sebasti. À qualidade dos vinhos (Ama já foi vinícola do ano, pelo Gambero Rosso, por exemplo), somaram as obras de artistas contemporâneos, como Michelangelo Pistoletto , Cristina Iglesias e Anish Kapoor, espalhadas pelo vinhedo e pela vinícola.

A coleção começou em 1999, pela paixão de Lorenza pela arte contemporânea. Primeiro, ela convidou Michelangelo Pistoletto para criar uma obra na propriedade. “A ideia é que os artistas se inspirem pelo terroir, assim como os nossos vinhos”, conta Lorenza, com entusiasmo. Pistoletto escolheu a entrada da adega antiga para a sua exposição. No ano seguinte, convidou Daniel Buren, que criou uma imensa parede de vidro, que reflete os vinhedos, no jardim. E, assim, a cada ano, Lorenza foi contratando artistas para criarem obras que, de alguma forma, interagissem com o Castello. “Convidamos os artistas a nos visitarem e eles são livres para criar o que quiserem”, conta ela.

A coleção nasceu particular, mas não demorou para Lorenza começar a receber pedidos de amantes de vinho para visitar, não apenas a vinícola, mas também as obras de arte. Em 2009, Lorenza abriu a vinícola aos visitantes (é preciso agendar previamente) e atualmente ela fala, com desenvoltura, não apenas sobre os vinhos, mas também sobre as obras, como ela conta a seguir, nesta entrevista.

Qual é a sua responsabilidade nos vinhos do Castello di Ama?
Marco Pallanti (o enólogo e marido de Lorenza) e eu dividimos um monte de decisões, mas a enologia é responsabilidade dele. Claro que provamos juntos, conversamos muito. Gosto de dizer que só fazemos os vinhos que amamos. Estamos sempre procurando a pureza, o finesse, o autêntico espírito do Castello di Ama.

Qual a sua opinião sobre a sangiovese?
Sou absolutamente apaixonada pela uva. Ela tem uma grande finesse e uma acidez, que convida a beber outra taça. A sangiovese e a pinot noir são as únicas uvas que nunca vou parar de beber. Os vinhos precisam ter um balanço entre acidez, álcool e seus taninos. Tem vinhos que são muito alcóolicos, ou muito frutados, outros que tem muito de tudo. O vinho que eu amo é aquele que traz, de forma muito precisa, o seu território, a paisagem.

Mesmo com referências histórias, o Castello di Ama é uma vinícola relativamente nova, fundada por quatro famílias em 1970. Desde este início, o que mudou na sangiovese?
Quando eu descobrir a sangiovese, nos anos 1980, os tempos eram mais difíceis, estávamos procurando mais madurez das uvas, os vinhos eram mais tânicos. Com o tempo, chegamos ao melhor trabalho nas vinhas, a não deixar a super maturação das uvas. Se tirar uma foto das vinhas nos anos 1980 é muito diferente de hoje. Mudou o número de vinhas plantadas, a forma de conduzir, que antes os vinhedos eram mais altos. A seleção de clones foi muito boa. Agora temos um jardim, com as vinhas realmente lindas. Lembro que conversávamos sobre as grandes safras, sobre como seria a evolução dos vinhos. Hoje, eu provo os meus vinhos da década de 1990 e eu realmente gosto. Eles envelhecem bem.

Mesmo fã da sangiovese, o Castello di Ama tem outras variedades, tem o L’Apparita, um dos seus ícones, que é um merlot.
Temos cerca de 75 hectares de vinhos e 2/3 está plantado com sangiovese. Temos merlot, chardonnay, malsavia, trebbiano para o vin santo. Temos dois singles vineyard, o Bellavista e o La Casuccia, os dois tem 80% de sangiovese, mas o blend é diferente. O La Casuccia tem 20% de merlot, e o Bellavista, de malvasia negra. Mas a diferença destes dois vinhos está na sangiovese. Quando provamos a sangiovese de cada um destes vinhedos, nota-se claramente as diferenças, que vem pelo solo, pela exposição solar. E nisso a sangiovese é muito similar à pinot noir. O terroir é a chave.

A arte te ajuda a entender o vinho de uma maneira diferente?
Arte é todo o dia, é minha vida. Assim como o vinho, que eu adoro provar diferentes vinhos, gosto de ver artes diferentes. Mas o Castello di Ama é o centro do meu mundo, e eu sou muito contemporânea. O Ama tem este acento, de ser contemporâneo e manter, ao mesmo tempo, a tradição.

Como surgiu a ideia de trazer artistas para os vinhedos?
Eu amo arte desde pequena. Com a arte, você sente o lugar. Não consideramos a arte como um marketing. Oferecemos o lugar para eles e os artistas são generosos em fazerem as suas criações. Atualmente, temos 16 obras, primeiro na adega, depois no vinhedo, na vinícola, em diferentes lugares.

Como acontece esta criação?
Convidamos o artista a nos visitar, ver se ele gosta do lugar, se tem química entre ele e a gente. Andamos pela propriedade, conversamos. Tem artistas que são rápidos, outros que demoram mais de ano para concluir de arte.

Quando abriu para o público?
Foi quando o projeto completou 10 anos. Eu entendi que era o momento de abrir para o publico. Mas foi um processo devagar, primeiro era alguns dias da semana, depois, contratamos uma pessoa e abrimos todos os dias, passamos a oferecer uma taça de vinho. Hoje também temos um restaurante e um hotel, com cinco suítes.


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