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Livre para voar?

Depois da queda de uma liminar que suspendia a negociação de sua aliança com a Boeing, a Embraer vive a expectativa de obter, enfim, a aprovação do acordo

Crédito: Marcos Issa

Desde que vieram à tona, no fim de 2017, as negociações para uma aliança entre a Embraer e a americana Boeing despertam incertezas sobre o futuro da fabricante brasileira de aviões — um dos orgulhos da indústria nacional. Dos altos e baixos no preço das ações da companhia às discussões sobre a parceria nas eleições presidenciais, não foram poucos os desafios de um roteiro que, por si só, já era complexo, dada a magnitude da transação. Na quinta-feira 6, essa trama ganhou mais um capítulo. Em uma ação movida por parlamentares do Partido dos Trabalhadores (PT), a 24ª Vara Cível Federal de São Paulo suspendeu, provisoriamente, as tratativas entre as duas partes. A promessa de uma nova turbulência, no entanto, durou pouco. No dia seguinte, a Advocacia-Geral da União derrubou a liminar. Passado o “susto”, a empresa comandada pelo CEO Paulo Cesar de Souza e Silva trabalha agora com os últimos acertos para que o acordo, enfim, decole.

Fusão: o CEO Paulo Cesar de Souza e Silva vê no acordo a chance de abrir mais mercados (Crédito: Silvia Costanti/ Valor )

PODER DE VETO O próximo passo é a apresentação da proposta final ao governo brasileiro, que detém uma golden share na Embraer, com o poder de veto sobre questões estratégicas relacionadas à empresa. O acordo passa pela criação de duas joint ventures. A primeira, avaliada em US$ 4,75 bilhões, incluiria os negócios e serviços de aviação comercial da brasileira, que ficaria com 20% de participação. A Boeing teria o controle, com os 80% restantes. Já a segunda operação concentraria o cargueiro militar KC-390, desenvolvido pela Embraer. Nesse caso, a americana seria a acionista minoritária. Os percentuais exatos de cada parte, no entanto, ainda não estão definidos.

É pouco provável que os dois planos sejam submetidos a avaliação ainda este ano. O prazo mais factível é o início de 2019. Depois da entrega, o novo governo de Jair Bolsonaro terá trinta dias para dar o seu parecer. A expectativa é de uma decisão favorável, em função das declarações recentes do presidente eleito e de seus pares a respeito do tema, em linha com o governo de Michel Temer. “Desde a primeira proposta, quando o modelo envolvia a aquisição total da Embraer, o acordo foi sendo moldado às demandas do governo”, diz uma fonte próxima à empresa. “O modelo atual é fruto dessas interações.” Um dos elementos polêmicos foi a possibilidade de a Embraer não ter voz ativa na joint venture de aviação comercial. Nesse ponto, o memorando de entendimento estabelece que a empresa tem o poder de vetar, por exemplo, a transferência da fábrica e da sede da nova companhia.

Questionamentos à parte, há um consenso de que a Embraer precisava encontrar alternativas. Especialmente no segmento de aviação comercial, seu carro-chefe. Da receita de US$ 5,83 bilhões em 2017, 58% vieram dos jatos com até 150 assentos. Até pouco tempo, a disputa da brasileira estava restrita à canadense Bombardier. Em outubro do ano passado, no entanto, a gigante franco-germânica Airbus ingressou na esfera dos jatos menores, ao assumir o controle do programa C-Series, da Bombardier. Novos concorrentes também surgiram, entre eles, a chinesa Comac e a japonesa Mitsubishi. Esse movimento de consolidação começou a se repetir em outros elos da cadeia, desde fornecedores até as companhias aéreas. “A ausência de uma associação significaria o início do fim da Embraer no longo prazo”, diz Francisco Lyra, sócio da consultoria C-Fly Aviation. “Com menor barganha para negociar, a empresa ficaria isolada e sem força entre todos esses atores”, afirma um executivo do setor.

ACESSO À OTAN Sem um acordo com a Boeing, esse cenário poderia ser ainda pior, já que, como uma resposta à Airbus, a gigante americana entraria, mais cedo ou mais tarde, no segmento de jatos de menor porte, colocando mais uma rival no encalço da brasileira. “Com a Boeing, a Embraer ganha poder de negociação e passa a ter muito mais recursos de venda e de marketing”, diz Richard Aboulafia, vice-presidente da consultoria americana Teal Group. “Mesmo com 20% da joint venture, a Embraer pode ter margens melhores e mais lucratividade”, completa Francisco Lyra.

O consultor brasileiro também aponta vantagens na parceria que envolve o KC-390. “As vendas de jatos militares têm um componente mais geopolítico do que técnico. E o Brasil é um ator pouco expressivo nessa área.” Hoje, boa parte das vendas da Embraer no segmento está restrita ao governo local e a países da América do Sul e da África. “Além do governo americano, com a Boeing, a Embraer vai ter acesso a países do Oriente Médio, da OTAN e da Ásia, que é o mercado de maior potencia de crescimento nos próximos anos.”

Para fontes ouvidas pela DINHEIRO, os demais negócios não incluídos no acordo têm boas perspectivas. Na aviação executiva, mercado no qual a Embraer ingressou em 2005 e cuja receita em 2017 foi de US$ 1,48 bilhão, a empresa ganhou escala a partir da crise econômica de 2008, com a estratégia de colocar, em primeiro plano, o desempenho das aeronaves. Outro negócio visto como promissor é a Visiona, joint venture com a Telebrás, que atua na área de satélites. E há um destaque também para a EmbraerX, unidade dedicada à inovação e que possui equipes em locais como o Vale do Silício. Entre outros projetos, esse braço tem uma parceria com o Uber para o desenvolvimento de um veículo elétrico de pouso e decolagem vertical, com início de produção previsto para 2023. “A Embraer tem muitas startups dentro da sua organização”, diz uma fonte próxima à empresa. “Separadas e com maior foco, elas terão condições de alçar voos mais ambiciosos.”