Let’s fly away: o gigantesco desafio das companhias aéreas

Let’s fly away: o gigantesco desafio das companhias aéreas

Quanto maior a complexidade de um negócio, maior a quantidade de variáveis não correlacionadas que precisam ser geridas ao mesmo tempo para o seu sucesso. Se essa frase é verdadeira, e acredito que seja, as companhias aéreas são provavelmente as organizações mais complexas do sistema capitalista. Preços de combustível e de moedas, logística de manutenção, definição de rotas, quantidade de passageiros, reclamações, catering, tributos, modelos de avião, aeroportos, sindicatos, qualificação da mão de obra, precificação de tarifas, influência governamental, risco de imagem e necessidade intensiva de capital são apenas algumas das variáveis que vêm à cabeça. Sou grande admirador dos executivos dessas companhias e da tarefa hercúlea que executam todos os dias para nos manter voando.

A preços de hoje, o mercado considera que a pandemia do Covid-19 deixou a indústria de aviação comercial em knockout. Além disso, põe em xeque o seu tamanho e sua viabilidade daqui para a frente.

 

  • US$ 100 aplicados no índice S&P 500 há seis meses equivalem, a preços de hoje, a cerca de US$ 84.
  • Os mesmos US$ 100 aplicados no ETF JETS, que congrega as empresas de aviação comercial, equivalem hoje a cerca de US$ 43.

Filas para triagem e revistas, restrições de líquidos a bordo, máquinas que tiram raios-X dos passageiros antes do embarque. Antes de 11 de setembro, nada disso existia. Passava-se apenas por um detector de metais. Alguém se lembra?O maior teste da resiliência e capacidade de transformação da indústria de aviação comercial foram os atentados em 11 de setembro. Assim como a tragédia em 2001 transformou nossa maneira de viajar, acredito que esse vírus também será responsável por uma mudança radical nessa área. As empresas – e nós, passageiros – vamos nos adaptar.

Em 2001 a situação era diferente, mas de certo modo também estávamos diante de um inimigo invisível. A indústria e os governos trabalharam intensamente para torná-lo detectável. Será que no futuro, para entrar em um avião comercial, vamos ter que passar por um teste de coronavírus? A higienização de aeroportos e aeronaves terá que ser mais rígida? Sistemas de ar condicionado de aviões deverão ser limpos com maior frequência? Acredito (e espero) que sim. Isso inviabiliza a indústria? Acho que não. Adiciona, com certeza, camadas a mais de complexidade a um negócio já complexo por natureza.

No longo prazo, continuaremos voando. No curto prazo, entretanto, o sofrimento da indústria será enorme. A quantidade de passageiros, especialmente na rentável classe executiva, deve diminuir drasticamente. O vírus nos ensinou à força que podemos realizar reuniões virtuais de maneira eficiente por meio de softwares excelentes. O que nos obriga a constatar que nem todas as companhias aéreas poderão continuar operando com o modelo de negócios pré-Covid-19.

Além disso, acredito que nós, passageiros, não vamos mais querer entrar em aviões nos sentindo como se estivéssemos entrando em uma lata de sardinhas. A tese de menos passageiros por voo, que já vinha se formando por conta da segurança a bordo, deve ser acelerada. Ou seja: mais uma mudança no modelo de negócios das companhias aéreas.

Acredito que as empresas líderes do setor nos Estados Unidos, como American Airlines, United e Delta, levarão mais tempo para se adaptar e terão que montar planos de ação mais drásticos. Num primeiro momento, acho possível que passem por uma guerra de preços, com a consequente redução do número de voos e a revisão de rotas. Por outro lado, operações localizadas e de baixo custo deverão reagir mais rapidamente. A meu ver, é o caso de companhias como Spirit Airlines, Alaska Air e JetBlue.

Com todos esses desafios, investir agora no setor requer muito estômago. Entretanto, há empresas mais bem preparadas para enfrentar os desafios, adaptar o modelo de negócios e seguir em frente. Identificá-las é a nossa tarefa como value investors.

Sinatra cantava let’s fly, let’s fly away – vamos voar por aí. Retratava na música o instinto explorador, o nosso desejo romântico de liberdade. Nenhum vírus vai nos tirar essas características. Vai ser diferente, e pode demorar um pouco, mas vamos voltar a voar.

 

 

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Sobre o autor

Norberto Zaiet é economista formado pela Universidade de São Paulo e com MBA pela Columbia Business School, em Nova York. Depois de passagens como executivo pelo banco alemão WestLB e pelo português Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), Zaiet foi CEO do Banco Pine. Hoje vive em Nova York, onde é sócio-fundador da gestora de investimentos Picea Value Investors. Com foco no conceito de Value Investing, a Picea Value Investors nasceu em 2019 com alcance global e atuação principal no mercado de ações norte-americano. Mais informações em www.piceavalue.com


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