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Leonardo da Vinci, um homem de múltiplas facetas

Leonardo da Vinci, um homem de múltiplas facetas

(Arquivo) O quadro "Salvator Mundi", do artista italiano Leonardo da Vinci, exposto em Nova York - AFP/Arquivos

Quem foi Leonardo da Vinci (1452-1519), o “gênio universal”? Entre as muitas facetas que o caracterizaram: uma curiosidade insaciável em decifrar o mundo e uma insatisfação que o obrigava a retrabalhar constantemente para estar o mais próximo da realidade.

– O bastardo –

Nascido fora do casamento, um bastardo, afetivamente infeliz, mas não materialmente (vem de uma família rica da Toscana), logo se apaixonou pelas ciências naturais. Seu gosto pela ciência foi, talvez, uma maneira de escapar de uma realidade dolorosa, segundo ele próprio analisou.

Freud se interessou por sua juventude em seu ensaio “Uma memória de infância de Leonardo da Vinci”, no qual tenta decifrar o inconsciente do artista.

– Entre os poderosos –

Muito rapidamente, assim que se estabeleceu em Florença, descobriu o ateliê do famoso Verrocchio e frequentou os poderosos.

De acordo com Louis Frank, um dos curadores da maior exposição dedicada ao artista que será inaugurada na quinta-feira no Museu do Louvre de Paris, era “um homem alto, forte, muito bonito, lúcido e melancólico”, que “gostava de falar sobre o que estava fazendo. Sua abordagem era muito racional e nada esotérica”. Ele se vestia de uma maneira que o fazia ser notado.

Além disso, não havendo necessidade, materialmente assistido por mecenas e príncipes, “ele tinha basicamente tempo, e sabia aproveitá-lo”.

– Homossexualidade –

Sua homossexualidade foi muito comentada. Inclusive com alguns de seus retratos de mulheres, bastante andróginas. Ele chegou a ser acusado em Florença de “sodomia” com um garoto de programa. Falou-se de um caso com seu assistente Salai e outros jovens. Mas nada foi provado.

“De fato, não sabemos quase nada sobre sua vida privada. Ele não deixou nenhum documento, enquanto escrevia textos muito bonitos”, diz Frank, cauteloso.

– Grandes espetáculos –

Seu verdadeiro trabalho era o de organizar espetáculos extraordinários para os príncipes e sua corte. “Era tarefa dele entreter, contar histórias, era muito divertido”, diz o curador. Ele dedicou muito do seu tempo a isso.

– Pesquisador –

Também existiu o pesquisador nato, apaixonado. Pesquisas em anatomia, botânica, mecânica, astronomia, arquitetura. Ele queria entender o interior dos fenômenos.

“Tinha um intenso sentimento da efemeridade das coisas, da destruição universal. Estimava que os quatro elementos – terra, ar, fogo, água – queriam retornar ao caos inicial”, enfatiza Pierre Frank.

– Inspiração mística –

Os temas religiosos da Salvação – em torno da Virgem Maria, Santa Ana, São João Batista, Cristo “Salvator Mundi”, São Jerônimo – o inspiraram profundamente. Era crente, mas não piedoso. Em sua Santa Ana, ele colocou muita humanidade, humanismo: a Virgem deve segurar seu filho ou deixá-lo partir para o seu destino?

– Corpos e máquinas –

O corpo humano, suas proporções, sua harmonia ou sua desarmonia, o rosto, suas expressões o fascinam. Assim, seu “Homem Vitruviano” exibido no Louvre define as proporções do corpo.

Suas descobertas científicas que ele desenhou nos vários esboços de seus codex, foram fontes de inspiração para os cientistas. Às vezes, suas máquinas são puramente utópicas. Ele certamente sonhava em voar.

A serviço do ‘condottiere’ Borgia, passou um tempo como engenheiro militar e elaborou planos para máquinas de guerra.

Mas o que o fascinava especialmente era a botânica, algo retratado té o fim de sua vida, perto de Amboise. Ele gostava do estudo da luz, relevos, plantas, animais. Isso deu, em suas pinturas, profundidade, detalhes extremamente bem estudados, mesmo que os personagens concentrem a atenção.

– Pintor genial –

Todo o conhecimento de uma vida, ele despejou em sua busca pictórica por rostos, expressões, vibrações que emanam das silhuetas (ele vai privilegiar a técnica do “sfumato”). Deixava partes inteiras inacabadas para destacar o essencial.

“Quanto mais ele avançava em sua carreira, mais se concentrava na própria expressão… Suprime para colocar em destaque os rostos e a expressão dos sentimentos humanos”, ressalta outro curador, Vincent Delieuvin. Como se ele sentisse com a idade a necessidade de ir direto ao ponto.

Para Leonardo, “a pintura deve restaurar a verdade do ser humano, sua anatomia, as paixões da alma, mas também o mundo”, diz ele.