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Leite derramado

A compra da Itambé deu à francesa Lactalis a liderança do mercado de lácteos no País. Mas, antes de comemorar a conquista, a empresa terá de superar uma intrincada disputa judicial

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Pacote: a Lactalis, do CEO André Salles, inaugurou duas novas linhas de produção em Teutônia (RS). Em 2018, a companhia planeja investir R$ 150 milhões no País (Crédito: Divulgação)

Em meados de 2013, a francesa Lactalis desembarcou oficialmente no Brasil com a aquisição do laticínio Balkis. À primeira vista, os R$ 70 milhões desembolsados pareciam tímidos. Especialmente se comparados ao porte do grupo europeu, que já ostentava a segunda posição no mercado global de lácteos, atrás apenas da compatriota Danone. Mas, desde aquela época, a companhia deixou claro que não tinha vindo ao País a passeio. Entre outras tacadas, a empresa investiu R$ 1,8 bilhão, em 2014, para adquirir a divisão de lácteos da BRF e incorporar marcas como Batavo e Elegê. O passo mais ambicioso, porém, veio no início de dezembro de 2017, quando a Lactalis fechou acordo com a Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais (CCPR) para comprar a Itambé, por um valor estimado em R$ 1,9 bilhão. “A Itambé encurta, em alguns anos, a nossa chegada ao topo do mercado brasileiro”, diz André Salles, CEO da Lactalis no Brasil.

Não se trata de um mero discurso. Aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) há duas semanas, a operação faz a Lactalis saltar de uma participação de mercado de 8% para 14,5%, e sua produção de leite sair de 1,6 bilhão de litros por ano para 2,7 bilhões de litros. Esses números a colocam na liderança do segmento no País, à frente dos 13,3% da Nestlé, segundo dados da consultoria Euromonitor. O negócio cria também uma nova gigante do setor, com uma receita estimada em R$ 6 bilhões. O clima, no entanto, não é de comemoração. Isso porque, na prática, o grupo francês comprou, mas ainda não levou. A aquisição está sob risco de ser cancelada em razão de uma disputa judicial com o grupo mexicano Lala.

O caso é intrincado. A Vigor, que era controlada pela J&F, detinha 50% da Itambé. A fatia restante pertencia à CCPR. Quando a Lala comprou a Vigor, em agosto do ano passado, por R$ 5 bilhões, ela fez também uma proposta para arrematar 100% da Itambé. Mas uma cláusula no acordo de acionistas permitia a uma das sócias igualar o valor da oferta. Foi o que fez a CCPR. Por R$ 600 milhões, ela assumiu o controle da Itambé em 4 de dezembro de 2017. Mas, no dia seguinte, ela vendeu a operação para a Lactalis. Essa transação é o pomo da discórdia. A Vigor alega que sua ex-sócia teria descumprido o acordo de acionistas, ao negociar, nos bastidores, a transação com o grupo francês. A Lactalis, por sua vez, tinha participado do processo de venda da Vigor e perdido o negócio para a Lala. Na ocasião, a Lactalis teria assumido o compromisso, fechado por todos que entraram na disputa, de não fazer nenhuma proposta pelos ativos da Vigor em um prazo de dois anos, o que incluía a Itambé. Com o negócio, esse acordo teria sido desrespeitado pela Lactalis.

Esse imbróglio motivou uma série de liminares entre as partes. E, ao que tudo indica, está longe de um desfecho. O caso está nas mãos da Câmara de Direito Empresarial do Tribunal de Justiça de São Paulo e existe a possibilidade de uma decisão final ser tomada apenas na esfera da arbitragem – o prazo médio estimado é de dois anos. Até a decisão, a Lactalis não poderá assumir a gestão da Itambé. Procurada, a Vigor informou que não iria se manifestar. A Itambé, ainda sob controle da CCPR, não retornou os pedidos de entrevista. Salles, da Lactalis, mostra confiança numa decisão favorável. “Temos teses muito sólidas nos processos relacionados ao caso e acreditamos na Justiça brasileira”, diz o executivo.

Ganho de escala: com fábricas instaladas em Minas Gerais e Goiás, a Itambé diversificaria o mapa de produção da Lactalis (Crédito:Divulgação)

A complementaridade é um dos pontos destacados na aquisição. Hoje, a Lactalis está mais concentrada na região Sul do País. Já a Itambé possui cinco fábricas em Minas Gerais e Goiás. “O acordo colocará a Lactalis no centro da maior bacia leiteira do País e dará mais escala para negociar com produtores”, diz Leonardo Freitas, analista da Euromonitor. O consultor da Scot Consultoria, Rafael Ribeiro, complementa que a união das empresas reforçará “o portfólio com marcas fortes no Sudeste e em categorias com margens mais atrativas, como manteiga e requeijão”.

Ansiedade pelos desdobramentos do destino da Itambé à parte, Salles entende que, independentemente de qual seja a decisão, a Lactalis ainda tem muito apetite pelo Brasil. “O mercado de lácteos é muito fragmentado no País e há espaço para outros movimentos”, afirma o executivo. Um exemplo disso são os investimentos de R$ 150 milhões para a operação brasileira em 2018. O montante segue o mesmo patamar do ano passado. Para fechar essa equação, a empresa vem modernizando parte das 15 fábricas que possui no País, buscando aumento de produtividade. E tem ampliado a produção local, que hoje cobre 80% do portfólio disponível para os consumidores brasileiros.

Um exemplo nessa direção foi dado na semana passada. A empresa inaugurou duas novas linhas de produção na unidade gaúcha de Teutônia. Com capacidade de 500 toneladas por mês, a primeira delas fabricará manteigas, com destaque para uma linha premium, da marca Président. A estimativa é a de que o produto, carro-chefe do grupo na França e até então importado no Brasil, tenha uma redução no preço de 30% no País. A outra linha será de leites UHT, em garrafas PET, das marcas Parmalat e Elegê. “Queremos reforçar nossas categorias premium. Mas, ao mesmo tempo, tornar esses produtos mais acessíveis”, diz Salles.