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Lego à base de cana-de-açúcar

Empresa dinamarquesa de brinquedos investiu US$ 155 milhões para abandonar o plástico proveniente do petróleo e escolheu a brasileira Braskem como a principal fornecedora da matéria-prima sustentável

Lego à base de cana-de-açúcar

Os famosos tijolos de brincar, que fazem parte do universo infantil desde 1932, estão próximos de provocar uma revolução. A dinamarquesa Lego, fundada por Ole Kirk Kristiansen, decidiu trocar o plástico derivado de petróleo, a matéria-prima principal para a fabricação de 75 bilhões de peças anuais, por um material sustentável à base de cana-de-açúcar. Neste ano, cerca de 1,5 bilhão de unidades terão o novo composto. Esse número vai aumentar gradativamente, nos próximos anos, até atingir 100% da produção em 2030. “Essa é uma pequena mudança e o primeiro passo de muitos na nossa jornada”, disse à DINHEIRO Tim Brooks, vice-presidente de responsabilidade ambiental e materiais sustentáveis ​​da Lego.

Peça a peça: o vice-presidente Tim Brooks diz que a Lego, tem investido em estudos para aperfeiçoar o bioplástico (Crédito:Divulgação)

A decisão da Lego em aderir ao bioplástico atende a pressão global de entidades ambientalistas pela redução do uso de insumos de combustíveis fósseis. Desde 2015, a companhia criou um centro de inovação de materiais sustentáveis para estudar quais podem ser as mudanças no formato, na durabilidade e na coloração das peças. Com investimento de US$ 155 milhões, uma equipe de 100 pessoas busca soluções para substituir o plástico convencional. Há três grandes produtores de plástico verde no mundo: a americana NatureWorks, a italiana Novamont e a brasileira Braskem, que foi envolvida na operação Lava Jato e fez um acordo de leniência no qual concordou em pagar uma multa de US$ 960 milhões.

Gustavo Sergi, diretor de renováveis da Braskem: “A Lego é uma empresa de peso no mercado. Com esse movimento, ela deve levar seus concorrentes a fazer o mesmo”

A produtora nacional, com o seu material à base de cana-de-açúcar, saiu na frente nessa disputa. “A Lego é uma empresa de peso no mercado”, diz Gustavo Sergi, diretor de renováveis da Braskem, escolhida para a ser fornecedora do plástico verde para a empresa dinamarquesa. “Com esse movimento, ela deve levar seus concorrentes a fazer o mesmo.” No Brasil, a Estrela já experimentou esse composto em um de seus brinquedos. Em 2008, a empresa desenvolveu o Banco Imobiliário Sustentável, também em parceria com a Braskem. “Hoje, só fazemos a manutenção dessa linha”, diz Aires Fernandes, diretor de marketing da Estrela.

Neste primeiro ano, apenas os elementos botânicos (como as árvores e folhas da foto acima) da Lego serão feitos com o plástico verde. Isso porque ainda há desafios a serem enfrentados para o bioplástico ganhar escala. Ele representa apenas 1% do mercado global de plásticos. Portanto, o que é produzido é insuficiente para suprir os mais diversos mercados, além de atender toda a cadeia de brinquedos. No Brasil, por exemplo, 60% dos brinquedos são feitos de plástico e consomem cerca de 250 mil toneladas da matéria-prima – mais do que a capacidade de produção da Braskem, de 200 mil toneladas por ano.

Há também um ponto fundamental que não foi solucionado: a solidez das cores. O produto ainda apresenta falhas que desagradam a indústria. No caso da Lego, além das cores, a fricção provocada pela montagem dos blocos exigem encaixe perfeito. O plástico verde ainda não oferece essa segurança. “Tivemos 50 anos para entender e aperfeiçoar o plástico ABS”, diz Brooks. “Ainda não estamos nesse estágio com materiais recicláveis. Mas estamos trabalhando para garantir que outros elementos Lego possam usar materiais sustentáveis.” Num momento em que os brinquedos tradicionais competem com o mundo digital, a Lego faz a sua aposta nos tijolos com propósito.