Lata d’água na cabeça, nunca mais

Lata d’água na cabeça, nunca mais

Numa casa sem água tratada e coleta de esgoto, duas coisas acontecem: os moradores, em especial as crianças, adoecem com mais facilidade e as tarefas domésticas acabam sendo muito mais penosas. Imagine o que é buscar água em baldes para garantir o mínimo de higiene em um banheiro improvisado ou uma cozinha sem torneira. Ou o que é tomar banho e beber a água que chega em mangueiras clandestinas, invariavelmente contaminada, fedida e despejada de volta no valão que passa ali ao lado.6

Essa realidade de milhares de casas espalhadas pelo Brasil impacta especialmente as mulheres, e as mulheres mais pobres. Em 2018, o Instituto Trata Brasil, ONG que se dedica a promover os avanços do saneamento básico, fez um estudo mostrando que 27 milhões, ou uma em cada quatro mulheres brasileiras, vivem exatamente assim.

Na semana passada, e depois de quase 20 anos estacionado no Congresso, o novo marco legal do saneamento foi aprovado. Deve acelerar investimentos públicos e privados de até 700 bilhões de reais em três anos, com garantia jurídica e regulação robusta. Se bem aplicado, é dinheiro suficiente para riscar mais essa vergonha das nossas estatísticas. Porque suas consequências são inúmeras, todas elas graves, aprofundando a desigualdade que se perpetua no país.

Sem água e esgoto, as crianças ficam permanentemente doentes e a mulher passa a ocupar ainda mais do seu tempo no cuidado com elas. A escola se torna inviável e o posto de saúde não ajuda muito. Se essa mulher trabalha fora de casa, e hoje metade das famílias no Brasil são lideradas por uma mulher, acaba faltando com mais frequência no serviço e tem o dia descontado. Sem considerar que ela própria adoece – nas capitais, mais de 83 afastamentos por mil mulheres a cada ano são relacionados com doenças causadas por contaminação da água. Na pior das hipóteses, acaba sendo demitida, ou sequer consegue trabalho.

As tarefas domésticas mais complicadas também absorvem mais do seu tempo. Lavar roupas ou cozinhar com água corrente é muito diferente de fazer isso com água carregada no braço, como se diz. Com menos tempo e mais cansada, ela acaba em empregos que pagam menos  – mulheres que vivem em casas sem banheiro têm renda 61,3% menor que aquelas que dispõem de banheiro em casa. Menos renda significa mais dificuldade para criar os filhos e abastecer a despensa. Com menos comida, as crianças e outros membros da família ficam mais doentes.

O impacto na escolaridade das meninas sem acesso ao saneamento básico também é cruel. Na média, elas ficam 1,2 ano mais atrasadas na progressão escolar e suas médias no ENEM são as mais baixas de todas, praticamente impedindo o acesso à rede pública de ensino superior. Elas também têm a menor escolaridade quando ingressam no mercado de trabalho, e estão destinadas a repetir a história de suas mães. Fecha-se o círculo, e ele não tem a menor chance de ser virtuoso.

É claro que os homens também sofrem as consequências do descaso, mas elas são maiores para as mulheres. Desenhar aqui o seu dia a dia tem apenas o objetivo de mostrar onde – e quem – a falta de saneamento básico prejudica ainda mais.

Obras de saneamento não exigem grandes malabarismos tecnológicos, são razoavelmente simples e a engenharia brasileira tem condições de entregar excelência nesse setor. Com o novo marco regulatório, ainda mais. Mas se é assim, como foi que chegamos a números tão horrorosos? A explicação pode estar no fato de que o setor público é o dono dessa bola há algumas décadas, constitucionalmente cedida a ele, e qualquer político de primeiro mandato segue a cartilha que diz que enterrar canos não dá votos – melhor fazer viadutos, que aparecem nas fotos.

Não existe discurso de igualdade de gênero e de oportunidades, ou mesmo de direitos humanos que faça sentido para quem vive sem água limpa e coleta de esgoto no século 21. E não é forçar a mão dizer que as mulheres precisam ter acesso (também) a isso para poderem exercer plenamente seus direitos e realizar seu potencial. Carregar lata d’água na cabeça, nunca mais – isso pode muito bem ficar apenas naquela velhíssima marchinha de Carnaval.

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Sobre o autor

Junia Nogueira de Sá é jornalista, consultora de comunicação estratégica e conselheira de empresas e organizações sociais; é também delegada brasileira no Women20 do G20, associada à WomenCorporateDirectors e ao movimento Mulheres Investidoras Anjo. Estuda, pesquisa e escreve sobre o universo feminino há mais de 10 anos.


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