Negócios

LAMA PETROQUÍMICA

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Paulo Cunha: um “zé ninguém” que quer comprar a Copene



 

 

É difícil imaginar um romance policial tendo como pano de fundo o setor petroquímico ? que responde por quase tudo que se produz no Brasil, do plástico de embalagens a comp onentes do motor de um carro. Como conciliar nomes complexos e enfadonhos, como propeno, policarbonato e polietileno, com cenas de ação, suspense e pancadaria? Na ficção, isso pode não existir, mas na vida real, basta acompanhar o dia-a-dia da Triunfo, empresa do pólo petroquímico do Rio Grande do Sul, para ali encontrar todos os elementos de uma narrativa policial ? de sabotagem industrial a grampos telefônicos, de agressão física a alianças obscuras, de disputa por dinheiro a ambição pelo poder. Os personagens dessa trama são os três acionistas da companhia. De um lado, o empresário paulista Boris Gorentzvaig, dono da Petroplastic e de 28% do capital votante da Triunfo. De outro, estão dois gigantes do setor, a Petroquisa, subsidiária da Petrobras, e a Dow Química, um dos maiores grupos químicos do mundo. Suas participações são de 45% e 25%, respectivamente. O mais recente lance da disputa ocorreu em 30 de abril, durante uma assembléia de acionistas. Uma desavença a respeito da presidência dos trabalhos acabou numa delegacia de polícia de Porto Alegre. E, ao final, Boris Gorentzvaig e seu filho Caio foram retirados por força da lei da direção do grupo.

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Carlos E. Freitas: o futuro do setor passa pelos gabinetes do Bc

Gorentzvaig é um sujeito controverso. Seus pares do setor petroquímico o acusam de intransigente, violento e ambicioso. ?É uma pessoa de relacionamento difícil, não pensa na companhia e só tem olhos para os dividendos?, diz Ivo Soares Filho, diretor da Petroquisa. Só nos registros do Superior Tribunal de Justiça, constam 19 processos contra a Petroplastic. Um deles diz respeito à disputa entre ele e seu irmão Salomão pelo controle da Petroplastic. ?O Boris é litigante profissional?, diz Sérgio Tostes, dono de uma banca de advocacia que presta serviços à Petroquisa.

Só que Gorentzvaig também não gosta de seus concorrentes. Em entrevista à DINHEIRO (leia quadro), ele ataca violentamente a ?aliança espúria entre Dow e Petroquisa?, acusa o presidente da Petrobras Philipe Reichstul, ?esse vira casaca?, de persegui-lo e acredita que toda essa situação pode até ?derrubar o presidente da República?. De quebra, diz que o empresário Paulo Cunha, do grupo Ultra, é um ?zé ninguém? que quer comprar a Copene e Emílio Odebrecht acalenta o ?sonho megalomaníaco de ter monopólio da indústria petroquímica brasileira?. No centro da briga está o controle da Triunfo, dona de um faturamento anual de R$ 375 milhões e lucro de R$ 43,6 milhões em 2000. Essa dinheirama vem da fabricação e venda de um tal de polietileno de baixa densidade, matéria-prima de produtos como embalagens industriais e revestimento de cabos elétricos. Mas o que valoriza realmente a Triunfo é o seguinte: a companhia pode ser uma importante base para a conquista de uma posição privilegiada no pólo gaúcho e, por tabela, no setor petroquímico brasileiro.

 

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Daniel Feffer: placa de “vende-se” colocada em seus negócios

Trata-se, inclusive, de um movimento de sobrevivência no momento mais dramático vivido pela petroquímica nacional desde sua concepção na década de 70. O modelo tripartite (que unia capital estrangeiro ao estatal e privado nacional), utilizado desde então, esgotou-se e, com ele, a safra de barões que dominavam o setor. O caso mais emblemático foi o dos Rosemberg, um dos titãs nos primórdios da indústria. Hoje, sua corporação, a Cevekol, está reduzida a pó.

O futuro dos sobreviventes passa pelos gabinetes de Carlos Eduardo de Freitas, do Banco Central, que comanda o processo de venda da Copene, e de Philipe Reichstul, dono de enorme poder de barganha graças à Petroquisa. Cada uma das famílias procura ocupar um pedaço no futuro mapa do setor. Paulo Geyer, por exemplo, acaba de retomar o leme de seu grupo, o Unipar, na tentativa de recuperar o antigo prestígio. A família Gouvea Vieira, que dirige a Ipiranga, já desistiu e colocou a placa de ?vende-se? em seus negócios ? mesmo caminho seguido pela empresa Suzano, de Daniel Feffer. Os Mariani e os Odebrecht buscam fincar suas bandeiras na Copene e, assim, dominar o território do pólo de Camaçari, mais importante do País. Essa também parece a derradeira oportunidade de Paulo Cunha dotar o grupo Ultra, da família Igel, de músculos suficientes para enfrentar a nova situação de mercado.

 

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Paulo Geyer: de volta aos negócios para recuperar o brilho perdido

De olho nesse quadro, é fácil entender a disposição de Gorentzvaig para a briga com os sócios na Triunfo. A empresa é a única corda que o une ao setor. E, segundo sua argumentação, há uma campanha orquestrada para colocá-lo na galeria de antepassados do setor. A briga é antiga. Nasceu junto com a empresa, em 1985. Na ocasião, a Aplub, um montepio gaúcho, resolveu abrir mão de sua participação na empresa. Gorentzvaig acreditava ter preferência na aquisição do lote. A Petroquisa não concordou e arrematou a parcela do capital pertencente à Aplub. O assunto foi parar nos tribunais e até hoje não saiu de lá. Por conta dessa divergência, Gorentzvaig garante que a Petroquisa lhe deve R$ 72 milhões, equivalente aos dividendos ?usurpados pela estatal? ao longo do período. ?O cálculo saiu da cabeça dele. Não há nada de concreto nessa conta?, diz Artur de Oliveira, do conselho de administração da Triunfo.

Mas o que mais incomoda Gorentzvaig é a união da Petroquisa e da Dow. Há uma questão de direito aí, diz ele. Segundo o acordo de acionistas e o estatuto social da companhia, pelo menos 51% das ações com direito a voto deverão estar em mãos do capital nacional. ?Assim, a Petroquisa deveria nos acompanhar nas votações para preservar o controle brasileiro na Triunfo?, diz Gorentzvaig. Essa é sua interpretação.

Para a Petroquisa, as coisas são diferentes. ?O acordo de acionistas fala em 51% do controle acionário e só?, diz o advogado Tostes. ?A partir daí, Boris fez uma ilação que o leva ao delírio de achar que, em todas as votações, a Petroquisa deverá seguir seus votos. Ele quer controlar a empresa com apenas 28%??

?Há uma aliança espúria entre a Dow e a Petroquisa para alijar o capital nacional?, diz Gorentzvaig. ?O objetivo é sufocar a Triunfo para comprá-la de nós na bacia das almas.? Procurada, a Dow não se manifestou. O ?desejo de destruição? da Dow iria mais longe. De acordo com Gorentzvaig, um lote de polietileno enviado pela Triunfo para a Petroplastic estava misturado com limalhas de ferro. ?Essa sabotagem destruiu minhas máquinas?, diz ele. ?Perdi os clientes, fui obrigado a mudar de ramo e hoje tenho uma empresa de fundo de quintal. Agora, querem repetir a dose na Triunfo.? Seria esse o motivo, segundo Gorentzvaig, para que todas suas pretensões de expandir a capacidade produtiva da empresa tenham sido barradas. Em 1989, a empresa obteve autorização do então presidente da República, José Sarney, para ampliação de suas operações. ?Nunca saiu do papel?, diz ele. Uma das tentativas foi a compra da Politeno, em Camaçari. Gorentzvaig garante que obteve aprovação de seus sócios na Triunfo e levantou financiamento de US$ 300 milhões junto ao Bradesco para arrematar 65% do capital. Cerca de 48 horas antes de bater o martelo, a Petroquisa retirou o aval que já havia garantido. O motivo, segundo Gorentzvaig: ?O Andrea Calabi, então presidente do BNDES, queria o grupo Ultra no domínio do pólo de Camaçari e, por isso, fez uma visita à Petrobras para reverter o aval à aquisição da Politeno.?

Gorentzvaig também gostaria de ficar com o braço químico do Ipiranga, instalado a poucos metros da fábrica da Triunfo. É negócio de US$ 800 milhões. Com a compra, levaria quase 30% da Copesul, central de matérias-primas do pólo gaúcho. Desta vez, convocou Itaú, Bradesco e Deutsche para levantar o dinheiro. ?Os bancos deram sinal verde para a viabilidade da transação?, diz ele. Segundo seus cálculos, o financiamento seria pago com o próprio caixa das companhias em sete anos. Petroquisa e Dow não deram apoio ao projeto. ?É só comparar o tamanho da Ipiranga e da Triunfo?, diz Carlos Fontes, presidente da Petroquisa. ?Como uma companhia de US$ 150 milhões pode fazer um negócio de US$ 800 milhões? Gorentzvaig não tem fôlego para acompanhar um investimento de tal magnitude.?

Com tal clima de discordância, o desfecho da assembléia de 30 de abril não surpreende. Gorentzvaig se candidatou à presidência dos trabalhos. Para isso, mais uma vez, exigiu que a Petroquisa se aliasse a ele e o apoiasse com seus votos. Diante da resistência dos representantes da estatal, Gorentzvaig correu até a cadeira da presidência, sentou-se e berrou para os adversários. ?Não cheguem perto que eu empurro.? Um advogado do escritório de Tostes interveio. Gorentzvaig e o filho Caio reagiram. Por pouco o encontro não termina em pancadaria. Os representantes da Dow e da Petroquisa retiraram-se da sala e foram a um distrito policial, onde registraram queixa contra Gorentzvaig.

A seguir, voltaram para a sede da Triunfo e iniciaram nova assembléia, enquanto Gorentzvaig fazia o mesmo em outra sala. Até o fim do dia, Gorentzvaig não se levantou da cadeira de presidente. Resultado: duas assembléias, duas atas e nenhuma solução para a crise. Boris está afastado do conselho de administração. Caio, membro da diretoria executiva, teve o mesmo destino ? foi destituído pelos conselheiros com base em carta assinada pelos quatro diretores da companhia pedindo seu afastamento. ?Eles foram pressionados a endossar a carta?, diz Caio. ?Gravei uma conversa telefônica com um diretor que admitia a coação.?

O embate entre as duas partes parece ter chegado ao limite. ?Nós não os queremos no conselho ou na diretoria?, diz Fontes. ?Na verdade, ele está impedido de exercer esse papel, pois a lei impede a eleição de conselheiro com processos na Justiça.? O caso está, mais uma vez, a caminho dos tribunais.

?A PETROBRAS ESTÁ ME ANIQUILANDO, ME ARREBENTANDO E ME SUFOCANDO?

DINHEIRO ? Em sua opinião, por que a Petroquisa fez a aliança com a Dow?
Gorentzvaig ?
É necessário saber como a Dow conseguiu os votos desses funcionários públicos para dominar a Triunfo. O veículo pelo qual se consegue essas coisas é um veículo de que tanto se fala. Os funcionários têm carros último tipo, apartamentos etc.

DINHEIRO ? O sr. acha que há algum favorecimento pessoal para o pessoal da Petroquisa?
Gorentzvaig ?
Eu não tenho dúvida. A suspeita é muito grande, muito grande. Qual o acordo com a Dow a ponto deles tomarem posições de alijar o empresário privado nacional do negócio? A Petrobras aliada ao capital estrangeiro está aniquilando, arrebentando, sufocando a Triunfo. Tinha de botar esses caras na cadeia, pois isso atenta contra o interesse nacional, de acordo com o artigo 117 da Lei das S.As.

DINHEIRO ? A situação mudou na gestão do sr. Philipe Reichstul?
Gorentzvaig ?
Nunca houve tanta violência contra minha empresa como na gestão do Reichstul, nunca. O estranho é que quando ele foi consultor nosso por dois anos (antes de assumir a presidência da Petrobras), ele lutou incessantemente para conseguir nossos direitos. Conversou com o grupo Ipiranga, com Odebrecht, com o José Serra, com ministros, com tudo que se pode imaginar.

DINHEIRO ? O que mudou, então?
Gorentzvaig ?
Mudou a posição dele.

DINHEIRO ? Por que mudou de posição?
Gorentzvaig ?
Isso não sei, porque nunca tive oportunidade de ir lá conversar com ele. Conversa com os outros empresários e não conversa comigo. Ele diz que, por ter sido meu consultor, não quer conversar comigo. Ele não precisa necessariamente defender a Petroplastic, mas não pode usar de meios autoritários para prejudicar o patrimônio da Petroplastic, ele não pode virar a casaca do jeito que ele virou.

DINHEIRO ? Que meios autoritários?
Gorentzvaig ?
Desrespeito ao acordo de acionistas. Ele autorizou que se colocasse polícia privada para que eu e o Caio não continuassem a ser representantes da Petroplastic dentro da Petroquímica Triunfo. Ele mandou o militar dele, o Fontes (Carlos Fontes, presidente da Petroquisa), chegar lá com polícia privada. Isso foi dito pelo próprio Fontes. Eu gostaria também de verificar se a decisão de alijar a Petroplastic da Triunfo foi do conselho de administração da Petroquisa. O Reichstul não pode dizer que a decisão não é dele porque ele é presidente do conselho de administração da Petroquisa. O que eu estou discutindo é uma posição ilegal, ilícita do sr. Reichstul como presidente da Petrobras. A aliança da Dow com a Petroquisa é caso de derrubar o sr. Philipe Reichstul. É caso de soberania nacional. É caso de derrubar até presidente da República. É favorecimento de uma empresa estrangeira contra o patrimônio de uma empresa nacional.

DINHEIRO ? Qual seria a saída para isso?
Gorentzvaig ?
Precisamos uma agência reguladora para o setor petroquímico. É errado colocar o Banco Central para decidir assuntos do setor petroquímico, só porque o BC pegou o patrimônio do Banco Econômico. Se o BC que não tem conhecimento de causa, como pode deliberar, decidir…? Isso também evitaria a excessiva influência política no setor.

DINHEIRO ? O que a influência provoca?
Gorentzvaig ?
É um absurdo que no século 21, um grupo como o Odebrecht, através de sua influência política com o Fernando Henrique, pretender o apoio do Banco Central para se tornar o monopólio da petroquímica. A Odebrecht tem aquele sonho megalomaníaco de ser o monopólio da indústria petroquímica brasileira. Quer ser dono do pólo do Rio Grande do Sul, ser dono do pólo da Bahia, é uma vergonha. Tem de haver competição.

DINHEIRO ? Eles entrariam em conjunto com o Grupo Mariani…
Gorentzvaig ?
O Mariani e nada são a mesma coisa. O Mariani é um guarda-chuva da Odebrecht, assim como o Ipiranga foi guarda-chuva da Odebrecht no Rio Grande do Sul. O Odebrecht não tem competência para ser monopólio nem competência para dirigir a fatia que é dele.

DINHEIRO ? E o Paulo Cunha?
Gorentzvaig ?
O fenômeno Paulo Cunha demonstra o jogo político brasileiro interferindo na economia de mercado. Pega uma pessoa que não tem competência financeira, capacidade mercadológica e faz dele um pretenso candidato à compra da Copene. Pega um zé ninguém para comprar a Copene. Se bem que esse zé ninguém não está nada endividado, está mais forte do que o próprio Odebrecht. O pior de tudo não é o grupo Ultra, mas o jogo político safado de fazer de uma empresa superendividada o nababo da indústria petroquímica brasileira. Isso é um absurdo. Pega uma empresa como Triunfo, faz um jogo de encenação de briga societária, provocado pela própria Petrobras, para não expandir a empresa. Tudo isso em função de uma interferência política exagerada. Era de Antônio Carlos Magalhães e não tem dúvida que é do Fernando Henrique, que tem uma amizade pessoal com o sr. Odebrecht, uma amizade pessoal com o grupo Ultra, amizades essas que não sei de onde vêm.

DINHEIRO ? Qual o objetivo da Dow com a Triunfo?
Gorentzvaig ?
Estão suportando a gente para poder comprar a empresa na bacia das almas. A Dow trabalha assim. Eles querem esperar a Odebrecht comprar a Copene e, dois, três, quatro anos depois, comprar o patrimônio da Odebrecht na massa falida. O que a Dow tem dito dentro da Triunfo é que quer dominar toda a indústria petroquímica nacional na massa falida.