Edição nº 1058 23.02 Ver ediçõs anteriores

Juros fora do tom

Juros fora do tom

Se há um instrumento da política monetária completamente distorcido em relação às atuais circunstâncias da economia são as taxas de juros. Escorchantes e por vezes irreal, no momento elas mais uma vez não se justificam no atual patamar, principalmente com a acelerada queda da inflação. O próprio Banco Central reviu, há poucos dias, para baixo os índices inflacionários que devem balizar o mercado neste ano e no próximo. E os indicadores são extremamente animadores. No atual contexto abre-se gradativamente e de maneira perigosa um gigantesco fosso de distância entre as duas taxas – de inflação e juros – privilegiando a ciranda financeira e os ganhos de capital, em detrimento dos investimentos tanto públicos como privados.

Com os juros pressionando as dívidas de Estado e limitando as movimentações de crédito – por absoluto desinteresse dos agentes em tomar empréstimos impagáveis nesse patamar – o Governo acaba por montar um cabo de força no qual ninguém sai vencedor. De uns tempos para cá, a equipe da Fazenda até se inclinou a aumentar o ritmo de queda dos juros, mas têm feito isso numa velocidade ainda aquém da necessária. O movimento, até surpreendente, da última baixa da ordem de 1%, fixando a Selic no nível de 11,25% ao ano, foi bom. Ainda assim deixou a velha sensação de um cachorro correndo atrás do próprio rabo.

Com a carestia girando na casa dos 4% a 5% no mesmo período a gordura – ou sobra que se reverte em ganho apenas para investidores – supera os 6%. É a melhor coisa do mundo viver de renda com tamanho lucro! Poucos negócios no atual cenário têm tal potencial de rentabilidade garantida. Após a hecatombe financeira dos anos Dilma, com a inflação em desabalada carreira, a moderação na alta de preços se tornou uma realidade com a troca de governo. No tabuleiro de condicionantes para juros na faixa de um dígito, esse era um fator decisivo. A expectativa de reviravolta não se confirmou. Alegam as autoridades que ainda faltam outros elementos para cravar um abate consistente das taxas.

Entre eles, as reformas e ajustes que estão em discussão no Congresso. O ministro Henrique Meirelles foi taxativo em apontar que sem reformas (especialmente a da previdência) os juros podem voltar a subir. O que seria um desatino. Tome-se o caso da despesa com rolagem de dívidas da União, que explodiria. No setor público, além de comprometer a retomada, a Selic nessa toada vem acentuando as dificuldades de caixa e agravando o tamanho do déficit. Juros baixos, mais realistas, estimulam (como todos sabem!) o ciclo produtivo, injetando liquidez na praça, desafogando as linhas de crédito e provocando ânimo para investir e consumir, na rota do crescimento desejado.

(Nota publicada na Edição 1015 da revista Dinheiro)


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