Finanças

Juros avançam em dia de aversão a risco com escalada de tensões EUA-China

Em alta desde o início dos negócios, os juros futuros encerraram a sessão desta segunda-feira, 5, perto das máximas, acompanhando a escalada do dólar e a piora do humor global ao longo da tarde. O aumento dos prêmios de risco se deu em meio a um movimento clássico de “fuga para a qualidade”, com investidores reduzindo posições em ativos de países emergentes para se abrigarem nos Treasuries em meio à escalada das tensões entre Estados Unidos e China.

Após as quedas das taxas na esteira da decisão do Copom na semana passada de cortar a Selic em 0,50 ponto porcentual, havia espaço para um movimento de recomposição de prêmios. Segundo operadores, a alta das taxas até que foi moderada quando se observa o grau de depreciação do real.

A fraqueza da atividade e a tendência de que as expectativas de inflação se mantenham ancoradas, a despeito de uma eventual alta mais forte do dólar, mantêm o espaço aberto para queda adicional da Selic. Embora não seja razoável fazer cálculos sobre as apostas para o Copom de setembro com base no fechamento das taxas desta segunda, dada a influência do ambiente externo, ainda se mantém a possibilidade de redução da Selic em 0,50 ponto porcentual, para 5,50% ao ano.

Nesta terça a ata do Copom deve reforçar a perspectiva de mais cortes da taxa básica aberta pelo tom suave do comunicado na semana passada. E a agenda desta semana ainda trás indicadores quem podem reforçar o ambiente propício a mais estímulos monetários: as vendas no varejo de junho (na quarta-feira) e o IPCA de julho (quinta-feira). No Boletim Focus desta semana, a mediana das projeções para a Selic no fim deste ano caiu de 5,50% para 5,25%, o que implica redução adicional da taxa básica em 0,75 ponto porcentual.

O nervosismo do mercado teve início ainda pela manhã diante do fato de a China ter deixado o dólar romper a marca psicológica dos 7 yuans pela primeira vez desde 2008. No início da tarde, o presidente americano, Donald Trump, rebateu pelo Twitter e acusou China de manipular sua moedas e de práticas comerciais injustas.

No fim da tarde, a China anunciou oficialmente que pode adotar uma “suspensão de novas compras de produtos agrícolas dos EUA por companhias chinesas”. Seria uma resposta do gigante asiático à intenção americana de impor tarifa de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses. Teme-se que a disputa comercial descambe para uma guerra cambial, deprimindo a economia mundial. Não por acaso, houve forte recuo dos preços do petróleo e do minério de ferro.

Em dia de liquidez robusta, DI para janeiro de 2021 subiu de 5,41% para 5,57%. Já o contrato com vencimento em janeiro de 2023 passou de 6,37% para 6,54%. Na ponta longa da curva, em tese mais ligada à percepção de risco, DI para janeiro de 2025 subiu 6,91% para 7,05% – acima de 7% pela primeira vez desde meados de junho.

O estrategista de renda fixa da corretora Coinvalores, Paulo Nepomuceno, observa que o ambiente externo adquiriu um grau de incerteza maior, o que provocou uma tradicional “fuga para a qualidade” e levou a uma alta das curvas de juros de emergentes. “O cenário ficou bastante complexo. Se a china resolver desvalorizar o yuan de verdade, será difícil prever o desfecho da disputa entre Estados Unidos e China para a economia mundial”, afirma Nepomuceno, ressaltando que há outros pontos de tensão, como o Brexit sem acordo e a crise dos petroleiros no Irã.

Em relação aos próximos passos do Copom, Nepomuceno destaca que o ambiente externo faz parte do balanço de riscos e pode “não ser tão benigno” como se esperava. Com as quedas das taxas curtas na semana passada, o mercado parecia inclinado a apostar majoritariamente em corte da Selic em 0,50 ponto em setembro e grandes chances de uma redução adicional de 0,25 ponto em dezembro. “Como tinha caído bastante, as taxas curtas subiram um pouco hoje (segunda). Já as longas ficaram reféns do cenário externo”, afirma.

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