Finanças

Juro baixo destrava ofertas de ações

Volume financeiro em operações iniciais e de aumento de capital por companhias abertas já ultrapassa R$ 60 bilhões neste ano. A perspectiva é encerrar o quarto trimestre com movimentação total superior a R$ 70 bilhões — um recorde

Apesar das incertezas sobre o cenário internacional, que afasta investidores estrangeiros de mercados emergentes como o Brasil, a redução dos juros básicos no País para o menor patamar de sua história deve finalmente empurrar planos de previdência, fundos de investimentos e pessoas físicas dos segmentos private banking e do varejo de alta renda para o mercado de ações. Além da operação recém-realizada da Vivara Participações (R$ 2,3 bilhões), concluída com sucesso em sua estreia na Bolsa de Valores (B3) na quinta-feira 10, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) registra pedidos de mais três ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) no horizonte próximo. As mais prováveis são as emissões do Banco BMG (R$ 1,5 bilhão) e da C&A Modas, e em menor probabilidade, a da Iguá Saneamento, que ainda não fechou um preço com os interessados na companhia. Nesse clima positivo, a Locaweb, empresa de tecnologia da área de hospedagem de sites, também anunciou que pretende fazer seu IPO e estuda a contratação dos bancos coordenadores da oferta. Há também o pedido da oferta secundária pública do Banco do Brasil (R$ 5,75 bilhões), sendo o fundo de investimentos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FI-FGTS) o principal vendedor dos papéis.

Para Rodrigo Franchini, sócio e head de produtos da Monte Bravo Investimentos, vivemos uma euforia no mercado de capitais desde o início do ano. “Antes, as companhias não tinham planos de captar recursos. Agora estamos num momento disruptivo, esse juro baixo veio para ficar e por muito tempo. As empresas perceberam isso e tem a opção de colocar mais sócios no negócio com IPO ou follow-on e se capitalizarem para novos projetos e investimentos, ou também de emitir dívida — debêntures — a custo baixo”, afirma. Na avaliação do sócio e head da mesa de renda variável da All Investimentos, Daniel Meireles, o mercado de capitais doméstico está num bom período para ofertas de ações. “Os juros estão baixos e são esperados cortes adicionais na Selic. Isso fez que o investidor começasse a sair do conforto da renda fixa para outras alternativas. A vertente é positiva para o mercado interno, o que traz oportunidades para abrir o capital ou operações de aumento de capital, e estamos otimistas com a agenda de reformas”, diz.

A inflação oficial aferida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumula alta de apenas 2,89% em doze meses até setembro, o que colabora para o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) continuar baixando a taxa Selic, atualmente em 5,5% ao ano, para novas mínimas históricas até dezembro. Vale lembrar que a meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para este ano é de 4,25%, com intervalo de tolerância entre 2,75% de mínima e 5,75% de máxima, portanto o IPCA acumulado ficou muito próximo do piso da meta. Em outras palavras, menores retornos em aplicações financeiras com juros (Tesouro Selic, CDB DI e fundos DI), e um incentivo para pessoas físicas, fundações e agentes do mercado buscarem melhor rentabilidade, e consecutivamente, mais risco em alternativas como os papéis privados de companhias abertas.

“MUITO DINHEIRO” Nas contas do gestor de investimentos da ParMais, Alexandre Amorim, as ofertas de ações (primárias e secundárias) já ultrapassam o volume de R$ 60 bilhões neste ano até setembro. “Metade disso foi para estrangeiros, outra para investidores domésticos. Com o juro muito baixo na renda fixa, há muito dinheiro indo para ações”, diz. Amorim conta que os investidores institucionais vão migrar uma parte dos recursos para ações e fundos de ações. “Fundos de pensão têm meta atuarial para bater, e a alocação deles em papéis é muito mais baixa hoje, do que era em 2008”, afirma.

Entre os argumentos de especialistas está o fato de que os fundos de previdência possuem um patrimônio de R$ 945 bilhões em títulos públicos federais, sendo 32,2% ou R$ 304,45 bilhões em papéis pós-fixados (Tesouro Selic, a antiga LFT). De acordo com os dados do último boletim da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), até agosto de 2020 ocorre o vencimento de R$ 102,9 bilhões em LFTs, de todo tipo de detentor da dívida pública federal: bancos, fundos, seguradoras, estrangeiros e pessoas físicas (Tesouro Direto). Dito de outra forma, alguma fração bilionária desse volume — que está alocada em títulos do governo a taxas muito baixas — irá para aplicações financeiras em papéis de novas companhias a serem listadas, e também para fundos de ações e carteiras de empresas que pagam “bons” dividendos.

Cautela dos estrangeiros Por outro ângulo, os investidores globais ainda estão temerosos de aportar recursos em ativos de países emergentes num momento com vários sinais de desaceleração da economia mundial. Em nove meses fechados deste ano, o saldo de capital estrangeiro na Bolsa de Valores brasileira (B3) registra saída de R$ 19,915 bilhões até setembro. “O estrangeiro é cauteloso e a guerra comercial entre China e Estados Unidos afeta todo mundo, por isso, está menos animado com o Brasil. Mas para o investidor local, a Selic no atual patamar [5,5% ao ano] o faz caminhar para o risco”, diz o economista e sócio-diretor da Veedha Investimentos, Rodrigo Tonon Marcatti.

Ele lembra que o histórico da bolsa brasileira é de forte participação de capital internacional em ofertas iniciais. “Daqui para frente vamos ver clientes de varejo [alta renda] ganhando espaço. Sempre teve uma perspectiva de algum ganho rápido em IPOs. Há quem entre para ‘flipar’, ou seja, comprar na oferta primária para vender logo depois no mercado de bolsa. Mas esse comportamento também pode ser perigoso, e a pessoa física ficar no prejuízo”, alerta o economista. A recomendação da CVM é a leitura integral do prospecto de cada oferta, em especial, o capítulo sobre fatores de risco.

Numa visão mais ampla, o ex-presidente do BankBoston e atual secretátio da Fazenda do Estado de São Paulo, Henrique Meirelles, diz que a realização de reformas (teto dos gastos, da Previdência Social e a administrativa) reduz a taxa estrutural de juros no País. “O juro baixo favorece o mercado de capitais [ações e dívida corporativa] e abre condições para a recuperação do crescimento”, afirma.

AGENDA liberal O volume expressivo em ofertas secundárias também está relacionado com a necessidade do governo de se desfazer de ativos para frear a expansão da dívida pública. “As operações da BR Distribuidora (R$ 9,63 bilhões); da Caixa Econômica que vendeu suas ações da Petrobras (R$ 7,3 bilhões), e agora, do Banco do Brasil mostram que o governo está aproveitando o bom momento do mercado de capitais para vender ativos”, diz o head da All.

A depender da visão do Secretário Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados, Salim Mattar, muitas participações societárias e ações detidas pelo “Estado empresário” serão vendidas. Ele atualizou dados desse gigantismo: são 637 empresas estatais entre as controladas pela União, suas subsidiárias, coligadas e fatias de simples participação. Segundo o levantamento da equipe econômica, somente a BNDESPar, o braço de investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) possui papéis de 33 companhias de capital aberto e 69 participações societárias em empresas de capital fechado. Na prática, esse volume expressivo de ações e participações em empresas privadas na carteira de estatais federais abre a oportunidade para uma longa série de operações no mercado de capitais, se houver compradores interessados em ativos públicos.