Internacional

Joe Biden, acordos e espionagem

Primeira viagem à Europa do presidente americano era para retomar laços comerciais, mas traz à tona a antiga questão das escutas ilegais de líderes do bloco.

Crédito: Martial Trezzini

NO VELHO CONTINENTE Presidente dos EUA aterrisa no Reino Unido no dia 10 de junho. Sua primeira viagem ao bloco. (Crédito: Martial Trezzini )

Para nós brasileiros, 2012 parece tão distante quanto uma memória de infância. Não havia crise econômica, a classe C emergia e o Brasil ainda era uma promessa mundial. Mas se a gente esqueceu desse passado, na Europa algumas memórias desse tempo seguem vívidas, principalmente as que envolvem acusações de espionagem do governo dos Estados Unidos aos líderes do bloco europeu. No começo de junho, dias antes da primeira viagem do presidente Joe Biden à Europa, a rádio Danmarks Broadcast denunciou que o Serviço de Inteligência e Defesa da Dinamarca colaborava com a National Security Agency (NSA) para espionar o presidente Emmanuel Macron, da França, o agora presidente Franz-Walter Steinmeier, a chanceler Angela Merkel e o político social-democrata Peer Steinbrück, da Alemanha, entre 2012 e 2014. A notícia reacendeu feridas antigas e colocou em risco parte da tentativa de Biden (à época vice-presidente de Barack Obama) de resgatar acordos comerciais perdidos para a China nos últimos anos.

A colaboração entre a agência de inteligência dinamarquesa e a norte-americana surgiu de uma investigação realizada pela Dinamarca em 2015, após uma troca de comando no órgão, e indicou que o trabalho era feito à revelia das autoridades superiores do país. O documento endossa as acusações feitas em 2013 pelo whistleblower Edward Snowden, hoje asilado na Rússia, e revela que a espionagem se deu pelos cabos submarinos que interligam Suécia, Noruega, Alemanha, Holanda e Reino Unido e são de posse da Dinamarca.

Com tais informações levadas a público, a viagem de Biden que começou no dia 10 de junho em Cornwall, no Reino Unido, e terminou no dia 16 na Suíça foi recheada de tensões. O teste inicial foi com o primeiro-ministro inglês Boris Johnson. A dupla já vinha de conflitos recentes pela aproximação do britânico ao ex-presidente Trump. Depois de uma conversa fechada, os dois anunciaram a reedição da Carta do Atlântico, firmada há 80 anos, na qual Frankin Delano Roosevelt e William Churchill estabeleceram um plano para o pós-guerra. Na versão atual, o documento prevê que EUA e Reino Unido retomam o relacionamento especial para o pós-pandemia.

Katherine Smith, professora de relações exteriores da Universidade de Cambridge afirma que a carta tem pouco efeito prático e que a divergência entre os dois ainda são maiores que as paridades. “Ao contrário de Trump, Biden nunca endossou a saída do Reino Unido da União Europeia”, disse. O presidente dos Estados Unidos chegou a dizer que não permitiria que o Brexit enfraquecesse a paz na Irlanda do Norte, assegurada em 1998 pelo Acordo da Sexta-Feira Santa. “Essa é uma das questões mais sensíveis no divórcio entre Reino Unido e União Europeia”, disse Smith. Há ainda pressão no premiê britânico para que não haja falta de produtos no Reino Unido, o que o forçará a fazer novos acordos comerciais. “Mas não necessariamente com os Estados Unidos”, afirmou.

Biden também realizou, no dia 13, um encontro com a Rainha Elizabeth, e a imprensa inglesa afirma que a questão da espionagem teria sido citada pela monarca, mas não há confirmações oficiais.Em Bruxelas nos dias 14 e 15, o presidente dos Estados Unidos deu seu único passo comercial efetivo, já que, segundo ele, houve um “grande avanço” com a diminuição da disputa comercial com a União Europeia (UE) por subsídios para Boeing e Airbus. “Tanto os EUA quanto a UE concordaram em suspender tarifas por cinco anos”, afirmou. Ele acrescentou que houve acordo em em trabalhar juntos para conter as “práticas não mercantis da China”. O tom foi duro. Citaram temas cruciais aos asiáticos: Hong Kong, Taiwan e o tratamento dado a minorias. Pequim reagiu dizendo que a UE deve tomar o pulso de Biden, “porque ele deve estar doente”.

No último dia da viagem, ele se enontrou com o presidente da Rússia, Vladmir Putin, em Genebra. A reunião fechada durou quatro horas. Putin disse, na saída, que “nossas avaliações diferem em muitos aspectos, mas, do meu ponto de vista, ambas as partes demonstraram o desejo de compreender o outro.” Putin também confirmou ter tratado sobre cibersegurança, mas negou que seu governo esteja por trás de ataques hackers contra instituições americanas. O tom utilizado pelo russo deu a entender que ele não está disposto a discutir o tema em profundidade. Com a confirmação do “Deep State” dos EUA, que espionou da ex-presidente Dilma Rousseff à Angela Merkel, uma frase do francês Jean Herauld Gourville poderia permear a tour de Biden. “Que Deus me defenda dos amigos, que dos inimigos me defendo e eu.”