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Isolamento que dá lucro

Por trás da paralisia de parte da economia, há negócios e empresas que aceleram suas vendas e resultados. E as mudanças nos hábitos de consumo impostas pelo distanciamento social criam oportunidades para inovar e crescer.

Crédito: Jussara Martins

"O crescimento de 20% previsto para 2020 será muito maior em razão da pandemia” O crescimento de 20% previsto para 2020 será muito maior em razão da pandemia”O crescimento de 20% previsto para 2020 será muito maior em razão da pandemia”Ari Gorenstein, Cofundador da evino (Crédito: Jussara Martins)

Há quase dois séculos, desde que o frade austríaco Gregor Johann Mendel (1822-1884) documentou seus estudos sobre a mutação genética de plantas e animais, milhares de cientistas, biólogos e geneticistas se dedicam a pesquisar e compreender a complexidade da intensa metamorfose da vida na Terra. Até agora, o consenso é de que a tão temida capacidade de genes, DNAs e cromossomos de se reinventar e lutar pela sobrevivência é a resposta para a longevidade da própria existência. Essa mesma lógica microscópica da adaptação das espécies rege o mundo da economia e dos negócios — fenômeno que, muitas vezes invisível, fica mais evidente na hostilidade do ambiente de pandemia. Nas últimas semanas, enquanto empresários de todos os portes e setores suam frio diante das incertezas geradas pela Covid-19 e da inevitável recessão global, inúmeras atividades têm observado uma explosão de demanda. Atividades como ensino a distância (EAD), telemedicina, delivery de todo tipo, e-commerce de alimentos e bebidas, além de serviços relacionados à saúde estão remando contra a maré das preocupações — e, evidentemente, adaptando-se às novas necessidades dos clientes em um cenário de isolamento social.

Muitos desses negócios são nutridos pelo instinto de sobrevivência. Tanto é que carioca MAG Seguros (antes chamada de Mongeral), empresa bicentenária com faturamento de R$ 1,4 bilhão em 2019, registrou no primeiro trimestre deste ano um crescimento de 17% nas receitas em relação ao mesmo período do ano passado. Para o CEO da companhia, Helder Molina, a expansão vem sendo puxada pela Covid-19. “As pessoas passaram a se preocupar mais em como deixar a família assistida caso aconteça algo pior nesse momento. Pensar na morte está começando a deixar de ser um tabu”, diz Molina. “Dez em cada dez corretores nossos ouve, todos os dias, a mesma pergunta: ‘o seguro cobre coronavírus?’”, afirma o executivo, que destaca uma visível mudança de visão dos consumidores. Pelos cálculos do Banco Mundial e da seguradora Swiss Re Sigma, o segmento de seguros de vida movimenta o equivalente a apenas 0,2% do PIB brasileiro. Nos EUA, o índice é 1,8%. No Reino Unido, 3,5%.

“O uso da tecnologia está em forte crescimento. Com o sinal verde da lei, as pessoas sentem mais confiança nos robôs” Tiago Marin, diretor da Wishbox Technologies. (Crédito:Brayam Dias )

O setor de seguros é um dos que cresce na contramão da maioria das empresas, mas está longe de ser o único. Estudo realizado pela consultoria americana Bain & Company estratificou em quatro faixas como os principais segmentos econômicos enfrentaram as primeiras semanas pós-pandemia em todo o mundo. No topo estão os que tiveram explosão de demanda e que devem manter a alta no longo prazo (além de companhias de seguro, estão planos de saúde, ensino a distância, entretenimento on-line, ferramentas para trabalho remoto, telemedicina e nutrição e saúde); seguido por setores em que a demanda explodiu, mas deve se estabilizar no longo prazo (como alimentação e produtos de limpeza); o que tiveram forte queda na crise, mas podem apresentar pico no pós-quarentena (eletrodomésticos, serviços de beleza e roupas e acessórios), e o que caíram muito e devem ter recuperação lenta (academias, eventos, restaurantes, hotéis e setor de viagens). Em fase final de produção, o recorte brasileiro da pesquisa deve apontar movimento semelhante ao resto do mundo. Na avaliação da sócia da unidade brasileira da Bain & Company, Luciana Batista, o comportamento do brasileiro, no momento, se concentra em consumo de bens essenciais e segmentos na área de tecnologia. “Mesmo com empresas de setores de vestuário, bares e restaurantes terem se adaptado à crise com serviços on-line, vai levar tempo para o digital cobrir as perdas por conta da queda drástica”, diz.

Para o presidente da MAG Seguros, Helder Molina, as pessoas passaram a se preocupar mais com a segurança da família. Pensar na morte está começando a deixar de ser um tabu” (Crédito: Fabricio de Almeida )

O que já se sabe, diante da necessidade de ficar em casa, é que a tecnologia se tornou uma importante aliada da quarentena. Um levantamento realizado pela Catho Educação mostra que houve, entre 21 de março e 6 de abril, um aumento de 68% em matrículas para cursos de ensino a distância (EAD) ou semipresenciais. Ainda de acordo com o levantamento, as primeiras semanas de isolamento já apontaram crescimento. Entre a semana de 3 e 20 de março, a plataforma já havia registrado acréscimo 44% na procura por cursos a distância. Entre as disciplinas mais buscadas estão Administração, Gestão de RH, Biomedicina, Ciências Contábeis e Logística. “Além do baixo custo, em comparação aos modelos tradicionais de ensino, os cursos EAD têm sua metodologia de enfoque maior na prática profissional, ideal para uma aprendizagem à distância”, garante Fernando Gaiofatto, diretor da Catho Educação. “No atual cenário, o ensino pode ser encarado também como oportunidade, não só de qualificação mas também de adaptação às circunstâncias”, afirma. O mesmo levantamento constata que, assim como os trabalhadores, o mercado de trabalho está mais aberto em relação a candidatos com cursos a distância: 79% dos recrutadores participantes da pesquisa disseram que formação EAD ou presencial deixaram de ser critério determinante de avaliação para recrutar profissionais.

“Mesmo com empresas de setores de vestuário, bares e restaurantes se adaptando à crise com serviços on-line, vai levar tempo para o digital cobrir as perdas” Luciana Batista, sócia da Bain & Company. (Crédito:Gladstone Campos)

A escola de idiomas Babbel, que atua 100% na plataforma on-line, detectou aumento de 25% entre a segunda quinzena de março e o começo de abril. Para Vivianne Ianagui, gerente de mercados da Babbel para América Latina e países ibéricos, há potencial para mais crescimento a partir dessa situação de isolamento. “Março foi o mês que registrou maior número de assinaturas desde que a empresa foi criada, há 12 anos. Em comparação ao mesmo mês do ano passado, a alta global foi de 50%”, diz. “E acredito que até o fim do mês o Brasil alcance esse patamar”. Seguindo a companhia, o aplicativo de ensino de idiomas é baixado, em todo mundo, cerca de 120 mil vezes ao dia, o que significa que, desde 2008, já participam por algum curso da empresa mais de 500 milhões de usuários. “Quando ficam em casa, as pessoas buscam o que fazer e há oportunidade de aprender algo. A gente observou esse movimento nesse período de pandemia e o que sempre foi muito forte na Europa e nos Estados Unidos começa a ser percebido no Brasil, que ainda tem uma cultura de ensino mais off-line”, diz a executiva, que é brasileira e atua na Alemanha, sede da empresa. Com faturamento global de € 100 milhões por ano, a Babbel estuda ampliar ainda mais sua presença de mercado no período de quarentena. A empresa lançou cursos gratuitos de um mês para estudantes de Ensino Médio e universitários. Desde o dia 8 deste mês, 1,9 mil pessoas aderiram aos cursos. “Entendemos que essa é uma forma de contribuir com a sociedade nesse período de dificuldade enfrentado por pessoas no mundo todo”, afirma.

ENSINO A DISTÂNCIA Segundo Fernando Gaiofatto, diretor da Catho Educação, houve um aumento de 68% em matrículas para cursos EAD ou semipresenciais. (Crédito:Karime Xavier)

Na esteira da utilização de novas tecnologias no cotidiano dos brasileiros poucos tem se beneficiado tanto quanto o e-commerce. Cálculos da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) apontam que nas últimas duas semanas os supermercados on-line registraram aumento de mais de 180% nas transações. “As principais altas foram contabilizadas nas categorias ‘alimentos e bebidas’ e ‘beleza e saúde’”, afirma Mauricio Salvador, presidente da entidade. Um dos maiores sites de vendas de vinhos pela internet no País, a Evino testemunha o milagre da multiplicação das vendas. A empresa, que diz responder por metade do e-commerce da bebida no Brasil, registrou aumento de 38% nas vendas entre os dias 20 e 27 de março, primeira semana da quarentena registrada pela maioria dos Estados brasileiros. Comparando fevereiro e março deste ano com o mesmo período de 2019, a empresa viu a quantidade de pedidos disparar 72% — a despeito da alta do dólar e das dificuldades logísticas geradas pela restrição de circulação em cidades e rodovias, além da suspensão das atividades de companhias aéreas. Em dois meses, com 1,2 milhão de clientes, a empresa importou 1,3 milhão de garrafas. “Em meio à pandemia, estamos apertando as margens para não repassar ao consumidor final e também renegociando com parceiros e fornecedores, ampliando prazos”, diz o cofundador da Evino, Ari Gorestein. “O crescimento de 20% previsto para 2020 será muito maior em razão da pandemia.”

“Estamos registrando a maior demanda de nossa história com a pandemia” Felipe Burattini, CEO da Dandelin. (Crédito:Divulgação)

Para quem prefere manter a forma por meio de uma alimentação saudável, o isolamento também trouxe mais opções. Uma das principais redes do segmento no País, a Mr. Fit, com 130 unidades em 17 estados, registrou uma alta de 10% nas vendas em abril, segundo a presidente Camila Miglhorini. Com faturamento de R$ 45 milhões, a empresa notou uma migração de clientes de fast food para cardápios mais fitness. “As pessoas, sem poder manter a rotina de exercícios, começaram a se preocupar mais com a alimentação”, diz Camila. “Além disso, pesquisas recentes mostram a importância de se manter saudável para aumentar a imunidade e consequentemente, se defender do vírus.”

Não há como ignorar o gigantesco mercado de consumo que se criou com a pandemia, em paralelo à agonia de diversos outros setores, como bares, restaurantes, hotelaria e turismo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), hoje um terço da população mundial está em quarentena. Isso significa que pelo menos 2,6 bilhões de pessoas no planeta estão dentro de suas casas há pelo menos três semanas (em alguns lugares, já passa de um mês) e precisam, ainda que de forma adaptada, retomar suas rotinas, comprar comida, bebida, remédio, ver televisão e consumir. Do sofá de casa. A comodidade, contudo, gera outro problema: o sedentarismo. A falta de atividades físicas preocupa quem já está assustado com a ameaça do novo coronavírus. E até isso é uma oportunidade de negócio.

IDIOMAS DE GRAÇA Vivianne Ianagui, executiva da Babbel para América Latina, afirma que o número de clientes cresceu 50% no mês passado com o lançamento de cursos gratuitos. (Crédito:Divulgação)

SAÚDE O segmento de planos de saúde está entre os que apontam crescimento no período da pandemia, com possibilidade de manutenção da curva para cima. Diante dessa realidade, muitas empresas estão acelerando os investimentos. Um exemplo disso é operadora Hapvida, companhia com sede em Fortaleza e que tem forte atuação nas regiões Norte e Nordeste. A empresa, que mantém hoje uma carteira de 6 milhões de clientes e faturou R$ 5,6 bilhões no ano passado, aumentou de R$ 30 milhões para R$ 40 milhões seu plano de investimento em modernização e expansão da rede, no ritmo do aumento da procura por planos de saúde. “Temos feito investimentos em call center, chats, telemedicina e compra de respiradores e equipamentos de proteção aos nossos colaboradores”, afirma o diretor-superintendente Bruno Cals de Oliveira. “Temos plano de implementar mais sete hospitais nos próximos três anos”, completa. O presidente da companhia, Jorge Pinheiro, testou positivo para a Covid-19.

STREAMING EM ALTA O tráfego de dados no Brasil, entre 9 e 17 de março, saltou 37%. Na Itália, foi de 76% e, entre os espanhóis, o aumento na procura foi de 85%. (Crédito:Divulgação)

A telemedicina é, indiscutivelmente, uma das frentes mais promissoras do mundo pós-pandemia. Na quinta-feira 16, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei que regulamenta a atividade no País. Ela estabelece que por telemedicina deve ser considerado “o exercício da medicina mediado por tecnologias para fins de assistência, pesquisa, prevenção de doenças e lesões e promoção de saúde”. Segundo o texto, que já está em vigor, os médicos que optarem pelas consultas à distância devem informar os pacientes sobre as limitações da prática.

Antes mesmo da canetada presidencial, o segmento já havia se tornado uma realidade no Brasil. A empresa catarinense Wishbox Technologies, especializada em impressoras 3D e robôs de telepresença, está trazendo, com exclusividade para o País, robôs fabricados pela americana Double Robot, embalado pela disparada das encomendas de grandes hospitais e clínicas médicas em São Paulo. “O uso desta tecnologia está em forte crescimento. Com o sinal verde da lei, as pessoas sentem mais confiança no uso dos robôs, principalmente agora devido à pandemia”, afirma o diretor Tiago Marin. Ele explica que o Double Robot é um robô que se locomove sobre duas rodas e um iPad como cérebro para realizar videoconferência, sendo possível compartilhar a tela com até cinco pessoas. O rosto de quem o controla é transmitido no display, permitindo que os usuários vejam os demais participantes. A autonomia é de oito horas. A rede Notre Dame, o hospital Moinho de Ventos e o Instituto Paulo Niemeyer estão entre os principais clientes.

Outras empresas de tecnologia voltadas à saúde também estão surfando da onda dos novos tempos. A plataforma Conexa Saúde conseguiu nos 31 dias de março o que era esperado para o ano todo em captação de novos clientes, segundo o CEO Guilherme Weigert. “Como a procura foi impressonante, tivemos até que parar de buscar novos clientes. Estamos somente no receptivo”, diz. No mesmo ritmo, a startup BoaConsulta, voltada a consultas médicas a preços populares, superou a marca de 1,5 milhão de pacientes cadastrados. “Com a telemedicina, vamos fechar 2020 com crescimento de 100% no faturamento”, afirma o CEO da empresa, Adriano Fontana. Nos últimos meses, a empresa levantou R$ 15 milhões em investimentos vindos de fundos como Valor Capital Group, 500 Startups, Koolen Partners e Performa Investimentos. Fenômeno semelhante vem passando a plataforma Dandelin, que nos últimos dois meses teve aumento de 200% entre agendamento de consultas e novos cadastros, com faturamento no período equivalente a 71% de 2019. “Estamos registrando a maior demanda de nossa história com a pandemia”, diz o CEO Felipe Burattini.

“Como a procura foi impressonante, tivemos até que parar de buscar novos clientes. Estamos somente no receptivo” Guilherme Weigert, CEO da Conexa Saúde. (Crédito:Divulgação)

ENTRETENIMENTO Nem só de preocupação vive o brasileiro que está em quarentena. Com o inevitável cancelamento de eventos culturais, shows, peças teatrais e cinemas, os serviços de streaming vêm registrando explosão no número de acessos, que vão desde liberação de canais fechados, a sites de filmes e programas, de infantis a adultos. Portal JustWatch, que é um guia que indica onde usuários podem assistir programação on-line, mostrou aumento de tráfego de dados no Brasil, entre 9 e 17 de março, saltou 37%. Na Itália, foi de 76% e, entre os espanhóis, o aumento na procura foi de 85%.

Contra a monotonia do isolamento, milhões de pessoas têm buscado todo tipo de entretenimento na internet. Diversas operadoras de TV por assinatura e plataformas de conteúdo sob demanda começaram a liberar o sinal de alguns canais, a oferecer assinaturas gratuitas e a promover descontos. Na Itália, até mesmo o site pornô Pornhub liberou seus vídeos premium. Embora não queriam associar o sucesso de audiência a uma crise sanitária global, é evidente que a demanda nunca foi tão alta. Tanto é que os órgãos de regulação das telecomunicações da União Europeia, temendo um colapso do tráfego de dados de internet, pediriam à Netflix que reduza a qualidade de resolução dos seus filmes e séries. A empresa americana acatou o pedido por 30 dias. Uma decisão necessária para se adaptar — e sobreviver — em tempos de pandemia.

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