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Irlanda engarrafada

A terra da Guinness e do Bailey's resgata uma de suas bebidas mais tradicionais: o uísque irlandês sai da sombra do scotch e desponta entre os destilados que mais cresceram nos últimos anos.

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Nem ouse tocar no vespeiro. Dizer a um irlandês que o uísque nasceu na Escócia – ou o inverso – beira a ofensa pessoal. A bem da verdade, a expressão uisce beatha, da qual deriva a palavra whisky em inglês – ou whiskey, como se grafa na Irlanda –, significa “água da vida” em gaélico irlandês. Independentemente da origem, o fato é que o uísque produzido na Ilha Esmeralda está em alta. Entre 2010 e 2020, foi a categoria de bebidas espirituosas que mais cresceu no mundo – o número de destilarias irlandesas aumentou de quatro para 38, segundo relatório lançado pelo Ministério das Finanças do país. As vendas globais cresceram de 60 milhões de garrafas em 2010 para 144 milhões em janeiro de 2020.

Dublin já foi a capital mundial do uísque no século 19, quando a produção local representou cerca de 60% do consumo global. O declínio, no século 20, teve o pior momento em 1974, quando apenas duas destilarias mantiveram atividades no país. O renascimento na última década foi impulsionado em parte pelo boom mundial do uísque – scotch, bourbon e japonês – e pelo sucesso de marcas tradicionais, como Midleton, Bushmills, Kilbeggan e a mais recente Cooley, que, juntas, controlam 95% das vendas. Metade corresponde à Jameson, fundada em 1780, líder mundial na produção de uísques irlandeses.

RENASCIMENTO Parte da retomada se deve ao sucesso de marcas tradicionais, como a Bushmills. (Crédito:Divulgação)

O público de apreciadores aficionados é um dos que mais crescem, seduzido pela nova safra de fabricantes independentes de destilados. Uma delas é a Renegade Spirits, proprietária da destilaria Waterford, instalada no Rio Suir, costa sudeste da Irlanda. A empresa desenvolve algumas das experiências mais interessantes do mercado atualmente e reivindica a autoria do primeiro single malt orgânico certificado produzido na Irlanda. Na contramão das gigantes, o fabricante defende o terroir como fator decisivo na qualidade do uísque. Para obter a melhor cevada, adquiriu 97 fazendas irlandesas, orgânicas ou biodinâmicas, onde o cereal é cultivado em 19 tipos de solo. O resultado: a cada lançamento, a produção, limitada, se esgota rapidamente, com preço inicial em torno de US$ 100 a garrafa – alguns deles chegam a ser adquiridos em leilões pelo triplo do preço. Nesse ritmo, a renovação da indústria do uísque na Irlanda passa por outras 30 outras destilarias independentes que, ao retomar a destilação em pequena escala, vêm mantendo a produção ativa no país, cativando consumidores ávidos.

TRIPLAMENTE DESTILADO Com teor alcoólico mínimo de 40%, o uísque irlandês tem como características a suavidade, o dulçor e a destilação tripla (contra a dupla do scotch). A composição de cereais combina em média 50% de cevada maltada, 30% de cevada não maltada, 10% de centeio e 10% de trigo. Boa parte dos irlandeses é maturada em barricas de carvalho americano ou de Jerez – alguns produtores preferem as barricas de primeiro uso, para conferir maior dulçor e complexidade à bebida, como a Jameson, marca facilmente encontrada no mercado brasileiro.