Edição nº 1138 16.09 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Cristina Palmaka, CEO da SAP no Brasil

Investir em tecnologia no setor público precisa ser uma plataforma do País

Marco Ankosqui

Investir em tecnologia no setor público precisa ser uma plataforma do País

Machado da Costa
Edição 08/06/2018 - nº 1073

A executiva Cristina Palmaka está há cinco anos à frente da subsidiária brasileira da desenvolvedora de software alemã SAP. Ela também faz parte do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão do governo Temer. Nesse período, já enfrentou diversas crises no País. Nenhuma delas tão aguda como a greve dos caminhoneiros, que durou 10 dias, provocou desabastecimentos e deixou prejuízos bilionários em diversos setores da economia. Ao comentar esse assunto, Palmaka lembra que a área passará por uma grande transformação nos próximos anos, com o advento dos caminhões sem motoristas, o que já é uma realidade fora do Brasil. “Hoje, o número de caminhões autônomos é maior do que o de carros autônomos”, diz ela. “O mercado está mudando no mundo inteiro. E isso é natural.” Nesta entrevista, Palmaka aborda desde a necessidade de o Brasil investir em tecnologia no setor público até como a inovação pode ajudar no combate a corrupção, um tema que deve ser central na eleição presidencial de outubro. Ela se diz uma pessoa otimista-realista com o futuro do País. “Não dá para ser pessimista. Essa não é a minha primeira crise”. Confira os principais trechos:

DINHEIRO – Qual a visão que a SAP tem do Brasil?

CRISTINA PALMAKA – Completamos 23 anos de Brasil. Quando a SAP chegou aqui, o mercado passou por uma grande transformação. Por isso, o Brasil é uma das subsidiárias mais relevantes, mesmo nos últimos anos, quando não vivemos nossos melhores momentos macroeconômicos. Olhamos para uma perspectiva de longo prazo e entendemos a dinâmica local. Isso nos ajuda a saber quais os produtos são adequados do ponto de vista tributário e regulatório.

DINHEIRO – São produtos para enfrentar as “jabuticabas” locais?

PALMAKA – Se o Brasil quer passar para outro patamar de competitividade, precisa resolver a questão legal e tributária. Dentre os locais onde a SAP atua, o Brasil é País mais complexo nesse aspecto. Isso afeta diretamente os nossos clientes e a nossa operação também. Temos de investir uma grande quantidade de horas em desenvolvimento dos produtos adequados à legislação brasileira.

DINHEIRO – Mas isso, de alguma forma, cria um mercado para vocês, certo?

PALMAKA – Essa não é a parte que mais nos interessa. Os investimentos que nossos clientes poderiam fazer em inovação se perdem. Temos serviços em internet das coisas, inteligência artificial e outras áreas que são mais interessantes. Os clientes precisam investir na digitalização para serem mais competitivos e não gastar com ferramentas tributárias que não agregam valor. No fim do dia, é o consumidor final que importa. Queremos focar nisso. Levar a tecnologia como um fator facilitador de desenvolvimento.

DINHEIRO – A senhora se refere, inclusive, ao desenvolvimento social?

PALMAKA – Sim. Primeiramente nas indústrias e, depois, na mão de obra. As empresas devem ser competitivas, assim como os profissionais. Como sair do analfabetismo digital? Diversos países olham para a digitalização como esse fator habilitador. Poderíamos observar dessa forma para dar um salto de desenvolvimento.

DINHEIRO – Por que o governo é tão lento em adotar novas tecnologias?

PALMAKA – Penso que existem muitos profissionais competentes no governo. Há grupos técnicos com grande conhecimento sobre o que é preciso ser feito em relação à transparência, à governança, à gestão de dados, entre outras coisas. São profissionais que conhecem as necessidades. Mas é preciso priorizar os investimentos. Onde o governo deve investir? É claro que, no médio e no longo prazo, a tecnologia traz benefícios muito grandes. Investir em tecnologia no setor público precisa ser uma plataforma do País. É uma questão de agenda.

DINHEIRO – Em que situação o Brasil está em relação à Indústria 4.0?

PALMAKA – Ainda estamos na fase de protótipos. Na Alemanha, por exemplo, o ciclo iniciou-se há 10 anos. Claro, todos os países estão em um processo inicial, mas, lá fora, já há projetos operacionais. Mas creio que dá para recuperar o tempo perdido. O próprio agronegócio mostra que podemos ter uma indústria competitiva. Só temos de ser rápidos. Não podemos esperar mais cinco anos. Temos de promover a consciência dos empresários e o governo tem um papel fundamental. Falta também um ambiente estável, senão as companhias ficam mais conservadoras e deixam de investir.

“Hoje, o número de caminhões autônomos é maior do que o de carros autônomos. O mercado está mudando no mundo inteiro. E isso é natural”Projeto de caminhão autônomo da Uber (Crédito:Divulgação)

DINHEIRO – O que é preciso fazer para impulsionar o crescimento?

PALMAKA – Certamente passa pelas reformas estruturais. Elas são um fator fundamental para arrumar a casa. A preocupação é o tempo que temos até o fim do ano. Agora, vamos entrar em um período eleitoral no qual é difícil colocar em discussão essas questões. Mas temos de pensar em uma transição e as agendas dos governos precisam ser rebalanceadas. Por exemplo, como tornar a parte tributária mais simples? Temos um dado que mostra que as companhias que estão no Brasil representam, em média, entre 3% e 5% do faturamento de suas matrizes. Mas o gasto com contencioso chega a 60%.

DINHEIRO – A senhora está otimista ou pessimista?

PALMAKA – Sou uma pessoa otimista-realista. Não dá para ser pessimista. Essa não é a minha primeira crise. Temos uma janela de oportunidade importante. Mas, como disse, não estamos muito para trás, o que precisamos é acelerar. Há coisas básicas que podem ser feitas para gerar resultados daqui para frente. Não é preciso nem ser tão criativo. Basta tomar as decisões corretas. A maioria dos empresários que encontro também está com essa mentalidade. Várias outras nações estão à frente. Também temos competência e tecnologia. Mas não dá para desconsiderar as reformas estruturais e a capacitação dos profissionais.

DINHEIRO – A tecnologia pode ajudar no combate à corrupção?

PALMAKA – A tecnologia é um dos caminhos, mas é só um habilitador. Quando alguém quer fazer uma coisa errada, consegue achar caminhos diferentes. A tecnologia ajuda a ter processos menos violáveis, mas não é soberana. Às vezes, não nos damos conta de que o momento pelo qual estamos passando estará nos livros de história dos nossos netos. Estamos dando passos emblemáticos no Brasil. Precisamos mudar nossa mentalidade e ver que a corrupção também está nas pequenas coisas. A geração que está chegando agora está aceitando menos isso.

DINHEIRO – Muito se fala de como a tecnologia blockchain pode limitar fraudes e dar transparência aos processos. A senhora concorda que essa tecnologia pode ajudar a resolver esses problemas?

PALMAKA – O blockchain vai despedaçar grande parte da corrupção. Todo lugar que é muito burocrático abre caminhos para que alguém venda a agilidade. Então, é preciso tornar os processos eficientes para matar na raiz essa venda de facilidades. Nisso, a tecnologia tem um papel fundamental.

DINHEIRO – Vivemos um problema enorme causado pela manifestação dos caminhoneiros. E muitas das pautas pediam a reversão de políticas tidas como liberais. Como a senhora vê essa situação?

PALMAKA – Sempre que o País tiver um ambiente aberto e competitivo, conseguirá melhores resultados. Quando um empresário se confronta o dia inteiro com a concorrência, ele colhe benefícios. O mercado aberto normalmente traz eficiência no contexto geral. Como cultura, sabemos que é preciso ter concorrência leal e justa.

“Se o Brasil quer passar para outro patamar de competitividade, precisa resolver a questão legal e tributária”Brasil já arrecadou mais de R$ 1 trilhão em impostos até o começo de junho deste ano (Crédito:Uriel Punk)

DINHEIRO – Os caminhoneiros que protestaram contra o preço do combustível, podem, no futuro, protestar contra a tecnologia de caminhões autônomos. Há solução?

PALMAKA – Hoje, o número de caminhões autônomos é maior do que o de carros. Já existem, inclusive, navios autônomos na Europa. O mercado está mudando no mundo inteiro. E isso é natural. No passado, as pessoas manejavam carroças. E ninguém perguntou para elas sobre como devíamos evoluir. Mesmo por aqui, temos muitos tratores autônomos, por exemplo. Pense no impacto sobre o mercado de trabalho. Isso vai acontecer no Brasil e em todos os lugares do mundo. A preocupação é o que fazer para requalificar esse profissional.

DINHEIRO – E quanto às novas gerações de profissionais? Eles estão preparados?

PALMAKA – A próxima geração está se preparando de alguma forma. Em vez de dirigir um caminhão, os jovens estão pensando em como gerenciar uma frota. O transporte vai continuar, mas os impactos sobre o setor serão enormes. Precisamos entender que, em um mundo disruptivo, no futuro, o caminhão não vai competir com o trem, mas sim com uma impressora 3D, que já imprime até chocolate. A competição vem de lugares em que estamos aprendendo ainda. Essa é a beleza do momento da transformação.

DINHEIRO – Outra polêmica do setor é a questão da privacidade de dados, algo relevante para a SAP. E, no fim de março, passou a vigorar, na Europa, o GDPR (General Data Protection Regulation), uma das legislações mais restritivas do mundo sobre esse tema. Qual o impacto sobre a SAP?

PALMAKA – Fomos uma das primeiras companhias no mundo a ser certificada no GDPR. A Europa é muito conservadora sobre a discussão sobre a quem pertencem os dados. Os americanos são mais flexíveis. Sou membro do Conselhão (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). Lá, discutimos como vamos nos portar. Seremos mais conservadores ou liberais? Sabemos que armazenar dados na nuvem é seguro. Então, a discussão é sobre a confidencialidade, quando posso e quando não posso usar e se podemos fazer os cruzamentos de dados, sem expor a privacidade. Não há nada de errado nisso. Aqui, fizemos uma análise preditiva para o plantio de eucalipto para a Fibria. Eles tinham uma montanha de dados, com mais de 650 variáveis. Fina-lizamos esse projeto há dois anos. Fizeram isso para ganhar produtividade no médio e no longo prazo. E vamos ver cada vez mais empresas utilizando esse tipo de serviço, baseado em algoritmos.



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