De todas as heranças econômicas que o atual presidente vai deixar para o País em 2022, uma das mais nocivas será a corrosão do poder de compra dos trabalhadores, principalmente o dos mais pobres. A inflação está fora de controle. Os itens de consumo essencial, desde alimentos até combustíveis, nunca estiveram tão caros. O downgrade da população nas compras de supermercado é uma realidade em todas as partes do País. Acém tem dado lugar a miúdos de frango. Até a carne de porco, historicamente a mais acessível das proteínas, tem sido substituída por pé de galinha ou mesmo batata.

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A razão é mais do que clara. Com a inflação, o filho zero-cinco de Bolsonaro (com perdão à pequena Laura, de 10 anos, quinta rebenta do clã nascida após uma “fraquejada” do senhor Jair Messias), o brasileiro está comprando menos e gastando mais. A tendência está bem definida nos números. Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que, no mês passado, as vendas do varejo no País, em volume, caíram 1,7% na comparação com os 30 dias anteriores, uma retração intensa e que surpreendeu boa parte dos economistas.

Outro estudo da consultoria global Kantar, feita com base nos hábitos de consumo de 11 mil domicílios, mostra que, de janeiro a junho deste ano, o volume de unidades compradas de uma cesta de 107 categorias foi 4,4% menor em relação a igual período de 2020. Mas o gasto subiu 6,9%, puxado pelo aumento médio de 11,8% dos preços desses produtos. No curto prazo, do primeiro para o segundo trimestre deste ano, as commodities, com alta de 16%, e os perecíveis, com 15%, estiveram no topo das cestas com os maiores aumentos de preços.

O plano de contingenciamento da crise da inflação agravada pelo governo está em curso no Banco Central, puxando o Brasil a um retrocesso histórico. Após o Comitê de Política Monetária elevar pela quinta vez a taxa Selic, para 6,25%, o time do BC já considera empurrá-la a 8,5% até o começo de 2022, num cenário de estabilização dos preços. A resiliência da inflação não dá espaço para muitas outras manobras, embora a pressão sobre os preços não tenha origem no consumo aquecido. Ao contrário, tem origem no dólar e na escassez de oferta. É o que o BC pode fazer. Infelizmente, vai levar tempo para os preços se estabilizarem. O cenário não deve melhorar neste ano e nem em 2022, último ano de gestão do governo e sua trupe de “notáveis”. Mais perigosa do que os quadrilheiros da rachadinha, dos fritadores de hambúrguer nos EUA ou do pegador de vizinhas no condomínio da Barra da Tijuca, a herança maldita da inflação será um desafio para o próximo presidente, que terá de conviver por algum tempo – até que seja neutralizado – com o pior e mais silencioso dos filhos de Bolsonaro.