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Inflação e apagão

Crédito: Wallace Martins

É inegável que as ameaças golpistas de Bolsonaro foram a causa da convulsão nos mercados na primeira semana de setembro. O dólar disparou e o Ibovespa caiu quase 4% em um dia, fato inédito neste ano desde março, quando o STF anulou as condenações do ex-presidente Lula. O cenário pareceu voltar à normalidade com os jogos de cena coordenados por outro ex, Michel Temer. Mas nada do que foi combinado entre ele e atual mandatário na tentativa de acalmar os ânimos entre os Três Poderes parece ser capaz de deter o avanço de outro índice que preocupa: o da inflação. Na segunda-feira (13), o Boletim Focus, elaborado pelo Banco Central a partir de estimativas de cerca de 100 entidades do mercado financeiro, elevou para 8% a previsão para este ano do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O patamar é assustador por duas razões. A primeira é sua distância para o centro da meta, definida pelo Conselho Monetário Nacional em 3,75%. Como o intervalo de tolerância é de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo, o limite superior seria 5,25%. E nada indica que haja ferramentas para forçar um recuo dos preços de forma a acomodar a inflação em algo mais próximo da meta. A segunda razão para temer o descontrole inflacionário, contudo, transcende a própria capacidade do governo em adotar medidas que limitem a alta de preços — entre elas a alta dos juros, já posta em marcha. O dragão voltou a chispar por outro tipo de flagelo bem conhecido dos brasileiros: a seca. Sem chuvas, sobem os custos de produção de alimentos e de energia elétrica, com alto impacto no custo de vida. A escassez hídrica já obrigou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a adotar uma nova bandeira tarifária, elevando para R$ 14,20 a taxa adicional sobre cada 100 kWh consumidos. É mais que o dobro do que se pagava até junho, quando a bandeira vermelha fixava em R$ 6,24 o valor adicional por 100 kWh. A alta na conta de luz se deve ao acionamento de termoelétricas para compensar o baixo nível dos reservatórios devido à falta de chuvas e a consequente queda na geração via hidrelétricas. E no meio dessa crise hídrica, em vez de incentivar investimentos em fontes de energia mais sustentáveis e baratas, como é o caso das eólicas e das fotovoltaicas, nossos congressistas fizeram o favor de privilegiar as termoelétricas ao aprovar o modelo de privatização do sistema Eletrobras. A mudança pode anular a desejada redução da conta de luz que decorreria da futura gestão privada da estatal. É certo que as tarifas irão subir, pressionando ainda mais a inflação. Para piorar, persiste o risco de racionamento de água e de energia, sem que se descarte um apagão. Com tantos obstáculos para o crescimento, é compreensível o pessimismo do mercado, que revisou para menos de 1% a alta do PIB de 2022. Isso se o Messias não atrapalhar ainda mais. O apagão na economia não é culpa da estiagem e sim da irracionalidae do presidente e de sua equipe.

Celso Masson, diretor de núcleo