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Indústria da morte

Liberdade dos americanos para comprar armas puxa o gatilho dos massacres de inocentes nos Estados Unidos. O mercado da bala atrai até turistas

Crédito: David Becker/Getty Images/AFP

Terror: pessoas se protegem dos tiros durante o massacre. O tiroteio durou nove minutos e matou 59 pessoas (Crédito: David Becker/Getty Images/AFP)

Para quem desembarca no aeroporto de Las Vegas, o Mandalay Bay é o primeiro hotel e cassino da The Strip, a larga avenida que concentra as melhores atrações da cidade. Chegando pelo lado oposto, o visitante pode se servir de um sistema gratuito de monotrilhos, que conecta o Mandalay ao complexo que reúne os hotéis New York, New York e Excalibur, passando pelo faraônico Luxor. Transitar por entre os cassinos e hotéis faz parte da experiência de Vegas. A passagem é livre. Até os mais luxuosos, como o Wynn, e icônicos, caso do Bellagio, oferecem as portas abertas – e manobristas, ao custo da gorjeta. A cidade, uma das poucas dos Estados Unidos onde é permitido consumir bebidas alcoólicas na rua e maconha em áreas abertas, transpira liberdade.

Loucura: não se sabe o que levou Stephen Paddock a realizar o maior atentado da história dos EUA (Crédito:Reprodução)

Há quem abuse dessa liberdade. O aposentado Stephen Paddock carregou para seu quarto, no 32° andar do Mandalay, um total de 17 pistolas e rifles, 12 deles semiautomáticos transformados em automáticos graças a um acessório vendido livremente. No domingo, dia 1°, Paddock quebrou duas janelas – elas não abrem – e começou a atirar contra uma multidão de 20 mil pessoas, que assistia a um show. Matou 59 pessoas e feriu mais de 500, antes de tirar a própria vida, quando a Swat, o esquadrão de elite da polícia, se preparava para invadir o recinto. Foi o pior assassinato em massa da história dos Estados Unidos. Aos olhos do mundo inteiro, é uma insensatez que um cidadão seja capaz de reunir tamanho arsenal.

Paddock, diga-se de passagem, tinha muitas outras armas em casa. Na maior economia do mundo, porém, seu crime só começou quando ele apertou o gatilho. O aposentado comprou todas essas armas legalmente. Sem antecedentes criminais, sua conduta não disparou alarme algum. Enquanto estruturava sua matança, Paddock gozou de total liberdade para se equipar e mover seu pequeno exército de um homem só pelas ruas do Estado de Nevada, onde fica Las Vegas. Como residente, ele poderia portar abertamente qualquer uma de suas armas, inclusive dentro dos cassinos.
Essa insensatez, ou insanidade, provoca mais mortes por armas de fogo em casa do que nas guerras (confira o infográfico ao final da reportagem). E está longe de mudar.

Bang, bang!: o jovem Andrew Josequera, de 11 anos, se prepara para usar uma pistola em um clube de tiro de Los Angeles (Crédito:Lucy Nicholson / Reuters)

Os Estados Unidos se consolidaram como um paraíso para os malucos por armas, ou gun nuts, como são conhecidos os amantes da cultura bélica. Mais do que um direito, a liberdade de possuir e portar armamentos se tornou uma ideologia, uma bandeira que carrega valores emaranhados com a própria identidade americana. Propor um controle maior sobre o comércio desses instrumentos de violência é considerado, por parte da sociedade, uma ofensa. “Não é o momento de falar sobre isso”, afirmou o presidente Donald Trump, ao visitar Las Vegas, horas depois do massacre, respondendo a uma pergunta sobre a legislação armamentista. “Vamos falar sobre legislação de armas à medida que o tempo passe. O que aconteceu em Vegas é, de várias formas, um milagre. A polícia fez um ótimo trabalho”, disse Trump, se referindo ao fato de que mais pessoas poderiam ter morrido.

A blindagem contra qualquer tentativa de barrar a venda de armas se deve ao fato de que a indústria bélica se tornou uma eficiente força política nos EUA. Isso graças a uma única entidade, que atende pelo nome de National Rifle Association (NRA). “Indiscutivelmente, a NRA é uma das organizações lobistas mais fortes do país, com enormes recursos e uma efetiva base de apoio”, afirma Robert Muggah, diretor de pesquisas do Instituto Igarapé, dedicado ao estudo da violência, e um dos maiores especialistas no assunto, no mundo. “Ironicamente, toda vez que há um massacre, aumenta o suporte financeiro à entidade, uma vez que seus membros temem que o direito de comprar armas esteja sob risco.”

Ironia: o pesquisador Robert Muggah diz que esse tipo de massacre, ironicamente, aumenta o apoio financeiro à NRA (Crédito:Reprodução)

A NRA levantou US$ 433 milhões, no ano passado, o equivalente a R$ 1,3 bilhão. Dos principais fabricantes de armas, como Beretta, Browning, Smith & Weston, Remington e Ruger, a entidade arrecadou estimados US$ 171 milhões. Entre seus apoiadores está a brasileira Taurus – segundo o site da empresa, quem compra uma pistola ou rifle da marca está elegível a um ano de afiliação à NRA sem custo, o equivalente a uma economia de US$ 35. Procurada, a Taurus não respondeu à reportagem. Essas afiliações já somam mais de cinco milhões de pessoas, o que garantiu uma receita de US$ 165 milhões à entidade, no ano passado. O restante do dinheiro vem de programas conduzidos com grupos de tiros, entre outras atividades. Não por acaso, o principal executivo da NRA, Wayne LaPierre, recebe cerca de US$ 1 milhão por ano de salário.

A entidade contribuiu com US$ 30 milhões para a campanha de Trump. Em fevereiro, o Senado revogou uma lei que proibia pessoas com problemas mentais de comprarem armas. Trump assinou embaixo. Apesar da sua força estupenda, a indústria por trás da NRA não está entre as maiores dos EUA. O faturamento das fabricantes de armas e munições americanas foi de US$ 13 bilhões no ano passado. Nos últimos cinco anos, esse mercado acumulou uma queda de 1% em receita, segundo a empresa de pesquisas IBISWorld. Por outro lado, a cultura bélica vem estendendo seus tentáculos para além do varejo armamentista. Na última década, a indústria do turismo foi uma das que descobriu o poder das armas. Palco do maior massacre a tiros do país, Las Vegas é, também, o maior expoente das “excursões de metralhadoras”.

Política: Donald Trump cumprimenta Wayne LaPierre, CEO da NRA, que doou US$ 30 milhões para sua campanha (Crédito:AFP Photo / Jim Watson)

TURISMO BÉLICO No dia seguinte ao massacre, as portas do The Vegas Machine Gun Experience abriram normalmente. O empreendimento oferece a chance de “puxar o gatilho das mais lendárias metralhadoras” e “detonar” alvos em tamanho natural. Na Bullets and Burgers (literalmente, balas e hambúrgueres), clientes a partir dos 12 anos podem atirar com as “armas reais usadas nos filmes de Hollywood, incluindo Jumanji e Rambo II”. Já a Machine Gun Vegas oferece “a verdadeira sensação de limpar uma sala com apenas um aperto no gatilho”. Genghis Cohen, um dos sócios da empresa, disse ao jornal USA Today que seus clientes são, primariamente, turistas, sendo que entre 85% a 90% vêm de outros países.

Recentemente, a China entrou para o rol dos maiores consumidores desse turismo. Na Flórida, estima-se que dezenas de milhares de chineses frequentem os diversos estandes de tiro do Estado, incluindo o Machine Gun America, considerado o primeiro parque temático de armas de Orlando, localizado na cidade de Kissimmee, a mesma que abriga o Walt Disney World Resort. Em DeSoto, a cerca de duas horas de Kissimmee, o entusiasta de origem chinesa Dickson Wong espera inaugurar, em 2019, um clube de tiro especializado em atrair seus compatriotas. Ele estima receber cinco mil turistas chineses por ano.

Estande de tiro: Stephen Paddock quebrou duas janelas de seu quarto, no 32° andar do hotel Mandalay Bay, e atirou contra a multidão (Crédito:AFP Photo / Mark Ralston)

Agora, nem mesmo a NRA foi capaz de defender a venda de um acessório que transforma um rifle semiautomático, que dispara uma bala por vez, em um automático, que funciona como uma metralhadora. Em nota oficial, a entidade pediu mais regulação contra a venda do equipamento. A venda de armas totalmente automáticas, por sinal, é uma das poucas limitações ao comércio bélico nos EUA. Na quinta-feira 5, o congresso americano trabalhava na redação de uma lei bipartidária proibindo a venda desses dispositivos, conhecidos como bump stock.

Trata-se de uma rara movimentação conjunta de Republicanos (a favor das armas) e Democratas (contra) em relação a leis armamentistas. “Armas automáticas são proibidas há muitos anos”, afirmou o republicano Paul Ryan, presidente da Câmara. “Esses dispositivos parecem ser uma forma de burlar a lei, então, obviamente, devemos olhar para a questão.” É verdade que, para a NRA, armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas. Mas é conveniente não facilitar tanto o trabalho de malucos como Stephen Paddock.