Agronegócio

Índia e crise ucraniana impulsionam exportação de óleo de soja do Brasil a recordes

Índia e crise ucraniana impulsionam exportação de óleo de soja do Brasil a recordes

Colheita de soja



Por Roberto Samora e Nayara Figueiredo

SÃO PAULO (Reuters) – A exportação de óleo de soja do Brasil deverá dar um salto em 2022, com uma demanda recorde da Índia, que é o maior importador global mas enfrenta problemas de fornecimento relacionados ao óleo de girassol vindo de Ucrânia e Rússia, além da escassez do produto de palma na Indonésia, de acordo com especialistas e dados do governo.

E com essa demanda externa adicional sustentando o processamento de soja, as exportações do grão in natura brasileiro –que tem a China como principal comprador — deverão ser pressionadas, segundo o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e analistas do setor.

André Nassar, da Abiove, acredita em processamento maior que o esperado, por margens relativamente boas para óleo e farelo, o que reduzirá mais a oferta do grão para exportação, já severamente atingida pela quebra de safra devido à seca, que afetou também Argentina e Paraguai.



“Eu acho, é minha opinião, acho que vamos exportar menos soja,” afirmou o executivo da Abiove, citando a consequência de um esmagamento forte.

“Este ano vai nos surpreender positivamente a exportação de óleo e farelo de soja”, destacou ele à Reuters, observando que os embarques totais de óleo do Brasil podem superar um recorde, ficando acima das estimadas 1,7 milhão de toneladas.

Entre os fatores citados do lado da demanda está a maior procura da Índia por óleo de soja no início de 2022, movimento acentuado pela crise da Ucrânia, grande exportador de óleo de girassol, conjuntura que leva os indianos a buscar fornecedores alternativos.


“A índia está muito ativa, pode ser até mais (do que 1,7 milhão de toneladas de óleo), seria um grande recorde, e o mercado de farelo está bom também”, afirmou Nassar.

As exportações brasileiras de óleo de soja em janeiro somaram 170,3 mil toneladas, ante apenas 8,5 mil no mesmo período do ano passado, com a Índia comprando quase 140 mil toneladas, maior volume em pelo menos 20 anos, segundo dados do governo. Só no primeiro mês do ano, esses embarques ao país asiático somaram mais de 20% dos volumes de todo o ano passado para o destino.

“A Índia este ano está no mercado, foi para Argentina, nos Estados Unidos, veio para o Brasil, estão falando com todo mundo. Porque primeiro tem a coisa da Ucrânia, expressivo fornecedor de óleo de girassol, e tem a questão da Indonésia, estão consumindo muito óleo internamente”, disse Nassar.

Segundo ele, a Índia quer aumentar a participação do óleo de soja na matriz de consumo, porque está se sentindo “insegura” com a oferta de óleo de palma da Indonésia e agora com o óleo de girassol, da Ucrânia e Rússia.

MENOR EXPORTAÇÃO DE SOJA

Do lado da oferta, um dos fatores que também beneficiam o Brasil é a quebra da safra de soja na Argentina, maior exportador global de óleo e farelo de soja. No Paraguai, as “indústrias estão paradas” pela escassez da matéria-prima, comentou Nassar.

Apesar de acreditar em um forte processamento de soja no Brasil, Nassar comentou que alguns players ainda têm dúvidas sobre quem ganhará a quebra de braço: o esmagamento ou a exportação do grão.

Pelos números do balanço de oferta e demanda da Abiove, atualizados pela última vez ao final de janeiro, a exportação de soja em grão do Brasil ainda seria recorde, de 86,9 milhões de toneladas, mas isso considerando uma safra de 135,8 milhões de toneladas, o que deve ser revisto.

Durante a entrevista à Reuters, Nassar chegou a citar a possibilidade de uma safra de 125 milhões de toneladas, número próximo do estimado por consultorias privadas após as últimas contabilizações das perdas na colheita em andamento.

A seca ocorrida no Sul do Brasil levou a consultoria Céleres a reduzir sua projeção para a safra nacional 2021/22 de soja, de 145 milhões de toneladas estimados no início da temporada para os atuais 126 milhões.

O corte impactou diretamente a previsão de exportações do grão, que caiu de 96 milhões de toneladas para 78 milhões, disse à Reuters o analista da Céleres Enilson Nogueira.

“Nossa previsão de oferta caiu 19 milhões de toneladas. Do lado da demanda, a projeção para embarques diminuiu 18 milhões, enquanto a expectativa de processamento caiu apenas 1 milhão de toneladas”, disse ele, citando que o esmagamento deve atingir 47 milhões de toneladas neste ano.

Em temporada de quebra de safra, como a que está sendo colhida agora no Brasil, a tendência é que o grão fique no país, disse o especialista. Ele explicou que as tradings, na ausência de oferta para fechar lotes nos navios, podem buscar o produto em outras origens, deixando mais grãos no mercado local.

PROCESSADORES E MARGENS

A Abiove, que deverá ter novos números em março com base nas avaliações dos associados, apontou em sua última projeção processamento de 48 milhões de toneladas, o que ainda seria um recorde, e exportações de farelo e óleo avançando para 18,3 milhões e 1,7 milhão de toneladas, respectivamente.

“Acho que vai ser mais alto este número, temos levantado informações… mas temos chance de aumentar”, disse Nassar.

No ano passado, o esmagamento foi de 47 milhões de toneladas, enquanto as exportações de farelo e óleo foram de respectivos 17,2 milhões e 1,65 milhão, conforme dados da entidade.

Nassar admitiu que as margens já não estão tão boas como estavam, após a disparada do preço do grão. Mas ele avalia que, se houver liquidez para óleo e farelo, elas se equilibrariam.

Na mesma linha, o analista da Céleres disse que a participação do óleo na margem do esmagador se tornou relevante, antes pela destinação como matéria-prima do biodiesel e agora devido à exportação do óleo em si.

“O funcionamento da demanda fez com que os preços do óleo de soja subissem no mercado internacional. Agora, o tema do biodiesel está menor do que em anos anteriores no mercado interno, mas a demanda externa está elevada”, afirmou Nogueira.

Na quinta-feira, os futuros do óleo de soja cotados na bolsa de Chicago atingiram uma máxima de 74,72 centavos de dólar por libra-peso, com preocupações sobre o fornecimento global de óleo vegetal em meio ao conflito na principal região produtora de óleo de girassol.

“No caso de ruptura na cadeia logística do óleo de girassol, outros óleos devem ver sua demanda reforçada (com destaque para os de soja, palma e canola), num momento em que o balanço mundial de óleos vegetais não está folgado, com a demanda forte e problemas pelo lado da oferta”, disse a StoneX em relatório.

Além da Índia, o Brasil também exporta grandes volumes de óleo de soja para a China, que comprou 427,3 mil toneladas do produto brasileiro em 2021.

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