Entrevista

Maurício Rodrigues, presidente da Bayer Crop Science na América Latina

Inclusão e diversidade são pilares estratégicos para desenvolver soluções criativas e superar desafios

Reinaldo Canato

Inclusão e diversidade são pilares estratégicos para desenvolver soluções criativas e superar desafios

Ele é dos poucos executivos negros a ocupar cargo de presidência em uma multinacional. Tem atuado para promover a equidade racial e de gênero. E vê boas oportunidades para o Brasil no mercado de créditos de carbono.

Romualdo Venâncio
Edição 17/12/2021 - nº 1253

Quando as manifestações do movimento Black Lives Matter tomaram conta do noticiário mundial, as discussões sobre racismo, diversidade e inclusão ganharam importância nas empresas. Os holofotes alcançaram lideranças que já alinhavam esse discurso com ações.

É o caso de Maurício Rodrigues, que em junho deste ano assumiu a presidência da Bayer Crop Science (divisão agrícola da companhia) na América Latina. À época dos protestos, ainda diretor de finanças da empresa, foi convidado várias vezes a falar sobre como a empresa lida com essa questão.

Primeiro, por ser um dos pouquíssimos altos executivos negros no Brasil e o patrocinador do BayAfro, projeto que facilita a entrada, a manutenção e o desenvolvimento de pessoas negras na companhia. À frente de uma divisão que faturou 4,5 bilhões de euros (quase R$ 29 bilhões) em 2020 e liderando cerca de 5 mil pessoas na América Latina (90% delas no Brasil), Rodrigues falou à DINHEIRO sobre esse tema e sobre como as inovações tecnológicas desenvolvidas pela empresa têm contribuído para uma produção agrícola mais eficiente e sustentável.

DINHEIRO – Sua participação em eventos sobre diversidade e inclusão é intensa. Como vê o crescimento do interesse por esse tema dentro das empresas e do agronegócio?
MAURÍCIO RODRIGUES – Ainda há um longo caminho, mas temos tido avanços importantes. Inclusão e diversidade são pilares estratégicos fundamentais para desenvolver soluções criativas e superar desafios.

Como isso se dá na Bayer?
O respeito à individualidade é um dos norteadores da empresa, que possui iniciativas inclusivas e ações práticas, com foco nos grupos minoritários, para aumentar a participação desses colaboradores em todos os níveis hierárquicos. Nossos esforços nesse campo, porém, não se limitam ao público interno. Já temos ações que incluem, por exemplo, a capacitação de fornecedores e parceiros.

Quais os resultados do BayAfro e como fica sua participação no programa como presidente da Bayer Crop Science para América Latina?
Continuo sendo sponsor do grupo, mas também sigo apoiando e envolvido em outras temáticas dentro da diversidade: de gênero, LGBTQIA+, diversidade de gerações, de pessoas com deficiência etc. Ao longo dos últimos anos, temos trabalhado os vieses inconscientes, ainda não necessariamente de forma equânime, em toda a região. Precisamos avançar além do compromisso (que era necessário), e acelerar ainda mais as ações. Como membro do comitê que define as ações de diversidade da Bayer, prevejo, nos próximos três anos, ações ainda mais robustas para movermos os porcentuais referentes à presença de todos esses grupos na companhia.

“Há um potencial amplo a ser trabalhado na frente de agricultura digital. Big data e inteligência artificial abrem um horizonte para que produtores possam integrar as melhores soluções” (Crédito:AndreyPopov)

O programa é realizado nos demais países da América Latina em que a empresa atua?
O BayAfro, com esse nome, existe apenas no Brasil. Mas a diversidade como um todo é um tema prioritário para a Bayer no mundo inteiro. Contudo, nem todos os países atuam da mesma forma, endereçando os mesmos desafios com a mesma intensidade. Cada país tem suas prioridades e está em um momento dessa jornada. Nos Estados Unidos, por exemplo, a temática racial é também muito bem estruturada. Considerando a América Latina, temos priorizado todos os temas que nos levem a uma realidade mais diversa e inclusiva, não apenas a equidade racial.

E em termos mundiais?
Globalmente, quando o assunto é equidade de gênero, o primeiro compromisso da Bayer é para, até 2025, estabelecer um equilíbrio de gênero 50/50 ao longo de toda baixa e média liderança ­— atualmente com 60% de homens. No Círculo de Liderança do Grupo (composto por 540 executivos), a proporção de mulheres deve chegar a pelo menos 33% em 2025 (atualmente está em 23%). Até 2030, a Bayer pretende atingir paridade de gênero em todos os níveis de gerência.

Quais são as prioridades e os principais desafios globais da companhia neste momento?
Nossa prioridade no segmento agrícola tem sido desenvolver soluções que ajudem a moldar a agricultura do futuro e beneficiem agricultores, consumidores e nosso planeta. Temos grandes desafios, como entregar soluções cada vez mais alinhadas às necessidades específicas dos agricultores, principalmente em países de clima tropical e proporções continentais como o Brasil. Além disso, alinhar a sustentabilidade com a maior inteligência no campo, o que gera diversas oportunidades e comprova que a lucratividade e o desenvolvimento sustentável não são antagônicos. Precisam andar juntos.

A América Latina representa 25% do faturamento da companhia. Sua expectativa é de que essa participação cresça?
É difícil prever, mas é fato que a América Latina vem em um ritmo de crescimento constante nos últimos anos. E, apesar do cenário macroeconômico de volatilidade, vem capturando muitas das possibilidades apresentadas pelo mercado agrícola. E nós ainda vemos muitas oportunidades de avanço para os próximos anos.

Em quais segmentos os resultados podem ou devem ser melhores?
O negócio da Bayer se baseia em um mix único de sementes e biotecnologias, proteção de cultivos e ferramentas digitais. Trabalhamos essas soluções para atender às necessidades específicas de cada produtor, já que há muitas variáveis envolvidas no agronegócio e diferentes dinâmicas de solo, clima e manejo.

Quais seriam as novas fronteiras de avanço?
Há um potencial especialmente amplo a ser trabalhado na frente de agricultura digital. A incorporação e massificação do uso de dados, equipamentos inteligentes, big data e inteligência artificial abrem um horizonte para que produtores possam integrar as melhores soluções, considerando o cenário específico de suas regiões, apoiados por informações que ajudam a utilizar os insumos de forma mais eficaz.

As perspectivas para o mercado de biológicos são otimistas?
Vemos uma convivência saudável e sinérgica entre biológicos e químicos, já que os dois segmentos se complementam, trazendo diversos benefícios e uma contribuição fundamental para a produção de alimentos. A Bayer investe há muitos anos em soluções biológicas globalmente e em 2013 ingressou nesse mercado no Brasil. Na América Latina, entre 2014 e 2020, o crescimento do mercado de biológicos foi superior a 20% ao ano, atingindo mais de 260 milhões de euros

O Sindicato da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal tem alertado quanto à escassez de matérias-primas para o setor. O agricultor deve se preocupar com o aumento dos custos?
As cadeias globais de abastecimento, ligadas ou não ao agro, têm sofrido em alguma medida com desafios logísticos, de escassez de matérias-primas e componentes. Na agricultura, isso se refletiu com mais força nos últimos meses no fornecimento de fertilizantes e alguns insumos. Ainda que oscilações sejam possíveis, temos atuado de forma bem-sucedida até aqui em todos os nossos mercados para mitigar os impactos no fornecimento de nossas soluções, dialogando com parceiros e clientes em busca de alternativas e reforçando nosso compromisso com a transparência, sempre em contato com os agricultores para garantir que tenham o necessário para as próximas safras.

“Esperamos que o ambiente continue positivo em relação ao preço de commodities, mas existe uma pressão maior de custos no agronegócio” (Crédito:Istock)

De que forma o câmbio impacta nos custos da cadeia produtiva como um todo?
A desvalorização cambial impacta, sem dúvida, porque temos muitas das nossas matérias-primas importadas. Ela pressiona os custos e as margens, impactando por sua vez a nossa precificação. Em resumo: nossa precificação é em reais, nosso custo é em euros ou dólares; se eles desvalorizam ou se tornam voláteis, geram incertezas e dificuldades de planejamento para nós.

A Bayer iniciou um projeto com a Embrapa voltado à estruturação do mercado regulado de créditos de carbono. Ele avançou?
O Brasil tem a chance de se tornar protagonista e se beneficiar do mercado de carbono, tendo na agricultura uma das principais soluções para reduzir emissões e capturar carbono no solo. Por meio do programa PRO Carbono, a Bayer, em parceria com diversos agentes como a Embrapa, oferece vantagens e incentiva a adoção de práticas mais inteligentes e sustentáveis de cultivo para os agricultores participantes do projeto, com o objetivo de aumentar o potencial produtivo e o sequestro de carbono, gerando oportunidades de valor para o produtor rural.

Qual a abrangência atual dessa iniciativa?
Mais de 2,5 mil usuários da nossa plataforma de agricultura digital já participaram da iniciativa no Brasil e nos EUA em seu primeiro ano. A partir desta safra 2021-22, agricultores brasileiros vão acompanhar o acúmulo de matéria orgânica nos talhões participantes pelos próximos três anos, mas o que temos observado até aqui é que essa adoção de práticas ainda mais sustentáveis e mais aderentes à realidade de cada produtor rural tem potencial de trazer ganhos relevantes não só de sustentabilidade, mas também de produtividade e rentabilidade.

Qual a sua visão do ambiente de negócios no Brasil para o ano que vem?
Do ponto de vista do agronegócio, esperamos que o ambiente continue positivo em relação ao preço de commodities, mas, sem dúvidas, existe uma pressão maior de custos. Ao mesmo tempo, vamos viver um contexto eleitoral, que pode gerar mais volatilidade em vários aspectos. Isso traz um nível maior de incertezas e imprevisibilidade com o qual precisaremos lidar. A perspectiva, portanto, é continuar em um cenário positivo sob a ótica do agronegócio.

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