Humanização por aplicativo

Humanização por aplicativo

Gestores e profissionais envolvidos com a humanização no meio corporativo devem ampliar suas perspectivas e ir em busca de fontes que não se limitam ao repertório técnico e científico

Já se tornou lugar-comum falar das grandes transformações que estão ocorrendo ou ainda irão ocorrer na dinâmica do trabalho em função da pandemia do novo coronavírus. Algumas já são claramente observáveis; outras, intuídas, e muitas dependerão da capacidade e alcance de visão dos gestores. Neste contexto, a temática da humanização, que já vinha sendo colocada com crescente insistência no ambiente empresarial, ganhou uma força extraordinária nesses tempos de Covid-19. Independentemente das novas condições no pós-pandemia, na mesma medida em que as novas tecnologias assumem um papel preponderante, o desafio da humanização torna-se inevitável.

Não é preciso ser nenhum especialista em saúde para perceber que a intensificação do trabalho remoto está agravando uma série de distúrbios e patologias recorrentes no ambiente corporativo desde algum tempo. Mais do que nunca, humanizar é preciso. Entretanto, como fazê-lo numa era dominada pelas novas tecnologias digitais?

Antes de tudo, é preciso ter o senso crítico suficientemente desenvolvido para não cair na tentação de demonizar as novas tecnologias, vendo-as como “culpadas” pela desumanização no meio corporativo e na sociedade. Por outro lado, entretanto, um senso crítico ainda mais aguçado é necessário para não se cair na ingenuidade de acreditar que a propalada humanização pode ser alcançada por meio dessa mesma tecnologia, como se fosse possível, por exemplo, “aplicativos de humanização” baseados em inteligência artificial. Isso, mais do que um contrassenso, é um verdadeiro equívoco antropológico.

A humanização está relacionada com a experiência humana no seu sentido mais amplo, e isso vai muito além da dimensão lógico-racional ou técnico-comportamental. Concebida para operar numa lógica algorítmica, a tecnologia digital, por si só, é incapaz de mobilizar dimensões essenciais do humano que escapam ao âmbito do binário, do zero ou um. Nesse sentido, propostas de humanização que se limitam ao desenvolvimento e à aplicação de novos recursos tecnológicos, por mais que possam parecer atrativas num primeiro momento, estão inevitavelmente fadadas ao fracasso.

Nesses tempos em que a humanização desponta como um dos temas mais recorrentes no universo da gestão de pessoas e dos recursos humanos, é preciso, com urgência, questionar os referenciais teóricos e metodológicos que norteiam as novas propostas ou “programas”. Se não quiserem cair na armadilha do equívoco antropológico, os gestores e profissionais envolvidos com a humanização no meio corporativo devem ampliar suas perspectivas e ir em busca de fontes que não se limitam ao repertório técnico e científico.

Aplicativos podem ser muito úteis e funcionais. Mas quando se trata de humanizar esse ser tão disfuncional e insuficiente que é o humano, eles são claramente ineficazes.

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Sobre o autor

Doutor em História pela USP, Dante Gallian é professor da EPM-Unifesp, coordenador do Laboratório de Leitura e colaborador da Responsabilidade Humanística. Publicou o livro A Literatura como Remédio – Os Clássicos e a Saúde da Alma (Martin Claret)


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