Finanças

História de pescador

A gestora Tarpon perdeu muito dinheiro na BRF. Isso gerou a desconfiança dos investidores, o encolhimento do patrimônio e, agora, a proposta de fechar capital

História de pescador

A última grande tacada da Tarpon foi a venda da somos educação, em maio do ano passado, por R$ 4,6 bilhões

O Tarpon é um dos maiores peixes do Oceano Atlântico. Pode chegar a 2,5 metros e atingir 150 quilos. Tem corpo achatado e boca proeminente, o que dificulta sua captura e o torna cobiçado entre os pescadores. Não por acaso, José Carlos Magalhães Neto lembrou-se do nome em 2002, quando inaugurou uma gestora de recursos em sociedade Pedro de Andrade Faria e Eduardo Mufarej. Com apetite voraz, a trinca começou gerindo capital próprio, com a proposta peculiar de priorizar grandes investimentos estratégicos em poucas empresas. Para atrair mais recursos, abriram capital em 2007. Porém, em 2013, o peixão foi fisgado pela própria voracidade e se enrolou ao tentar abocanhar a BRF, bem maior que ela própria.

No seu ápice, em 2013, a gestora administrava R$ 10 bilhões. O fiasco na BRF gerou a desconfiança dos investidores, que solicitaram resgates de R$ 5,9 bilhões só no terceiro trimestre do ano passado. Com isso, o total gerido encolheu para R$ 2 bilhões e o valor de mercado, que chegou a um pico de R$ 903 milhões, era de R$ 97 milhões no fim de 2018. Foi quando a Tarpon anunciou o fechamento do capital. Agora, seu principal investimento é na Omega, empresa de energias renováveis, na qual Magalhães, conhecido como Zeca, aportou cerca de R$ 1,5 bilhão. Outros R$ 500 milhões estão aplicados em ações de grandes empresas e R$ 700 milhões em ações da BRF serão distribuídos entre os cotistas e os sócios.

A Tarpon atraiu a atenção do mercado pela excelência em escolher boas ações. Em 2009, porém, os sócios mudaram sua filosofia e passaram a ser mais atuantes nas empresas em que investiam. A catarinense Cremer foi o laboratório. Os investimentos começaram em 2007, e o controle foi adquirido em 2013. Antes disso, em 2009, Alexandre Borges, egresso da Tarpon, assumira a presidência. Ele fez aquisições e repaginou o portfólio, dando prioridade aos produtos mais rentáveis, como o esparadrapo. Em novembro de 2017, a Tarpon vendeu seus 91,1% do capital para o grupo Mafra por R$ 499 milhões, comemorando um retorno médio de 25% ao ano.

Outro caso de sucesso foi na Arezzo. Em 2007, quando a Tarpon comprou 25% das ações por R$ 76 milhões, a calçadista valia R$ 300 milhões. Em 2011, os gestores ajudaram os fundadores da família Birman a abrir capital, levantando R$ 565,8 milhões e permitindo expandir o negócio. Em março de 2012, quando o valor de mercado atingiu R$ 2,6 bilhões, a gestora vendeu os 11,8% que ainda tinha. Foram negócios como esse que fizeram com que a Tarpon faturasse, de 2010 a 2013, mais de R$ 100 milhões por ano em taxas de administração e de performance. Em 2017, no entanto, essa receita caiu para R$ 10 milhões. A última grande tacada da gestora foi a compra da Abril Educação em fevereiro de 2015, por R$ 1,3 bilhão. A empresa se tornou a Somos Educação e foi vendida em maio do ano passado para a Kroton por R$ 4,6 bilhões.

TROPEÇOS

As apostas bem-sucedidas da gestora deram fôlego para uma empreitada maior: controlar a BRF, uma das maiores empresas de alimentos do mundo. A Tarpon investiu quase 70% de seu capital para adquirir 11,3% da empresa e, em 2014, indicou o sócio Pedro Faria para a presidência. Faria realizou várias mudanças, tentando replicar os modelos que haviam dado certo na Cremer. O resultado, porém, levou a BRF a águas vermelhas. Em 2016 ela registrou um prejuízo de R$ 372 milhões, o primeiro de sua história. Em 2017, as perdas aumentaram para R$ 1,57 bilhão. Para os analistas, a Tarpon cometeu três grandes erros na gestão da BRF.

O primeiro deles foi ter investido quase R$ 5 bilhões em 15 aquisições, a maioria delas internacionais, e ter gasto outros R$ 4 bilhões para recomprar ações. A operação foi lançada em 2015, quando os papéis estavam cotados a R$ 60 (na quarta-feira 9, fecharam a R$ 22,93). “A recompra ocorreu no pior momento”, diz um analista. Outro equívoco foi a ruidosa dispensa de executivos de carreira, que conheciam profundamente o negócio e se abrigaram na concorrente Seara. “Eles tentaram imitar o processo da AmBev, mas com isso perderam o traquejo do agronegócio”, diz outro analista. Um ex-diretor da BRF ligado à Tarpon resume a história. “Nossa ideia era criar um ‘Google dos alimentos, mas perdemos o foco no principal, que é acordar cedo e ir matar frango e porco”, diz.

O terceiro e pior erro foi na estratégia para o mercado brasileiro. A BRF quis imitar a Cremer. Concentrou-se nos produtos com maior margem, distribuídos em grandes supermercados, e esqueceu-se dos pequenos pontos de venda, responsáveis pelo grosso do movimento. “Isso fez a BRF perder espaço nas prateleiras para a Seara, a sua principal concorrente”, afirma o analista. Ele estima que, desde 2013, a participação de mercado encolheu em dez pontos percentuais.

A partir de agora, a Tarpon deve investir em companhias menores e com potencial de crescimento. Outro setor que entrará na mira é o de tecnologia. Magalhães e seus sócios querem levar seu peixe para águas mais calmas. “Eles só querem virar a página”, resume um gestor concorrente. Procurada, a Tarpon não concedeu entrevista.