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Hiperdesemprego, nosso grande inimigo

Este é o Dragão a ser morto, como foi o da hiperinflação, monstro parido pelos sábios do tal milagre econômico.

Hiperdesemprego, nosso grande inimigo

Um dos princípios fundamentais da Lei das Probabilidades diz que quanto mais se repete uma experiência aleatória, mais a média dos resultados torna-se previsível. “Em outras palavras, a longo prazo, até o acaso mais completo dá origem a comportamentos médios que nada mais terão de aleatórios”, escreveu Mickaël Launay. Taí um cara que deveria ser mais conhecido por nós. Há menos de cinco anos este matemático francês lançou o livro Le Grand Roman des Maths (no Brasil, A Fascinante História da Matemática). Ele tem um popular canal no YouTube com mais de meio milhão de seguidores. Mas é no estudo das probabilidades, área em que fez doutorado, que habita sua grande paixão. E é isso que nos interessa aqui.

De forma assustadora, o Brasil dá sinais evidentes de que já convive com uma taxa de desemprego endêmica. Pior. Caminhamos para a Era do Hiperdesemprego. Da mesma maneira que a inflação endêmica nos levou à Era de Hiperinflação. O estrago é sabido por todos. E dura anos, muitos anos. Não estamos apavorados de forma mais contundente porque as mortes pela Covid e os freios provocados pela doença na economia foram fermento para a inércia em relação ao tema “mercado de trabalho” que, no final das contas, é o mercado de consumo. Com PIB em elevação (ninguém quer saber se a base era tão destruída ou que segue abaixo de qualquer comparativo internacional) e com Bolsa em alta (ninguém quer saber se a oferta global de crédito parou no topo da sociedade e virou combustível por ativos) nossa tragédia encontra-se esfumada.

Vamos escancará-la. No primeiro trimestre do ano somamos 14,8 milhões de pessoas sem emprego. Dá 14,7%. Os que preferem não enxergar dizem que todo começo de ano é assim. Não. Não é assim. O número é recorde. E minimizar é não entender a dor e a destruição de um emprego perdido ou não encontrado. Num prazo de 100 dias esse contingente cresceu 880 mil pessoas. Dá seis por minuto. Seguem outros ingredientes:
­— O número de desalentados (aqueles que desistiram de procurar emprego) soma 6 milhões de pessoas.
— A massa de trabalhadores subutilizados chega a 33,2 milhões de pessoas. Soma desempregados, desalentados, subocupados (que atuam menos de 40 horas por semana) e os que não trabalham por outros motivos (mulheres que cuidam dos filhos, por exemplo).
— A legião de trabalhadores informais é de 34 milhões de pessoas (39,6%), supera o de pessoas do setor privado em regime CLT (29,6 milhões). Se formassem um país na União Europeia ele teria a sexta maior população entre 28 nações e poderia estar tranquilamente jogando a Eurocopa.
— Para finalizar, o desemprego para quem não concluiu ensino médio é de 24,4% e entre os jovens (18 a 24 anos) é de 31%, duas vezes maior que a média.

O mundo pós-pandêmico indica que todos os setores, inclusive industriais, serão também prestadores de serviços. E que todos os segmentos exigirão ainda mais uso intensivo da tecnologia. Essa combinação tornará obrigatória uma massa trabalhadora mais qualificada – alguém ainda não desconfiou que no mundo dos carros elétricos a gente será mercado consumidor e não produtor? O futuro parece nos ter excluído da sua lista de convidados.

Combater o Hiperdesemprego nesse cenário exigirá o mesmo conjunto de fatores que tivemos para combater a Hiperinflação três décadas atrás. Essencialmente, um líder político de envergadura e um corpo técnico à altura. Bem. Chegamos ao ponto. A última das qualidades que a República Militar de Bolsonaro fornecerá vai ser esse duo. Como já nos ensinou Barão de Itararé, de onde menos se espera é dali que nada sai.

O matemático francês Launay praticamente encerra seu livro falando que não é só a repetição de experiências aleatórias que conduz a resultados previsíveis. “Os processos aleatórios têm múltiplas aplicações. E uma das mais férteis está na dinâmica das populações.” O exemplo que traz é de um grupo com 60% das pessoas de olhos escuros e 40% de olhos claros. Quanto mais gente houver com certa cor (olhos escuros, no caso), mais esse tom terá chances de reaparecer e aumentar ainda mais sua proporção no todo. Até que predominem amplamente pessoas de olhos escuros. “O processo se autoalimenta”, diz. Impossível ler isso e não pensar que em determinado momento da história nossa elite governante foi formada por 60% de idiotas. Hoje, o que temos é a autoalimentação da probabilidade. O aleatório se tornou previsível.

Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO.