Negócios

Harley-Davidson acelera para o exterior

Um dos principais símbolos do sonho americano no pós-guerra, tradicional fabricante de motocicletas dá às costas à Casa Branca com a guerra comercial de Donald Trump

Crédito: Nicholas Kamm

Bye, bye América: a Harley-Davidson vai internacionalizar sua produção, o que enfureceu o presidente Trump (Crédito: Nicholas Kamm)

Em fevereiro de 2017, logo após Donald Trump assumir a presidência dos Estados Unidos, os executivos da Harley-Davidson foram convidados para visitar a Casa Branca. Símbolo do sonho americano no pós-guerra, a fabricante de motocicletas era um dos pilares para a política nacionalista do presidente, em especial para a reforma fiscal, que beneficiaria as empresas ícones do país. Dezesseis meses depois, a companhia anunciou que vai transferir parte de sua produção para o exterior, nos próximos 18 meses. Oficialmente, ela ainda não confirmou qual será o seu destino. Trump usou o Twitter para vociferar contra o adeus. “A Harley deve saber que não poderá voltar a vender nos EUA sem pagar um grande imposto!”, escreveu ele, que também disse que a mudança estava programada e à espera de uma “desculpa”.

A decisão da Harley-Davidson aconteceu depois que a União Europeia aumentou de 6% para 31%os impostos de importação de produtos americanos em retaliação às tarifas de aço e alumínio de Trump. “A interferência do presidente nas decisões das empresas cria um cenário de incertezas nos negócios”, diz Diego Coelho, especialista do Observatório de Multinacionais da ESPM. A medida eleva o preço de exportação de uma moto em US$ 2,2 mil, em média. “A nova taxa iria corroer a posição competitiva da Harley-Davidson”, diz Justinas Liuima, analista da Euromonitor International. “Os fabricantes estão enfrentando uma demanda menor por motocicletas nos Estados Unidos. Os baby boomers se aposentam e a geração mais jovem reluta em comprar motocicletas.”

Os números estão pressionando a Harley-Davidson. No mercado americano, as vendas do setor ficaram estagnadas por cinco anos, até 2016. No ano passado, a Harley-Davidson vendeu apenas 147,9 mil unidades, 20 mil a menos do que em 2015. O maior crescimento para a empresa tem acontecido no mercado externo. Atualmente, 43% de sua produção anual tem como destino outros países. Os asiáticos são os principais compradores e os europeus vem em seguida, com a aquisição de 40 mil motos no ano passado. O objetivo da Harley-Davidson é aumentar essa participação internacional para além dos 50%, num curto espaço de tempo. “O risco é que a imagem da marca seja diluída pela terceirização da produção, o que pode tornar mais difícil aumentar as vendas em volume”, diz Liuima, da Euromonitor.