Edição nº 1138 16.09 Ver ediçõs anteriores
500 Startups

Entrevista

Bedy Yang, sócia da 500 Startups

Há uma lacuna grande no Brasil. Quem entrar e investir vai capturar valor

Divulgação

Há uma lacuna grande no Brasil. Quem entrar e investir vai capturar valor

Rogério Godinho
Edição 20/04/2018 - nº 1066

Quando se trata de startups, a paranaense Bedy Yang, de 39 anos, está no centro do mundo. E não só porque trabalha na cidade americana de Mountain View, no coração do Vale do Silício, onde fica a sede do Google. Mas sim porque é sócia do fundo de venture capital 500 Startups, uma das mais ativas operações de investimento de capital de risco da atualidade. O fundo investe pequenas somas de dinheiro na fase inicial de startups para dar o primeiro impulso ao negócio. Por essa razão, tem uma carteira bastante extensa. São duas mil participações em projetos de empreendedores em mais de 60 países, com um total de US$ 400 milhões investidos.

O comando desse portfólio se torna ainda mais turbulento quando se ouve Yang afirmar que pelo menos 1.600 dessas empresas fracassarão. Mas quando acerta um investimento, o retorno é garantido. A lista de sucessos da 500 Startups conta com três unicórnios, como são chamadas as startups que valem mais de US$ 1 bilhão. A relação inclui a GrabTax, conhecida como “Uber asiático”, que vale US$ 6 bilhões, e a Credit Karma, de serviços online de análise de crédito, avaliada em US$ 3,5 bilhões. Outra é a Twilio, que criou uma ferramenta para integrar recursos de mensagens de texto, voz e vídeo em sites e em aplicativos, abriu o capital na bolsa eletrônica Nasdaq, em 2016, e a capitalização atualmente está na casa dos US$ 3,5 bilhões.

No Brasil, são 42 startups, com nomes como o portal imobiliário Viva Real, a operação de educação Descomplica e o sistema de gestão online para empresas ContaAzul. “Acredito que há uma lacuna muito grande no Brasil. Quem entrar e investir vai capturar valor”, diz ela. Entre análises e recomendações, Yang revela como a 500 Startups lidou com a acusação de assédio contra o fundador Dave McClure, que deixou a empresa no ano passado. Confira os principais trechos da entrevista:

DINHEIRO – Como as startups enfrentam a crise?

BEDY YANG – Acredito que as empresas estão passando por uma fase muito melhor. Entre 2016 e 2017, com a insegurança política no Brasil, muitas empresas não conseguiram captar. Mas, no começo deste ano, várias das nossas startups fizeram mega-rodadas de investimentos, de US$ 10 milhões a US$ 100 milhões. Foi uma surpresa para nós. Acredito, agora, que o mercado brasileiro de startups está um pouco desconectado do contexto macroeconômico. Claro que ninguém quer se movimentar para esperar o que vai acontecer nas eleições. Mas os resultados das empresas estão bons. É uma ótima notícia para nós.

DINHEIRO – É verdade que a 500 Startups define um unicórnio de maneira diferente?

YANG – A definição no mercado é muito clara. Startups que valem US$ 1 bilhão ou mais são consideradas unicórnios. Mas para a 500 Startups o importante não é o valor, mas o retorno. Para nós, o retorno desejado é a partir de 50 vezes o valor investido. Para conseguir isso, é preciso olhar desde o momento do investimento até a hora da saída, o que pode demorar de sete a dez anos para acontecer.

DINHEIRO – E qual é a expectativa da 500 Startups com o mercado brasileiro?

YANG – Investimos em empresas brasileiras desde 2011. Atualmente temos 42 startups. E as estatísticas são boas. A ContaAzul, por exemplo, acabou de captar R$ 100 milhões. Mas sabemos que, em média, apenas 3% das empresas que investimos vão conseguir ter sucesso. No máximo uma ou duas startups brasileiras vão se tornar bilionárias ou vão nos trazer um retorno de 50 a 100 vezes do que investimos.

DINHEIRO – Errar um investimento, então, faz parte do cálculo da 500 Startups?

YANG – Exatamente. É preciso saber que se trata de capital de risco, de verdade. Muitas vezes, os investidores são conservadores. Eles botam um dinheirão e querem resultados rápidos. O nosso modelo é diferente. Fazemos pequenos aportes e vamos aumentando os recursos conforme a startup vai ganhando escala. Com recursos que variam entre US$ 1 milhão e US$ 3 milhões, é possível investir em empresas excelentes no Brasil. Mas sabemos que apenas de 2% a 3% vão dar um retorno de 50 vezes o que investimos. Outras 5% terão um retorno de aproximadamente 25 vezes. No nosso caso, posso investir em até 100 empresas. Se dez delas derem certo, será o suficiente para pagar todo o portfólio.

DINHEIRO – A empresa tinha planos de lançar um fundo novo no Brasil. Isso não aconteceu. Por que desistiu?

YANG – Dentro da estratégia da 500 Startups, é importante ter fundos locais. Temos pelo menos 10 fundos estruturados ao redor do mundo. O Brasil é um mercado relevante e em termos de estratégia faz sentido. Só que para montar o “500 Brasil” é muito importante ter âncoras de investidores. Com a questão política no Brasil, ninguém queria colocar dinheiro em investimentos de risco. Mas vamos continuar investindo no Brasil.

DINHEIRO – Sem o fundo local, qual a perspectiva para investir?

YANG – Sem um fundo dedicado, dificilmente investiremos em mais do que duas empresas brasileiras por rodada. As startups brasileiras passam a competir com empresas da Índia, da China, de São Francisco, de Nova York e da Europa. Fica mais difícil para elas levantar capital.

“O Brasil melhorou muito do ponto de vista das startups. Aconteceram grandes saídas, como a da 99 e da PagSeguro”Os empreendedores Paulo Veras, Renato Freitas e Ariel Lambrecht, que venderam a 99 para a chinesa Didi Chuxing por US$ 1 bilhão (Crédito:Divulgação)

DINHEIRO – O projeto do fundo no Brasil pode ser reativado no curto prazo?

YANG – Ainda não. Até dois anos atrás, eu estava focada nisso. Hoje todo o meu foco é em aumentar a equipe. Mas acredito que há uma grande oportunidade. O Brasil melhorou muito do ponto de vista das startups. Aconteceram grandes saídas, como a da 99 (que foi vendida para a Didi Chuxing por US$ 1 bilhão) e a da PagSeguro (empresa de pagamento do UOL que abriu o capital na Bolsa de Nova York e captou US$ 2,3 bilhões). Minha tese é que o Brasil é o último grande mercado sem capital suficiente. No Sudeste Asiático, por exemplo, os investidores estão mais propensos em apostar no capital de risco. Na Europa, o capital de risco representa um décimo do dos EUA. Então, a União Europeia lançou um fundo de € 2,6 bilhões para igualar essa diferença de venture. No Brasil, a diferença com a Europa e com outros lugares é imensa. Eles têm setenta, oitenta vezes mais capital de risco injetado no mercado do que no Brasil. Portanto, acredito que há uma lacuna muito grande no Brasil. Quem entrar e investir vai capturar valor. Recomendo aos investidores do Brasil e de fora a investir em capital de risco.

DINHEIRO – A tendência da 500 Startups é aumentar a presença em fundos locais?

YANG – Temos lançado mais fundos dedicados. Por volta de 30% do nosso capital vão para empresas globais, mas 70% ainda ficam nos Estados Unidos. Mas estamos aumentando gradativamente os recursos. Muitas das oportunidades estão nos mercados emergentes. O futuro está em empresas do Brasil e da Índia. Temos também uma operação muito forte no Oriente Médio.

DINHEIRO – Os países emergentes são, então, uma prioridade?

YANG – Sim, prioridade total. Temos uma base forte no Vale do Silício. Aqui tem capital, conhecimento e mentoria. Observamos as tendências por aqui. Mas, ao mesmo tempo, a tendência é aumentar os investimentos internacionais.

DINHEIRO – O fundador da 500 Startups, Dave McClure, foi acusado de assédio sexual e deixou o comando da empresa. Como a companhia lidou com essa questão?

YANG – Treinamos os funcionários dizendo para eles quais eram os parâmetros, as coisas que podem e o que não podem fazer. Informamos também as áreas cinzentas. Ensinamos, inclusive, como fazer relatórios em uma situação sensível. Além disso, a 500 Startups ficou mais feminina. Mais de 40% do quadro de funcionários são de mulheres e temos muitas na liderança. A CEO é uma mulher (Christine Tsai, que assumiu o comando após a saída de McClure). Vamos começar a trabalhar com as empresas do nosso portfólio para que elas também contratem mais lideranças femininas.

“A 500 Startups ficou mais feminina. Mais de 40% do quadro de funcionários são de mulheres e temos muitas na liderança.”Dave McClure, fundador da 500 Startups, que deixou o
comando do fundo acusado de assédio sexual

DINHEIRO – Há um problema cultural?

YANG – Não acho que havia internamente um problema cultural. Há sim a cultura do machismo. A 500 Startups sempre teve um viés muito forte de mudança do status quo. O nosso conceito é o da diversidade, de coisas alternativas, do que você não está acostumado a ver.

DINHEIRO – O setor de educação atrai interesse dos fundos de investimentos, mas parece que não é fácil ganhar dinheiro nessa área, não?

YANG – Não tínhamos certeza se conseguiríamos investir em empresas que conseguem ganhar dinheiro em educação. Principalmente, com toda a informação disponível em canais do YouTube sobre essa área. Mas o site Descomplica mostra claramente que você pode montar um modelo de negócio sólido. Uma contrapartida seria em saúde, em que há muitas oportunidades. Mas é um setor muito regulamentado.

DINHEIRO – O perfil do empreendedor no Brasil parece ser bem diferente dos EUA…

YANG – Sim. No mercado americano, os empreendedores são bons em distribuição e de como atingir o mercado. Afinal, sua empresa pode ter um bom produto, mas não saber como atingir sua audiência. Prestamos atenção em empreendedores com esse perfil. No Brasil, faltam profissionais com experiência em produto. Recentemente, investimos em uma startup porque o empreendedor era advogado e conhecia profundamente o problema que estava tentando resolver usando tecnologia.

DINHEIRO – Quer dizer que o empreendedor brasileiro tem visão de mercado, mas falha na execução?

YANG – É preciso avaliar sua bagagem e suas habilidades. Não é porque um profissional trabalhou na área de tecnologia da Globo que significa que ele será um bom diretor de tecnologia. Preciso buscar outras formas de avaliá-lo. Mas o empreendedor brasileiro está cada vez mais maduro. É uma evolução natural.

DINHEIRO – Existe dificuldade para encontrar esse empreendedor?

YANG – Normalmente, os investidores buscam encontrar um empreendedor serial. Eu não quero restringir a busca, pois quero diversidade e uma rede com perfis distintos.

DINHEIRO – Qual será o foco da próxima onda das startups?

YANG – Aqui no Vale do Silício estamos rastreando startups que investem na tecnologia de Blockchain. Acredito que cedo ou tarde essa tendência vai chegar ao Brasil com startups que desenvolvem soluções baseadas nessa tecnologia.

DINHEIRO – Empresas de tecnologia estão perdendo valor de mercado desde o caso da Cambridge Analytica, que usou dados de 87 milhões de usuários do Facebook. O Vale do Silício está em crise?

YANG – Não existe crise no Vale do Silício. As startups daqui seguem crescendo.


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