Negócios

Grupo de risco

Polícia Federal usa mensagens de WhatsApp entre o empresário Abilio Diniz, o ex-presidente da BRF, Pedro Faria, e Zeca Magalhães, sócio da Tarpon, para indiciá-los por estelionato e organização criminosa. O Ministério Público vai decidir se acata o caso

Grupo de risco

Entre às 2h11 da madrugada e às 9h25 de 10 de setembro de 2015, um grupo de WhatsApp formado por Abilio Diniz (à esq.), ex-presidente do Conselho da BRF, Pedro Faria, ex-presidente-executivo da companhia, e Zeca Magalhães, sócio da Tarpon Investimentos e acionista da empresa, trocou 15 mensagens. Eles tentavam entender como a informação de uma contaminação com os produtos da maior processadora de alimentos do Brasil tinha se tornado pública. Entre a suspeita de vazamento de dentro do Ministério da Agricultura (Mapa), o trio discutia como minimizar os danos da repercussão. “Cenário preocupa. Vou deixando vocês a par”, escreveu Faria, no último contato feito no dia.

Embora o conteúdo deixe dúvidas sobre o conhecimento deles nas fraudes laboratoriais e no envio de dados fictícios para o Mapa, como revelado pelas Operações Carne Fraca e Trapaça, esse é um dos pontos-chave utilizados pela Polícia Federal (PF) para indicar que a direção da BRF sabia das contaminações. “O contexto das conversas indica o conhecimento do corpo executivo da BRF sobre a ocorrência de detecção de substâncias nocivas à saúde em produtos oriundos da empresa. Diniz e Faria poderiam tomar as medidas técnicas e eficazes, em âmbito sanitário, para que se determinasse a causa-raiz da contaminação química dos produtos”, diz o delegado Mauricio Moscardi Grillo.

No relatório encerrado na segunda-feira 15, a PF indicia Abilio, Faria, Zeca e outras 40 pessoas por crimes contra a saúde pública, de falsidade documental e estelionato qualificado. Caberá ao Ministério Público Federal aceitar a conclusão do trabalho, arquivá-lo ou pedir novas provas. Em nota, a Península Investimentos, gestora criada por Abilio, disse “que não existem elementos que demonstrem irregularidades cometidas” e que o “indiciamento não indica culpa, mas apenas que a autoridade policial considera haver indícios de atos ilícitos”. O advogado Aloisio Medeiros, que representa Faria, informou, também em nota, que seu cliente “esclarece que jamais houve qualquer determinação da diretoria do Grupo BRF, muito menos de Pedro Faria, no sentido de acobertar quaisquer eventuais desconformidades”. A Tarpon não se manifestou.

O indiciamento da PF acontece no momento em que a BRF tenta convencer os investidores de que o plano de Pedro Parente, atual CEO, é capaz de reduzir o endividamento e melhorar a operação da companhia. Por isso, uma das decisões é dar total transparência às ações. Além de ter afastado preventivamente os funcionários citados no relatório da PF, a BRF informa que colabora com as investigações e negocia com o Ministério Público Federal. A BRF estaria também negociando um acordo de leniência com o MPF e com a Controladoria-Geral da União. A empresa, no entanto, não confirma essa informação.