A greve em Brasília na visão de um jornalista-corredor

Em um circuito de seis quilômetros, incluindo a Praça dos Três Poderes, havia muita polícia, poucos manifestantes e nenhuma ideia nova

A greve em Brasília na visão de um jornalista-corredor

Eram 7h10 da manhã quando o som de bombas de efeito moral se sobrepunha ao barulho das turbinas dos aviões que pousavam e decolavam do aeroporto de Brasília. Pequenos grupos de manifestantes interditavam o acesso aos terminais aeroportuários, gerando atrasos e cancelamentos de voos. A Polícia Militar do Distrito Federal interveio e desbloqueou a passagem com o uso dos artefatos explosivos. A sexta-feira (28) de greve geral prometia muitos transtornos na Capital Federal.



As principais ruas, no entanto, ainda estavam desertas. Congestionamentos só existiam aonde havia bloqueios. Após dois dias de trabalho em Brasília, eu já estava com as malas prontas para retornar a São Paulo. Porém, o desejo de acompanhar, in loco, aquela que prometia ser a maior paralisação dos últimos tempos me levou a encarar um desafio. Que tal colocar shorts e camiseta para correr seis quilômetros (somando a ida e a volta) entre o hotel e a Praça dos Três Poderes? Afinal de contas, se nenhum veículo seria autorizado a chegar tão perto do centro do Poder, a melhor estratégia era ir a pé.

Às 8h23, o céu estava nublado e o clima não muito seco. Os termômetros marcavam 23 graus. Peguei o Eixo Monumental e iniciei a corrida. Ao passar pela rodoviária, percebi que a greve era para valer. Poucos ônibus e quase nenhum passageiro no local. Logo adiante a via estava bloqueada pela polícia. Três carros de sons de sindicatos aguardavam autorização para passar. “A Secretaria de Segurança Pública do DF, de forma autoritária, não quer autorizar a nossa passagem”, informava, aos berros, um dos líderes do movimento.

Em frente à Biblioteca Nacional de Brasília, havia cerca de 10 pessoas com bandeiras da União dos Policiais do Brasil (UPB). Ao fundo, um pato amarelo inflável. Era o da Fiesp? Não. Era um pato com uma máscara do Zorro da própria UPB. “Os policias querem se aposentar”, dizia uma das faixas.

A corrida continuou até que uma nova barreira de policiais estava em frente à Catedral Metropolitana Nossa Sra. Aparecida. Ali, a revista era obrigatória, mas poucas pessoas circulavam naquele horário. Um policial logo percebeu que eu estava praticando uma atividade física e, para evitar revistar alguém suado, pediu gentilmente para que eu mesmo levantasse a minha camiseta. Passagem autorizada!

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Na Esplanada dos Ministérios, algumas barracas estavam montadas com faixas e bandeiras. Só não tinha manifestante. Calma! O horário oficial do encontro era às 9 horas. Em frente ao Ministério da Saúde, uma faixa me chamou a atenção. “Diga não à PEC do Caixão”. Rapidamente perguntei a um rapaz o que era aquilo. “Somos contra essa reforma da Previdência”, afirmou. E eu perguntei: “Apenas por curiosidade, vocês têm alguma outra proposta para apresentar?” E ele respondeu: “Não! Nós somos contra a reforma.” Ah tá. Continuei minha corrida.

Passei em frente ao Itamaraty e, em seguida, cheguei à Praça dos Três Poderes. Era um deserto de pessoas. Nenhum movimento no Supremo Tribunal Federal (STF). O estacionamento externo do Congresso Nacional tinha, no máximo, cinco carros. Convenhamos, hoje é sexta-feira… No Palácio do Planalto, apenas dois integrantes da Guarda Presidencial se destacavam na rampa do Palácio do Planalto.

Era o momento de retornar. Na região havia policiais militares, soldados do Exército e alguns poucos fotógrafos em busca de cenas de manifestação. Fiquei com receio de virar personagem de algum jornalista em busca de manifestante. Afinal de contas, por que alguém estaria fazendo cooper num dia tão atípico em um local tão inusitado? Uma placa na rua informava que a região é interditada aos domingos, das 7h às 16h, para lazer. Até aquele momento, a sexta-feira da greve parecia, de fato, um domingo. Algumas bicicletas circulavam pelo Eixo Monumental e nada mais. E eu seguia correndo.

No caminho de volta, o cenário permanecia mesmo. Eram quase 9 horas e o volume de manifestantes não chegava a cem. Talvez os grupos estivem espalhados em outros pontos de Brasília realizando bloqueios. Ou então resolveram acordar mais tarde. O caminhão de som, agora reforçado com bandeiras da Força Sindical, continuava barrado pela Polícia Militar. Após 37 minutos e 47 segundos, eu finalizei o circuito de seis quilômetros.

Mais do que quantidade de pessoas, eu esperava ter encontrado ideias pela caminho. Espero que isso aconteça ao longo do dia, em todos os cantos do País. A greve faz parte da democracia, mas só vamos progredir com propostas. Se os manifestantes rejeitam a reforma da Previdência apresentada pelo governo e modificada pelo Congresso, a “Casa do Povo”, eles precisam apresentar à sociedade as suas soluções para um rombo que não para de crescer. Só dizer “não” a tudo, não resolve. De bom mesmo, a corrida me gerou um gasto de 474 calorias…


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Sobre o autor

Luís Artur Nogueira é jornalista, economista e palestrante. Está no mercado há mais de 20 anos


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