Economia

Grandes empresas fazem ‘vestibular’ para startups

Grandes empresas fazem ‘vestibular’ para startups

As startups ganharam, nos últimos dois anos, mais chances de fornecer para grandes empresas brasileiras e para multinacionais que atuam no País. Hoje, mais de 50 companhias abrem espaço, via concursos próprios ou parceria com aceleradoras, para inovações para seus negócios. O garimpo de ideias originou um concorrido “vestibular”. Em programas mais estruturados, destinados a desafios específicos, a concorrência fica, em média, em 30 candidatas por vaga. Para desafios abertos, a cada cem inscritas, apenas uma startup costuma ser selecionada.

A altíssima concorrência reflete tanto o “boom” de startups no País – só neste ano, 5 mil empresas devem entrar no mercado, elevando o total de negócios de tecnologia a 15 mil – quanto a falta de preparo de alguns empreendedores que se aventuram no mundo dos negócios sem uma ideia original ou um plano de ação bem definido. Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, os erros mais comuns dos que ficam pelo caminho são ideias sem relação direta com o tema apresentado pelas empresas ou propostas sem chance de ganhar escala.

Para ajudar as empresas a separar o joio do trigo, a 100 Open Startups desenvolveu um sistema que “filtra” ideias. Em 12 anos de mercado, a companhia já cadastrou 30 mil negócios – a maior parte deles hoje fora do mercado. Na plataforma online da companhia, que fomenta a avaliação constante das ideias, hoje há 8,2 mil empresas consideradas ativas.

No entanto, só as 1,5 mil mais bem avaliadas têm chance de um dia apresentar uma ideia ao rol de parceiros, que também é responsável pela manutenção financeira do sistema – o grupo inclui mais de 40 negócios, como Bosch, Dow, Braskem e Johnson & Johnson.

“Vejo uma onda inicial de apoio a startups. É um movimento que ganhou força nos últimos dois anos”, diz Maximiliano Carlomagno, sócio da consultoria de inovação corporativa Innoscience. A empresa, que ajuda gigantes como Klabin, Roche e M. Dias Branco a encontrar startups, diz que as companhias querem estratégias que já tenham alguma prova de aplicação prática. “O maior problema é que, em boa parte dos casos, os resultados são facilmente questionáveis. Não vale apenas ter uma ideia na cabeça.”

Na farmacêutica Roche, que está com as inscrições abertas para seu desafio de startups até o dia 23, os concorrentes precisam ter conseguido provar que seu negócio pode atrair interesse no mercado – foi o que fez a Heartcare, dona de um aplicativo de monitoramento de saúde que já tem mais de 26 mil usuários cadastrados e que foi a vencedora do desafio no ano passado (leia mais na pág. B5).

Do grupo inicial de 150 startups que a Roche seleciona por meio da Innoscience, apenas cinco empresas são convidadas a apresentar seus projetos às diferentes áreas e subsidiárias da Roche, de acordo com Lênio Alvarenga, diretor médico da multinacional. A concorrência, portanto, é de 30 candidatos para cada vaga.

Escala

Seguindo uma estratégia diferente, o banco Bradesco faz o garimpo de startups dentro de casa, sem focar um segmento específico. Tudo começa no Inovabra Habitat, em São Paulo, que serve de espaço de incubação para empresas nascentes. É pelo Habitat que o banco começa a observar potenciais alvos de investimento, segundo Fernando Freitas, superintendente de inovação do Bradesco. “Se vemos ali uma necessidade mapeada, a empresa passa para fase dois”, explica o executivo.

Nessa etapa adicional, o banco tenta ajudar a montar um plano mais estruturado para a startup – se o negócio superar esse desafio, qualifica-se para receber o investimento do fundo do Bradesco voltado ao setor. Os aportes, diz Freitas, podem variar de R$ 1 milhão a R$ 10 milhões ou de R$ 10 milhões a R$ 30 milhões, conforme o nível de desenvolvimento de cada companhia. O funil, porém, é ainda mais estreito: de acordo com o executivo, de cada cem projetos que passam pelo Inovabra Habitat, só um é escolhido para receber investimento.

Um dos negócios que conseguiram levantar capital com o Bradesco foi a Semantix, de Leonardo Santos. A companhia, que faz análise de dados para grandes clientes, incluindo Cielo, Elo, Rede e Claro, hoje tem 300 funcionários e fatura mais de R$ 100 milhões por ano. Parte da equipe veio de aquisições que a companhia fez a partir de 2016, quando recebeu seu primeiro investimento externo. “Nosso objetivo é nos tornarmos um unicórnio, chegando à avaliação de US$ 1 bilhão, e abrir o nosso capital na Bolsa”, afirma Santos.

De olho no mundo real

A filial brasileira da multinacional europeia Roche ainda não utiliza os serviços do aplicativo Heartcare, vencedor da primeira edição do desafio de startups no Brasil, realizado no ano passado. Segundo o publicitário Daniel Santos, fundador da companhia, a matriz, na Suíça, já firmou contrato com o app, que tenta se diferenciar das dezenas de serviços semelhantes ao apostar em uma plataforma que remete a um jogo.

“Criamos um sistema de desafios semanais”, explica Daniel, referindo-se a itens como pressão, peso e outros sinais vitais. Entre os clientes da Heartcare estão grandes corporações, como a filial da IBM no Brasil. “Lançamos um desafio e, em um mês, 14% dos funcionários cadastrados perderam peso”, diz. Além dos departamentos de recursos humanos, o aplicativo também mira todo o ecossistema do setor de saúde, como hospitais, seguradoras, clínicas e laboratórios.

Por meio da tecnologia, a Heartcare quer ajudar a indústria farmacêutica a impulsionar a efetividade dos tratamentos – e isso sem investir um real no desenvolvimento de novas drogas. “Todo mundo sabe que muitas vezes o médico receita um remédio, mas o paciente não toma como deveria. É um problema sério e difícil de resolver”, exemplifica o fundador do app. “Nosso sistema permite o envio de lembretes sobre a hora dos medicamentos.” Para facilitar a medição da pressão arterial, o aplicativo vem com tecnologia que permite o usuário monitore o batimento cardíaco só segurando o celular na mão.

Além de ganhar acesso a clientes graças ao aval da Roche, Daniel conta que também corrigiu algumas práticas de negócio para dar mais credibilidade à sua proposição. “Como eu não sou médico, a gente era muito questionado por isso. Hoje, temos um cardiologista com 32 anos de experiência como sócio”, frisa. Os próximos passos da empresa são o lançamento de versões em vários idiomas, visando ao ganho rápido de escala. “Queremos chegar ao faturamento de R$ 1 bilhão em sete anos”, afirma.

Reciclagem

Enquanto Daniel já tinha um negócio desenvolvido quando foi selecionado Roche, a Green Mining era pouco mais do que um rascunho quando foi escolhida para um dos programas para startups mantidos pela gigante das bebidas Ambev. São duas opções: a voltada a soluções relativas às metas ambientais da companhia permite ideias iniciais, enquanto a dedicada aos negócios de bebidas exige inscrições de empresas estruturadas.

Foi a partir de uma solução de logística reversa para garrafas, que Rodrigo Oliveira e dois sócios se uniram à Ambev para criar a Green Mining. A coleta desse tipo de reciclável, até então feita pelos carrinheiros, passou a ser uma atividade formal, na qual os trabalhadores atuam com carteira assinada. Depois de um período de testes em pontos próximos a bares em Pinheiros e na Vila Olímpia, a Green Mining tem o objetivo de abrir mais dez postos de coleta até o fim do ano. “Devemos contratar mais 25 coletores até dezembro.”

Em vez de ganhar com a venda do material reciclável, o modelo desenvolvido pelos empreendedores cobra um valor mensal dos clientes. A empresa que precisa coletar o material paga os custos da operação e mais uma comissão, ressalta Rodrigo. “O nosso objetivo é expandir o nosso serviço para outras indústrias”, diz o empreendedor. A meta é reduzir a dependência do negócio da Ambev.

Segurança

Ainda em busca de um grande investimento, a empreendedora Gabryella Corrêa é fundadora do Lady Driver, aplicativo de transporte voltado ao público feminino e que conecta passageiras a motoristas mulheres – visando à segurança de ambas. Incubada no Inovabra Habitat, a empresa de Gabryella já foi citada em reportagem do Financial Times. Para “chegar lá”, a empreendedora aposta no propósito: “Sempre tenho de pensar que eu levo segurança às mulheres – essa é nossa missão.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.